O presidente da Maxyield e o head of trading do Banco Carregosa consideram, em declarações ao JE, que a mais valia gerada pela venda da Secil dá condições para que a Semapa pague um dividendo extra aos investidores. Contudo João Queiroz considera que essa não deve ser a prioridade e que o foco deveria ser a eficiência. financeira.

A Semapa está a estimar, em 2026, uma mais valia de 400 milhões de euros com a venda da totalidade da Secil à espanhola Cementos Molins, conforme comunicado pela cotada no índice português PSI à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) na passada sexta-feira.

Com este encaixe a empresa teria margem para pagar um eventual dividendo extraordinário aos seus acionistas caso assim o entendesse, referem os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE). Mas fica também um alerta: o dividendo “não deveria constituir” a primeira prioridade devendo-se privilegiar a eficiência financeira.

Na sexta-feira, a Semapa confirmou à CMVM a existência de um acordo vinculativo para venda da totalidade do capital social que detém na Secil à Cementos Molins. “O valor da transação acordado representa um Enterprise Value [termo que se refere ao valor total de uma empresa] de 1,4 mil milhões de euros“, salientou a Semapa.

Devido a esta negócio a Semapa disparou, na sexta-feira, mais de 20% em bolsa.

“O fecho desta operação está previsto ocorrer no primeiro trimestre de 2026, estando sujeito às condições habituais para este tipo de operações”, adiantou a Semapa, na sexta-feira.

Analista considera que Semapa tem condições para pagar dividendo extraordinário

O presidente da Maxyield, Carlos Rodrigues, considera que a mais valia gerada pela venda da Secil dá “capacidade” à Semapa para a distribuição de um dividendo [extraordinário] aos seus accionistas, contudo isso vai depender da decisão da estrutura acionista onde a família Queiroz é largamente maioritária.

Tendo isto em consideração, Carlos Rodrigues lembra também que a Semapa tem sido “muito conservadora” no que diz respeito à distribuição de dividendos. O presidente da Maxyield salienta que nos últimos quatro anos o seu payout [quantidade do lucro que é pago em dividendo] tem sido “estável em volta dos 20%”.

Venda terá impacto na Navigator

Carlos Rodrigues assinala também que a venda da Secil, pela Semapa, terá também consequência na Navigator, empresa na qual a Semapa também tem participação.

Carlos Rodrigues lembra que pelo menos nos últimos dois anos a Navigator tinha avançado com um pagamento intercalar de dividendo. A prática poderá agora ser interrompida, ou então sofrer uma alteração, devido à venda da Secil, alerta o presidente da Maxyield.

O presidente da Maxyield refere que este dividendo intercalar que vinha sendo pago pela Navigator era uma forma de obtenção de capital pela Semapa, tendo em conta que a empresa detém 75% da Navigator.

Carlos Rodrigues salientou que no ano passado o pagamento desse dividendo intercalar foi comunicado em dezembro e efetivamente pago em janeiro de 2025, mas que até momento não existe qualquer tipo de confirmação de que esta medida venha a ser novamente tomada durante este ano.

Com a venda da Secil, e a consequente mais valia que será encaixada pela Semapa, Carlos Rodrigues traça dois possíveis cenários. Um deles é que a Navigator “empurre mais para a frente” o pagamento desse dividendo intercalar. Na prática o pagamento poder-se-ia processar depois de janeiro. O outro cenário passaria por esse dividendo intercalar não ser pago.

Analista diz que dividendo extraordinário não deve ser prioridade

O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, considera que face à mais valia gerada pela venda da Secil “deverá existir espaço financeiro” para um eventual pagamento de um dividendo extraordinário aos accionistas da Semapa.

Contudo João Queiroz considera que o dividendo “não deveria constituir” a primeira prioridade após a alienação da Secil, “pelo menos de uma forma automática”.

Para João Queiroz a mais-valia obtida com o produto da venda da Secil cria, antes de mais, “margem para reduzir” o stock de dívida da Semapa, o que “melhora o perfil de risco, reduz encargos financeiros e aumenta a flexibilidade estratégica” num contexto de custo de capital ainda elevado.

“Em paralelo, existe racional para reinvestimento seletivo e realocação intra-grupo, direcionando capital para áreas e segmentos com maior eficiência na geração de retorno ajustado ao risco, seja por reforço de ativos “core”, otimização operacional ou captura de sinergias que elevem o ROIC estrutural (sigla para retorno sobre o capital investido na tradução portuguesa)”, afirma o head of trading do Banco Carregosa.

João Queiroz considera que apenas após a re-estabilização do balanço e clarificada a melhor afetação do capital “é que teria racional” incrementar a remuneração do acionista, seja pela via do dividendo extraordinário ou pela recompra de ações próprias. “Essa abordagem auxiliaria a preservar disciplina financeira, evitar decisões pró-cíclicas e maximizaria a criação de valor no médio prazo, ao invés de privilegiar um retorno imediato”, defende o head of trading do Banco Carregosa.

“Existe um padrão recorrente na gestão de capital de grandes cotadas: primeiro otimiza-se o balanço através da rotação de ativos, depois reforça-se a remuneração aos acionistas”, explica João Queiroz. “A lógica é sequencial, não simultânea”, assinala o head of trading do Banco Carregosa.

“A Galp Energia vendeu ativos não-core em “upstream” (não se refere aos projetos estratégicos como Namíbia) e reduziu alavancagem antes de aumentar dividendos. A EDP seguiu o mesmo caminho: rotação de ativos para desalavancar, só depois elevou distribuições. Siemens, BP, Vivendi e Engie combinaram desinvestimentos com recompras e escalada gradual da remuneração, mas sempre nesta ordem: Balanço primeiro, “shareholder return (retorno ao accionista)” depois”, exemplifica João Queiroz.

Face a esta explicação o head of trading do Banco Carregosa sublinha que capital mal alocado ou estruturas sobreendividadas “destroem valor”. João Queiroz reforça que só após “restabelecer” eficiência financeira fará sentido devolver “cash (dinheiro)” aos acionistas de forma sustentável.

“No caso Semapa, qualquer melhoria na política de dividendos será consequência natural de uma alocação disciplinada do capital — e não o ponto de partida. Neste tema a sequência pode ser importante”, diz João Queiroz.