
“Charging Bull”, escultura de Arturo Di Modica
A economia norte-americana contrariou as expectativas no terceiro trimestre de um ano marcado pela incerteza: cresceu de forma robusta, e muito mais do que o esperado — segundo os analistas, porque norte-americanos continuaram a gastar.
Segundo um relatório do Bureau of Economic Analysis (BEA) divulgado esta terça-feira, a economia norte-americana cresceu de forma robusta em Julho, Agosto e Setembro, sustentada por uma despesa consistente dos consumidores, sobretudo em cuidados de saúde.
O Produto Interno Bruto, a medida mais abrangente da atividade económica do país, cresceu a uma taxa anual de 4,3% no terceiro trimestre, muito acima da expansão de 3,8% observada entre Abril e Junho.
O crescimento acelerou face aos primeiros meses de 2025, período em que a economia dos EUA chegou a contrair a uma taxa anual de 0,6%, numa altura em que o presidente Donald Trump se preparava para implementar tarifas globais de grande alcance, nota a NPR.
Os números agora divulgados estão bastante atrasados. A apresentação do relatório estava inicialmente prevista para o final de Outubro, mas foi perturbado pela histórica paralisação do governo federal.
O relatório é publicado num momento em que as sondagens indicam, de forma crescente, um pessimismo dos norte-americanos quanto à forma como o presidente Trump está a gerir a economia e ao elevado custo de vida.
Os dados do terceiro trimestre mostram uma diminuição do investimento empresarial e do investimento residencial. Em contrapartida, a despesa dos governos estaduais e locais aumentou.
Os efeitos das oscilações do comércio foram mais mistos no relatório mais recente do que no início do ano: as importações de bens caíram, enquanto as exportações aumentaram. As importações são subtraídas na medida oficial da atividade económica interna, pelo que tendem a pressionar o PIB em baixa.
O relatório indicia que os norte-americanos continuaram a gastar, mas estão a tornar-se mais cautelosos. As pessoas gastaram mais em serviços hospitalares e de lares, em medicamentos sujeitos a receita médica e em “equipamento de processamento de informação”, como hardware informático — presumivelmente no âmbito do “boom” da IA.
O relatório mostrou ainda que o rendimento pessoal disponível permaneceu estagnado no trimestre, à medida que a inflação continua a corroer os salários.
“Estamos a deslizar sobre o sucesso do passado, porque os consumidores beneficiaram de dois anos consecutivos de fortes ganhos salariais”, explica Michael Zdinak, economista da S&P Global Market Intelligence, à NPR.
“O relatório de hoje mostra que a procura é forte e que os consumidores estão dispostos a gastar — se não tivessem esta espada de Dâmocles sobre a cabeça: a ideia de que, por exemplo, a IA lhes vai tirar empregos ou que despedimentos em massa estão mesmo ao virar da esquina”, acrescenta.
Segundo Mark Hamrick, analista económico sénior da Bankrate ouvido pelo Business Insider, os norte-americanos terão de esperar até ao próximo ano para obter maior clareza sobre o desempenho da economia.
“Uma questão central para os consumidores, que alimentam a economia dos EUA, é saber se o mercado de trabalho estabiliza ou até melhora modestamente nos próximos meses”, detalha Hamrick. “Se não acontecer, a resiliência deles e a resiliência da economia serão postas à prova”.
Em média, os salários têm crescido mais depressa do que os preços. Mas esses ganhos salariais abrandaram nos últimos meses, à medida que o mercado de trabalho, a perder força, foi reduzindo o poder negocial dos trabalhadores para obterem aumentos. Os consumidores com maiores rendimentos têm sustentado grande parte da despesa nos EUA em lojas e restaurantes.
A inflação tem vindo a abrandar de forma assinalável, com os preços no consumidor a subirem um modesto 2,7% em novembro face a um ano antes.
Alguns bens alimentares continuaram a baixar de preço, mas não o suficiente para compensar o aumento de grandes despesas, como renda de casa, eletricidade e seguro de saúde.