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Quando, no verão de 2024, os membros do Partido Nacional, no Uruguai, foram às urnas em eleições primárias para escolher o seu candidato às presidenciais desse ano, a economista Laura Raffo estaria longe de imaginar que, a quase 10 mil quilómetros de Montevidéu, um seu primo afastado se lançaria em breve numa aventura semelhante. Os quase 20% de votos não permitiram a Laura Raffo ir além do segundo lugar nem tornar-se a primeira mulher a liderar o país. Ainda não se esgotaram, porém, as hipóteses de a família ter um chefe de Estado no futuro próximo, embora as sondagens não favoreçam essa possibilidade: o seu primo afastado Jorge Pinto, apoiado pelo partido Livre, ambiciona agora tornar-se Presidente de Portugal.

A poucas semanas das eleições presidenciais, as únicas em que os eleitores são chamados a escolher uma pessoa concreta e não um partido ou um movimento político, o Observador traçou a árvore genealógica dos principais candidatos para conhecer a história familiar de cada um. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica, foi possível recuar vários séculos para descortinar a sucessão de acasos históricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos.

No caso de Jorge Pinto, a árvore genealógica traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia revela um amarantino de gema. Praticamente todos os antepassados de Jorge Pinto, recuando várias gerações, nasceram no concelho de Amarante, onde o próprio candidato continua a ter casa. Dois antepassados (o pai e o avô) foram presidentes de junta e, na árvore familiar de Jorge Pinto, surgem ainda relações inesperadas com figuras conhecidas da história de Amarante, incluindo um poeta e um militar revolucionário que impulsionou o judaísmo em Portugal depois da perseguição da Inquisição.

Conseguimos documentar um total de 76 ascendentes diretos de Jorge Pinto.

E há um dado que salta imediatamente à vista: a esmagadora maioria dos antepassados do candidato apoiado pelo Livre são naturais do concelho de Amarante. Na verdade, de todos os candidatos estudados pela Associação Portuguesa de Genealogia para o Observador, Jorge Pinto é aquele cuja história familiar está geograficamente mais concentrada.

Os pais, avós e bisavós de Jorge Pinto nasceram em diferentes freguesias de Amarante.

Já na linha dos trisavós, só foi possível traçar a história de 14 — e todos nasceram em Amarante.

A história familiar de Jorge Pinto mostra não só uma ligação geográfica a Amarante, mas também um profundo envolvimento com a história daquele concelho.

Encontramos exemplos disso no ramo paterno, que lhe trouxe o apelido Pinto, com o qual se apresenta ao país.

Neste ramo, foi possível recuar até João Pinto, sexto avô do candidato, que nasceu por volta do ano 1770 na freguesia de Telões, em Amarante.

A descendência de João Pinto e da sua mulher, Maria Cerqueira, manteve-se sempre no concelho de Amarante. 

Em 1860, um neto de João e Maria, Joaquim Pinto, casou-se com Rosa de Jesus e mudou-se para a freguesia de Cepelos, onde viria a nascer o seu filho Ernesto, o neto João e o seu bisneto Álvaro.

Hoje, há uma rua em Amarante batizada em nome deste bisneto, Álvaro Ernesto Pinto.

Rua Álvaro Ernesto Pinto

Álvaro haveria de ser presidente da Junta de Freguesia de Cepelos, já depois do 25 de Abril, eleito pelo PSD numas autárquicas em que concorreu contra o próprio filho, Eduardo Jorge, que se candidatava pela APU.

Álvaro e Eduardo são, respetivamente, o avô e o pai de Jorge Pinto — e seriam figuras decisivas para inspirar Jorge Pinto desde a infância a seguir uma carreira política. O candidato não esconde, ainda hoje, a influência que o avô e o pai tiveram na sua decisão de se tornar político — nem descarta a possibilidade de um dia lhes seguir o exemplo numa candidatura autárquica.

Ainda neste ramo, que corresponde à transmissão do apelido Pinto ao longo das décadas, vale a pena voltar a subir algumas gerações, até aos trisavós Ernesto Pinto e Rosa Gonçalves.

Tal como Ernesto Pinto e os seus ascendentes, Rosa Gonçalves também era natural de Amarante.

Subindo pela ascendência de Rosa, continuamos em Amarante durante várias gerações, até chegarmos a Teresa Maria de Jesus, bisavó de Rosa, nascida naquela povoação por volta do ano 1775.

Teresa casou-se com Manuel José Gonçalves, natural do concelho vizinho de Celorico de Basto

Teresa e Manuel seriam os sextos avós de Jorge Pinto, através da descendência da sua filha Maria Teresa de Jesus Gonçalves.

Mas o casal teve outros filhos e, mesmo sem sair de Amarante, a ascendência de Jorge Pinto revela algumas ligações familiares curiosas.

Outra filha do casal, Carlota Joaquina Gonçalves, deu origem a uma nova linha familiar.

