[RESUMO] Ao longo de um século e meio, livros, filme e novela mostraram Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, como a ex-escravizada lasciva e vingativa do século 18, que vive um relacionamento pitoresco com um milionário branco. Agora novos projetos iluminam a Chica real, mãe de 14 filhos em Diamantina.
“Ainda vai chegar o dia / de nos virem perguntar: / Quem foi a Chica da Silva / Que viveu neste lugar?”, indagou Cecília Meireles em “Romanceiro da Inconfidência”, livro de poemas sobre a história de Minas Gerais ao longo dos séculos 17 e 18.
Nos anos 1950, quando o livro da poeta foi lançado, Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, já atiçava a curiosidade dos brasileiros. Todavia, pouco se sabia sobre ela além do fato de que havia sido uma escravizada brasileira nascida na primeira metade do século 18 e que tinha recebido a carta de alforria do contratador João Fernandes de Oliveira.
Eles viveram juntos por 17 anos, período marcado pela opulência proporcionada pela mineração no Arraial do Tejuco, mais tarde renomeado como Diamantina, na região central de Minas Gerais. Na terra “onde os diamantes transbordavam do cascalho”, no verso de Cecília Meireles, o contratador se tornou o homem mais rico do império português.
No último século e meio, a fama de Chica cresceu graças a uma sucessão de livros, especialmente romances, além de um filme, uma telenovela e outros produtos de apelo comercial. Como a maioria desses lançamentos desdenhava o rigor das pesquisas de época, o mito tomou definitivamente o lugar da personalidade histórica. E o mito, como se sabe, é de todos e não é de ninguém.
Livros como “Memórias do Distrito Diamantino” (1868), de Joaquim Felício dos Santos; “Vultos e Fatos de Diamantina” (1954), de Soter Couto; e “Chica que Manda” (1966), de Agripa de Vasconcelos, recorreram a escassos dados históricos e a porções fartas de imaginação e preconceito para moldar a figura de Chica.
Com a colaboração de João Felício dos Santos, sobrinho-neto do primeiro autor que escreveu sobre a ex-escravizada, o diretor Cacá Diegues preparou um roteiro a respeito dela e lançou “Xica da Silva” (1976), assim mesmo, com “x”. Em tom carnavalesco, o filme, uma produção bem sucedida, enfatizava a sensualidade e as extravagâncias da personagem.
“Dizem que era feia”, escreveu Cecília Meireles. No filme, com Zezé Motta no papel principal, Chica aparecia belíssima.
Apesar de erros históricos e caracterizações maniqueístas, “Xica” apresentava alguma coerência narrativa, qualidade que sumiu na novela lançada duas décadas depois pela TV Manchete. No folhetim, com Taís Araujo como Chica, houve espaço até para uma participação da atriz pornô italiana Cicciolina.
Diante de tanta fantasia estereotipada nas páginas e nas telas, Chica passou a ser vista como lasciva, uma mulher pronta para se vingar das negras e brancas que se atreviam a cobiçar João Fernandes. Sua relação com o contratador foi tomada como um episódio pitoresco do período colonial brasileiro —afinal, como poderia um português branco e milionário manter uma relação de quase duas décadas com uma ex-escravizada?
Aos poucos, porém, a Chica real, fruto de pesquisas detalhadas em documentos do século 18, volta a ganhar vida. É uma proeza que se deve principalmente a uma historiadora, Júnia Ferreira Furtado, professora aposentada da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
A ex-escravizada nasceu em Milho Verde, a quase 40 quilômetros de Diamantina, entre os anos de 1731 e 1735 —não há registro de uma data exata. Passados quase três séculos, acumulavam-se causos sobre ela, mas nenhum esforço consistente de reconstituição da vida de Chica e do seu contexto.
Ao longo de sete anos, Furtado pesquisou livros de batismo, listas de irmandades religiosas, ordens régias, petições, entre outros documentos, de bibliotecas e arquivos de Brasil, Portugal e Estados Unidos. Em 2003, lançou “Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – O Outro Lado do Mito”, biografia que ganhou recentemente uma reimpressão pela Companhia das Letras.
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A historiadora mostra que a vida levada por Chica se assemelhava à de muitas negras forras do século 18 na região de Diamantina. Seus contemporâneos, aliás, não viam seus laços com João Fernandes como algo peculiar.
“Na sociedade hierarquizada e excludente da época, o casamento estava encerrado em regras rígidas. A mobilidade constante dos homens e a desigualdade social, racial e de origem entre os cônjuges dificultavam e até impediam os matrimônios legais. O Estado português normalmente não permitia a união de indivíduos de condições desiguais”, escreve Furtado.
Com essas condições para o casamento e com a presença escassa de mulheres brancas na região, eram frequentes as relações de concubinato entre homens brancos e mulheres negras, fossem elas escravizadas ou libertas. Alguns senhores, como João Fernandes, assinavam a alforria da mulher no início do longo relacionamento; outros, o que era mais comum, tomavam a decisão quando estavam prestes a morrer.
A construção de uma imagem estereotipada das mulheres negras, um fenômeno que se reforçou desde então, faz essa união de uma ex-escravizada com um branco no Arraial do Tejuco parecer um exotismo aos olhos de hoje. Na época, contudo, arranjos assim eram corriqueiros.
Como eles tiveram 13 filhos ao longo de 17 anos, é razoável supor que fizessem sexo com frequência. Não existem registros, contudo, de que Chica tivesse comportamento de uma ninfomaníaca, como se vê na produção de Cacá Diegues.
