Aircela

A apresentação do dispositivo da Aircela decorreu num terraço

O dispositivo da Aircela, que só precisa de CO₂, energia solar e água para produzir combustível, tem um tamanho semelhante ao de um frigorífico e pode ser instalado em terraços e jardins. Uma discreta mudança de paradigma, recebida com algum cepticismo.

No meio do cenário saturado de startups de tecnologias climáticas, a norte-americana Aircela apresentou discretamente uma proposta audaciosa: uma máquina compacta capaz de extrair dióxido de carbono diretamente da atmosfera e convertê-lo em gasolina sintética.

A tecnologia, demonstrada em maio na sede da empresa, em Nova Iorque, representa o que pode ser uma mudança de paradigma na forma como pensamos sobre a produção de combustíveis e a neutralidade carbónica.

Contudo, salienta a Business 2.0, as principais publicações financeiras têm-se mantido estranhamente silenciosas acerca do avanço, que surge como alternativa direta aos combustíveis fósseis tradicionais — sinal também do cepticismo com que o conceito foi recebido em alguns setores.

Segundo a empresa, que diz que o seu dispositivo já está operacional, o sistema consegue produzir combustível a partir de CO₂, água e energia renovável.

“Acreditamos sinceramente que a nossa abordagem é a forma mais rápida de fazer chegar os combustíveis neutros em carbono ao maior número possível de pessoas, no maior número possível de locais, o mais rapidamente possível”, explicou em maio o diretor executivo da empresa, Eric Dahlgren.

A máquina da Aircela tem dimensões comparáveis às de um eletrodoméstico de grande porte e foi concebida para ser instalada tanto em habitações particulares como noutros contextos. Foi desenhada para se integrar em infraestruturas existentes, e não exige alterações nos veículos a gasolina convencionais.

Segundo a Popular Science, o sistema combina captura de CO₂ com processos químicos de síntese. Numa primeira fase, uma solução líquida à base de água e hidróxido de potássio absorve o CO₂ presente no ar. Em paralelo, o equipamento separa a água em hidrogénio e oxigénio através de eletrólise.

Enquanto o oxigénio é libertado para o exterior, o hidrogénio é usado para reagir com o CO₂ capturado e gerar metanol. Este composto intermédio é depois convertido em gasolina sem etanol, enxofre ou metais pesados, segundo diz empresa norte-americana.

A Aircela fez em maio uma demonstração pública do processo, perante uma plateia que se reuniu num terraço em Brooklyn para ver Dahlgren usar o dispositivo para produzir gasolina diretamente a partir do ar. “Não construímos um protótipo. Construímos uma máquina funcional”, salientou o CEO da empresa.

Segundo a Aicela, cada unidade captura até 10 kg de CO₂ por dia e produz cerca de 4 litros de gasolina a cada 24 horas. O dispositivo inclui um depósito com capacidade para 64 litros e uma pistola de abastecimento semelhante às dos postos tradicionais, que permite encher o depósito do automóvel em casa.

Porquê o ceticismo

O dispositivo da Aircela gerou discussões em plataformas como o Reddit, que revelaram uma reacção polarizada às alegações da Aircela. Comentadores com conhecimento técnico levantam questões legítimas sobre eficiência energética, custos de produção e escalabilidade.

A termodinâmica da produção de combustíveis sintéticos continua a ser um obstáculo: converter CO₂ atmosférico, presente em cerca de 420 partes por milhão, em combustível de elevada densidade, exige um esforço energético substancial.

Os críticos apontam para o problema do “retorno energético do investimento”, ou EROI: se a produção de combustível sintético consumir mais energia do que a que o próprio combustível fornece, torna-se difícil justificar a economia do processo.

Os apoiantes da ideia contrapõem que, quando o processo é alimentado por excedentes de energia renovável que, de outra forma, seriam desperdiçados, a equação altera-se de forma favorável.

Segundo a Business 2.0., a ausência de cobertura por grandes publicações financeiras como a Forbes, a Bloomberg e o The Wall Street Journal, pode reflectir vários factores, mais do que qualquer “supressão deliberada” da notícia, que algumas teorias da conspiração já sugeriram.

Os meios de comunicação financeiros tendem a cobrir startups que já levantaram rondas de investimento, muitas vezes acima dos 50 milhões de dólares. Startups que ainda não recolheram apoio significativo de capital de risco, raramente atingem o patamar “isto é notícia” nestas publicações, tradicionalmente conservadoras.

Um jornalismo financeiro responsável exige verificação técnica independente de alegações de “tecnologias disruptivas”. Produzir combustíveis sintéticos a custos competitivos é uma afirmação extraordinária, que requer provas extraordinárias.

Assim, sem que haja dados revistos por pares, auditorias por terceiros ou uma operação a uma escala significativa, os editores das principais publicações financeiras podem hesitar em difundir alegações não verificadas.

As opiniões dividem-se assim entre quem pensa que o dispositivo é uma fraude ou uma ideia inviável, quem acha que ainda é cedo para dar a notícia em grandes parangonas, e ainda quem acha que “estão a esconder outra vez” um avanço revolucionário que poderia mudar o mundo.

A Aircela prevê iniciar a comercialização “limitada” do seu dispositivo no ano de 2026 — que está aqui à porta. Vamos esperar para ver.


Subscreva a Newsletter ZAP


Siga-nos no WhatsApp


Siga-nos no Google News