Nascida em Amarante em fevereiro de 1819, Carlota casou-se em Francisco Carlos de Barros Basto.

Os dois viriam a ser avós de Artur Carlos de Barros Basto, o capitão Barros Basto, uma curiosa personagem que ficaria conhecida como o “Dreyfus português” e que liga a família de Jorge Pinto a um dos mais importantes ramos familiares do Judaísmo contemporâneo em Portugal.

Artur Barros Basto

Também nascido em Amarante, em 1887, Artur Barros Basto cresceu numa família católica, mas rapidamente se interessou pelo Judaísmo.

Conta-se que foi do avô que Barros Basto ouviu falar pela primeira vez da história da sua família — e da história e doutrina dos judeus em Portugal. O jovem Artur ter-se-á convencido de que ele próprio tinha ascendência judaica, embora isso não seja exatamente demonstrável por parte da investigação genealógica. Ainda assim, essa convicção moldou a sua identidade. Terá tentado tornar-se membro da comunidade judaica de Lisboa, mas não foi aceite.

O que é certo é que Artur Barros Basto seguiu uma carreira militar e até ficaria conhecido como o revolucionário que, em 5 de outubro de 1910, hasteou a bandeira republicana no Porto.

Já como militar, integrou o Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial, na Flandres, e foi em França que voltou a aproximar-se da comunidade judaica. Converteu-se em Marrocos, onde mudou o seu nome para Abraão Israel Ben-Rosh, e voltou a Lisboa, onde se casou com uma judia, Leah Monteiro Azancot. A partir desse casamento, Barros Basto ficaria ligado por afinidade a uma importante linhagem familiar judia em Portugal (ascendentes, por exemplo, da atriz Daniela Ruah).

De volta ao Porto, tornou-se um dos grandes impulsionadores do Judaísmo contemporâneo em Portugal. Foi ele quem fundou a comunidade judaica do Porto, lançando as bases para a construção da importante sinagoga da cidade. Além disso, notabilizou-se particularmente pelos esforços que fez para resgatar as comunidades cripto-judaicas do interior do país que tinham sobrevivido à repressão da Inquisição — e que, mesmo depois da sua extinção, em 1821, se mantinham em segredo, com medo da perseguição.

Foi graças aos esforços de Barros Basto que muitas dessas comunidades, por exemplo em Belmonte, abandonaram a clandestinidade e voltaram à prática judaica. Estes esforços acabariam, contudo, por se virar contra Barros Basto. Durante a ditadura, foi acusado de homossexualidade, expulso das Forças Armadas e acabaria por morrer, em 1961, sem ser reabilitado. A família, sobretudo a neta Isabel Barros Lopes, tem levado a cabo um esforço junto da justiça internacional para forçar Portugal a reabilitar Barros Basto.

Ainda do lado da família paterna de Jorge Pinto, o candidato apoiado pelo Livre tem uma ligação inesperada a outra figura de relevo da história de Amarante.

Para a descobrir temos de recuar uma vez mais aos trisavós Ernesto Pinto e Rosa Gonçalves.

Se a ligação ao capitão Barros Basto surge por via da trisavó Rosa, esta outra ligação está do lado do trisavô Ernesto.

Subindo pela ascendência materna de Ernesto Pinto chegamos até José Carvalho e Josefa Maria Monteiro, um casal que viveu em Amarante em meados do século XVIII.

Em 1764, José e Josefa tiveram uma filha, a quem deram o nome de Maria Luísa. A criança nasceu em Jazente, lugar de onde era natural a mãe.

Maria Luísa foi batizada ali mesmo — e o seu padrinho de batismo foi Paulino António Cabral de Vasconcelos, importante figura amarantina que ficaria para a história como o Abade de Jazente.

Nascido em Amarante em 1719, o Abade de Jazente foi um conhecido poeta português do século XVIII, autor de muitos sonetos e cuja memória e influência perdura ainda entre os amarantinos.

Poesias de Paulino António Cabral de Vasconcelos, Abade de Jazente

Tal como na família paterna, a família materna de Jorge Pinto revela uma grande concentração geográfica em torno de Amarante.

Nesta metade da árvore genealógica, só foi possível encontrar uma referência a ascendentes eventualmente nascidos fora daquela povoação. 

O trisavô José Luís da Costa nasceu em Amarante em 1856.

Mas os seus pais tinham casado na freguesia de Lobão da Beira, em Tondela. E o seu pai, Luís da Costa Cotovio, era natural de Lajeosa do Dão — uma freguesia onde nasceram bastantes antepassados de Henrique Gouveia e Melo, embora os genealogistas não tenham encontrado relações de parentesco entre os dois candidatos devido à falta de registos da época.

O trisavô de Jorge Pinto nasceu numa quinta de que era proprietário Gil da Rocha Cardoso e Melo, que também era natural de Lobão da Beira. A hipótese levantada pelos genealogistas é de que os tetravós, Isabel Maria Rita e Luís da Costa Cotovio, provavelmente já conheciam o dono da quinta, de Lobão da Beira, e mudaram-se para Amarante para trabalhar na propriedade.

