Mas não foi só a Academia de Artes e Ciências que insistiu em ignorá-lo; também Cannes o nomeou três vezes, para nunca o premiar. Acrescem as seis nomeações dos pares, na Director’s Guild of America, sem que igualmente alguma viesse a redundar em vitória. E, porém, Hitch parece nunca ter-se importado. Foi sempre um vencedor, um peso-pesado à parte, que podia dar-se ao luxo de uma pacata vida familiar em casa, sem ter de frequentar uma só festa de Hollywood para ter todas as grandes estrelas a quererem ser dirigidas por ele e filas de proporções bíblicas à porta dos cinemas, a cada nova estreia.

Sir Alfred realizou 55 longas-metragens ao longo de 51 anos de carreira, à impressionante média de mais de um filme por ano. Apesar de todos os títulos que já fomos citando ao longo deste artigo, seria preciso referir outros tantos para cobrir apenas o restrito leque dos obrigatórios: “Intriga Internacional”, “Pássaros”, “Marnie”, “A Corda”, “Shadow of a Doubt” ou “Vertigo”, durante anos considerado o melhor filme de todos os tempos na tabela da Sight & Sound, para citar apenas os que vêm mais imediatamente à memória.

O seu estilo ficou marcado por múltiplos traços e obsessões: a alternância prolongada entre o grande plano da personagem e o seu ponto de vista, capaz de um estranho fenómeno de dilatação do tempo e escalar da tensão. As sombras anunciando a chegada funesta das personagens. Os sósias e as trocas de identidades em geral, as louras, sempre as louras, o desejo, a tensão sexual, justaposta, sobreposta ao perigo. As escadas, os relógios, os bilhetes manuscritos, os telegramas e as notícias de jornal ajudando a contar a história. A invenção do MacGuffin, o objeto desejado ou perseguido pelo protagonista, que servia para colocar a história em marcha, mesmo que, a meio, já tivesse sido dispensado em favor do verdadeiro centro da trama, motor outboard da narrativa. O perfeccionismo de tudo fazer em estúdio, recusando exteriores, para poder controlar, ao milímetro, a luz. A sensação de tudo ser falso, um jogo, mas sempre perfeito, matemático, um acordo tácito com o espectador, que sabe que está ali para ser manipulado pelo mestre de todos os mestres de fantoches. As longas sequências de carro ou comboio, a profundidade de campo, as sórdidas perpectivas voyeuristas e os cameos, sempre os deliciosos cameos do autor, geralmente encostados ao início do filme, para que não distraíssem do essencial o espectador que se deixasse ficar à caça deles.