Filha de Maria da Costa, uma africana escravizada, e de Antônio Caetano de Sá, um brasileiro branco, que trabalhava como capitão, Chica era parda, conforme atestam fontes confiáveis do período. Não foram encontradas, porém, anotações sobre traços físicos mais detalhados. A beleza dela (ou seu contrário) é, portanto, fruto da imaginação de romancistas, poetas e roteiristas.
A música de Jorge Ben Jor, que embala o filme, é um primor de suingue. Mas o compositor também se rendeu aos criativos achismos sobre Chica. “Muito rica e invejada / Temida e odiada / Pois com as suas perucas / Cada uma de uma cor”, ele canta. Nos inventários das mulheres do Tejuco, pesquisados por Furtado, não aparecem perucas. As cabeleiras, como o item era chamado em Portugal, eram usadas pelos homens, indicam os documentos.
Uma a uma, as fantasias ligadas a Chica foram caindo, e o livro da historiadora da UFMG se firmou como uma das bases principais para novos olhares sobre a personagem. O recém-lançado documentário “Chica da Silva – A Descoberta do Testamento”, produzido pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, tem Furtado como sua principal entrevistada.
Encontrado na década de 1980 no fórum de Serro (MG), município que abrange o distrito de Milho Verde, o testamento é curioso pelo que diz e também pelo que não diz. Mostra, por exemplo, que Chica deixou suas peças de ouro e diamante para as nove filhas. Essa e outras informações históricas revelam uma mãe atenta e cuidadosa.
Por outro lado, não há no testamento qualquer menção à cessão de liberdade para as suas escravizadas. Aliás, não se conhece registro de assinatura de Chica em cartas de alforria ao longo de toda a sua vida.
Iniciativas previstas para os próximos meses também tomam “Chica da Silva e o Contratador de Diamantes” como fonte indispensável. São os casos de “Meu Nome É Francisca”, livro da historiadora Mary del Priore, que será lançado em janeiro pela editora José Olympio; e “Chica da Silva”, ópera com apresentações em setembro em Diamantina e Belo Horizonte.
Com diferentes linguagens, esses projetos não replicam a obra de Furtado. A relação entre eles se dá, sobretudo, pela recusa em aderir à visão folclórica que se formou em torno de Chica.
A ópera integra as celebrações dos 55 anos do Palácio das Artes, administrado pela Fundação Clóvis Salgado, de Minas Gerais. A música é de Guilherme Bernstein; o libreto, de Marcos Bernstein e Flávia Bessone; e direção de cena, de Jorge Takla. Sob a direção musical da regente Ligia Amadio, a mezzo-soprano carioca Monique Galvão vai interpretar Chica.
Segundo Sérgio Rodrigo Reis, presidente da fundação, elementos dramáticos são essenciais em uma ópera, o que torna inviável a montagem de um espetáculo apenas com dados históricos. Mas um dos objetivos principais da ópera, diz ele, será a busca pela “Chica de verdade, não a do Cacá Diegues, não a da novela”.
O cineasta, que morreu em fevereiro deste ano, lançou em 2014 um livro de memórias em que fala, entre muitos assuntos, sobre as controvérsias ligadas a “Xica da Silva”. Em “Vida de Cinema”, ele escreve que não havia “nenhuma lembrança documentada” sobre a escravizada forra quando fez o filme. Diz ainda que “não tinha nenhuma intenção de ensinar história, apenas se apropriava de um mito com amor, tratava do que dele podia nos servir em nosso tempo”.
No breve “Meu Nome É Francisca”, Priore se ampara em estudos de historiadores como Júnia Furtado e Eduardo França Paiva, também da UFMG, e põe Chica descrevendo sua própria história em primeira pessoa.
“Resolvi contar no livro a história de uma mulher que não se distinguia muito de outras mães daquela época. Era alguém que gostava do seu companheiro e tinha família para cuidar”, diz Priore. “Além disso, introduzi temas com os quais a historiografia tem que trabalhar, como a importância da mestiçagem, que está longe de ser estupro, e a mobilidade social das negras forras.”
Negritude
No documentário sobre a descoberta do testamento, a historiadora Jaqueline Ribeiro, do Museu do Diamante, de Diamantina, defende que Chica da Silva seja enaltecida como referência de negritude.
Nesse aspecto, surgem divergências. Segundo Furtado, a ex-escravizada “nunca foi símbolo de afirmação racial”. “A trajetória dela simboliza o que, mais tarde, foi chamado de democracia racial, que é a tentativa dos negros de entrar no universo dos brancos”, completa.
Para a historiadora, é preciso examinar com cuidado esse processo de branqueamento étnico e cultural porque “revela não as características democráticas das relações entre as raças, mas as armadilhas sutis por meio das quais se esconde a opressão racial no Brasil”.
Colunas
De acordo com Mary del Priore, não existe na historiografia percorrida por ela nada que associe Chica à luta contra o racismo. O objetivo dessas mulheres, diz a autora, era “abandonar a escravidão e adquirir conforto financeiro e outros símbolos das pessoas livres”.
É outra a visão de Adriana Dantas Reis, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Para a pesquisadora do Brasil colonial e da história das mulheres, faz sentido que a vida de Chica seja apropriada hoje para falar de afirmação racial.
Segundo a historiadora da UEFS, Chica deve ser vista como uma mulher de ascendência africana que nasceu como escravizada e carregou o peso do racismo por toda a vida, uma marca também enfrentada por seus filhos. Nesse sentido, é uma “representação importante para a luta antirracista no Brasil”.
“Na sua cama dourada, Chica da Silva não dorme”, escreveu Cecília Meireles.
A nova onda em torno de Chica da Silva