A União Europeia vai, afinal, ter os carros elétricos que há muito procurava. Não se tratam de novos modelos minimalistas inspirados nos kei cars japoneses, mas de automóveis que já circulam nas estradas europeias há vários anos. A Comissão Europeia criou uma nova categoria, oficialmente designada por carros pequenos e acessíveis, com o objetivo de reforçar a competitividade dos construtores europeus no mercado elétrico.
Durante meses, o debate apontava para veículos de dimensões muito reduzidas, baixa potência e preços mínimos, pensados quase de raiz para responder às exigências ambientais de Bruxelas. No entanto, segundo o ‘Motor1’, essa ideia estava apenas parcialmente correta. A nova regulamentação vem confirmar que os modelos escolhidos são, na prática, carros que os consumidores já conhecem bem.
Uma categoria feita à medida da indústria europeia
A nova classe, designada M1E, irá abranger todos os automóveis elétricos com comprimento até 4,2 metros. Na prática, entram nesta definição os veículos do segmento A e uma parte significativa do segmento B atualmente disponível no mercado europeu.
Entre os exemplos enquadrados nesta categoria estão modelos como o Fiat Grande Panda, o Opel Corsa, o Renault 5 ou o Peugeot 208. Olhando para o futuro, também projetos previstos para 2026, como o Skoda Epiq ou o Volkswagen ID.Polo, passam a encaixar neste novo enquadramento, de acordo com o ‘Motor1’.
A decisão não é surpreendente. Estes são precisamente os modelos em que os fabricantes europeus mais investiram nos últimos anos e que continuam a representar o núcleo da sua estratégia industrial. Criar uma nova classe baseada em microcarros teria significado ignorar esse esforço e obrigar as marcas a recomeçar do zero.
Um trunfo escondido à vista de todos
Com esta definição, muitas marcas descobrem que já têm em casa aquilo que Bruxelas procura. Os carros elétricos considerados estratégicos para a política europeia estavam, afinal, “bem debaixo dos nossos narizes”, permitindo aos construtores evitar novos e dispendiosos ciclos de desenvolvimento.
Esta abordagem oferece também maior previsibilidade à indústria, num contexto em que várias decisões regulatórias anteriores foram criticadas por estarem desligadas da realidade do mercado e da capacidade produtiva das empresas.
Supercréditos e impacto nas emissões
Um dos aspetos centrais desta nova categoria é o acesso aos chamados supercréditos. As vendas destes carros elétricos poderão contar 1,3 vezes no cálculo médio das emissões de CO₂ de cada fabricante, ajudando a cumprir os limites impostos pela legislação europeia.
Este mecanismo tem várias implicações. Por um lado, incentiva a produção de carros mais compactos, contrariando a tendência recente de crescimento contínuo das dimensões dos modelos. Por outro, permite que as vendas de elétricos compensem as emissões de veículos com motor de combustão interna, incluindo modelos desportivos, contribuindo para a sua continuidade em produção.
Ao mesmo tempo, a atribuição destes supercréditos deverá pressionar os construtores a manter preços de entrada mais baixos, potencialmente entre 15 mil e 20 mil euros para as versões base.
Regulamento em preparação e horizonte de 10 anos
Os detalhes finais desta nova categoria dependem ainda da revisão do Regulamento Europeu 2018/858, cuja publicação é esperada nos próximos meses, seguindo-se a aprovação pelo Parlamento Europeu. Segundo informações provenientes de Bruxelas, o novo enquadramento deverá vigorar durante um período de 10 anos, garantindo estabilidade para os planos industriais dos fabricantes.
A criação deste quadro regulatório poderá ainda influenciar a legislação nacional dos Estados-membros, abrindo caminho a incentivos específicos, benefícios fiscais ou condições mais favoráveis de estacionamento e acesso a zonas urbanas.