As dificuldades da Câmara Municipal de Nisa para concretizar a ponte internacional sobre o rio Sever — no que arrisca desperdiçar um financiamento já decidido de 10,6 milhões do Plano de Recuperação e Resiliência — foram esta semana sublinhadas ao Nascer do SOL por António Ceia da Silva, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo.

Questionado sobre se a ponte vai estar concluída até agosto de 2026, a tempo de beneficiar da subvenção do PRR, Ceia da Silva respondeu que a CCDR se encontra a «desenvolver, em colaboração com o município, todos os esforços e iniciativas de modo a garantir a concretização deste projeto no mais curto espaço de tempo possível».

A resposta veio reforçar a informação que publicámos há uma semana, com base em fontes locais, de que está comprometido o início da construção da ponte que ligará Portugal a Espanha no distrito de Portalegre — entre as aldeias de Montalvão, do lado português, e Cedillo, do lado espanhol.

A CCDR Alentejo é intermediária da Câmara de Nisa e da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, que gere o PRR. Ceia da Silva disse-nos ainda que a ponte é «estruturante para a região e para as populações abrangidas».

Trata-se de uma reivindicação de décadas. Muitos acreditam que criaria um corredor rodoviário para estimular a economia da Beira Baixa e do Alto Alentejo em ligação à Estremadura espanhola.

Reação no Facebook

A notícia que publicámos em 12 de dezembro motivou nesse mesmo dia uma reação da Câmara de Nisa através de uma «nota da presidência» no Facebook. Até à hora de fecho desta edição, o presidente, José Dinis Serra, não nos fez chegar qualquer comunicação e não respondeu a contactos por e-mail e telefone.

A «nota da presidência» alegava que a notícia foi «um exercício de desinformação grave», pois é «absolutamente falso afirmar que Portugal, o município de Nisa ou qualquer entidade pública tenha deixado cair o projeto da ponte», o qual «continua firme e no bom caminho».

Os dados disponíveis permitem concluir que a obra está embargada — no sentido lato da expressão, ou seja, impedida de avançar. O assunto ficou arredado da reunião de 2 de dezembro da Comissão Técnica Mista Luso-Espanhola de Pontes, em Madrid.

São vários os obstáculos admitidos pelo próprio José Dinis Serra no Facebook. A obra «não está consignada», a Secretaria de Estado das Florestas ainda tem de autorizar o abate de sobreiros e azinheiras na zona de implantação da ponte, e a aprovação formal do projeto por Portugal e Espanha mais a «notificação internacional» também ainda não aconteceram.

Na prática, a autarquia da vila raiana está numa corrida contra o tempo, pois o financiamento do PRR só entra nos cofres camarários se a ponte e os respetivos acessos rodoviários estiverem terminados até 31 de agosto de 2026.

Nos últimos dias ouvimos de fontes conhecedoras do dossiê que mesmo que a obra começasse nos primeiros dias de janeiro seria «quase impossível» concluí-la em oito meses — apesar de o contrato assinado em outubro com a construtora minhota ABB (Alexandre Barbosa Borges S.A.) prever a execução em seis meses.

Uma destas fontes foi mais contundente: «Não se vê no horizonte qualquer capacidade para que esta infraestrutura avance nos termos atuais».

O tema da ponte ocupou boa parte da reunião de Câmara na passada segunda-feira, com os vereadores da oposição — dois da CDU e uma do PSD — a dirigirem perguntas ao presidente. A vereadora social-democrata Fernanda Policarpo resumiu-nos que ficou «sem ent-ender as explicações» de José Dinis Serra e que este «não concretizou prazos» da obra.

Contactámos, sem êxito, a Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, a Infraestruturas de Portugal e a construtora ABB.