De resto, toda a família parece mesmo ter nascido em Amarante.

Olhando para o ramo que trouxe a Jorge Pinto o seu apelido materno, Costa, também encontramos nove gerações em Amarante.

Rafael da Costa, oitavo avô de Jorge Pinto, foi, na verdade, o antepassado mais antigo que foi possível documentar. Terá nascido por volta do ano 1695 — e foi através da sua descendência que o apelido chegou ao candidato Eduardo Jorge da Costa Pinto.

A linha feminina da ascendência de Jorge Pinto (que se encontra procurando a mãe da mãe e por aí em diante) também se encontra totalmente em Amarante desde a sua oitava avó Catarina Ferreira, nascida por volta do ano 1700.

Mas é novamente no ramo paterno de Jorge Pinto que vamos encontrar uma das ligações familiares mais inesperadas do candidato.

Para isso, é necessário recuar até ao final do século XVIII, quando nasceram Maria de Jesus Álvares e Manuel António Ribeiro, sextos avós de Jorge Pinto.

Uma filha de Maria de Jesus e Manuel António, de nome Quitéria Ribeiro, nascida por volta do ano 1805 em Amarante, seria quinta avó de Jorge Pinto.

Mas aquele casal teria outros filhos. Um deles, António Ribeiro da Silva Bastos, emigrou em meados do século XIX para o Uruguai, onde se estabeleceu como comerciante em Montevidéu.

Foi na capital uruguaia que António se casou, em 1864, com Josefa Ferreira, de quem teve um filho, Antonio Donato Ribeiro da Silva Bastos.

Registo de batismo de Antonio Donato Bastos

Por seu turno, Antonio Donato viria a casar-se com a uruguaia Juana Peltzer, de quem teve vários filhos. Um deles, Ricardo Bastos Peltzer, tornar-se-ia um importante médico uruguaio e chegaria a ser presidente do Sindicato Médico do Uruguai em 1933.

Antonio Donato e Juana Peltzer tiveram outros filhos. Uma filha do casal, Maria Angélica Bastos, casou-se com o engenheiro Raul Costemalle, filho de pai francês e de mãe uruguaia.

A filha de Maria Angélica e Raul, Susana Costemalle Bastos, casou-se com Rodolfo Raffo Puppo, de uma família de empresários de origem italiana. O seu pai era Juan Carlos Raffo Frávega, antigo senador e presidente do Senado do Uruguai.

Juan Carlos Raffo Frávega, senador uruguaio nas décadas de 1950 e 1960

Susana e Rodolfo tiveram um filho que também chegaria à elite política uruguaia: Juan Carlos Raffo, nascido em 1946 em Montevidéu. Escritor e político uruguaio, ocupou vários cargos políticos na década de 1990, incluindo os de deputado, senador e ministro dos Transportes e Obras Públicas do país, pelo Partido Nacional.

Juan Carlos Raffo

Por seu turno, Juan Carlos Raffo casou-se com Marta Degeronimi e, entre os filhos do casal, encontra-se Laura Raffo, economista uruguaia que em 2024 se apresentou como candidata à Presidência do Uruguai — acabando por ficar em segundo lugar nas primárias do Partido Nacional.

Laura Raffo

Apesar da grande concentração geográfica dos seus ascendentes no concelho de Amarante, a árvore de Jorge Pinto traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia para o Observador, com um total de 76 ascendentes documentados, representou uma surpresa para o próprio candidato presidencial apoiado pelo Livre, que tem na sua família várias histórias de candidaturas a cargos políticos. Jorge Pinto saiu, aliás, da entrevista com o Observador com vontade de enviar uma mensagem à sua prima afastada Laura Raffo, que o ano passado se candidatou à Presidência do Uruguai.

A prima de Jorge Pinto acabaria, contudo, por não ter sucesso nessa campanha — ficou em segundo lugar nas primárias do seu partido e não chegou sequer aos boletins de voto da eleição presidencial. Ainda assim, o candidato apoiado pelo Livre elogia a “coragem” da prima. “Na política, já dizia o Mário Soares, só é derrotado quem desiste de lutar.”

Mas a ligação da família de Jorge Pinto à política vai muito além dos primos uruguaios: o pai e o avô do candidato foram presidentes de junta de freguesia em Amarante (chegaram a ser adversários diretos em eleições) e, por conta disso, o debate político foi uma constante da vida de Jorge Pinto. No futuro, o candidato, a quem as sondagens dão apenas cerca de 2% das intenções de voto, não descarta a possibilidade de seguir as pisadas do pai e do avô na junta de freguesia, onde, acredita, a representação política é tão ou mais importante do que em Belém. “Se calhar, daqui a alguns anos, porque não? Seria com muita honra e com o mesmíssimo espírito de missão e a mesma convicção com que estou agora a ser candidato a Presidente da República.”