Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Eu e o Ricardo conhecemo-nos aos 18 anos, no primeiro dia de aulas da faculdade. Sentámo-nos lado a lado por acaso — ou pelo menos foi isso que sempre dissemos — e, em poucas semanas, já parecíamos inseparáveis. É estranho como algumas ligações nascem sem esforço, como se já viessem ensaiadas de outras vidas. Tornámo-nos melhores amigos sem nunca precisarmos de o dizer em voz alta. Era simplesmente óbvio.
Partilhámos tudo aquilo que costuma marcar o início da vida adulta: noites intermináveis a estudar — e a fingir que estudávamos —, copos baratos, discussões filosóficas que acabavam sempre em gargalhadas, sonhos exagerados sobre o futuro. Sabíamos as manias um do outro, os silêncios, os limites. Eu sabia quando ele estava mal mesmo antes de ele abrir a boca; ele sabia quando eu precisava de companhia sem perguntas. Durante anos, o Ricardo foi a pessoa a quem ligava primeiro, fosse para celebrar uma vitória ou para confessar um fracasso.
Depois da faculdade, continuámos próximos. Mesmo quando começámos a trabalhar em áreas diferentes, arranjávamos sempre forma de manter a rotina: almoços improvisados, mensagens ao fim do dia, fins de semana passados a ver futebol ou a fazer planos que raramente se concretizavam. As nossas famílias conheciam-se, os nossos amigos misturavam-se, e havia quem dissesse que parecíamos irmãos. Eu acreditava que aquela amizade era inquebrável. 15 anos davam-nos uma falsa sensação de imunidade.
Mas as coisas começaram a mudar quando o Ricardo abriu o seu próprio negócio. No início, senti um orgulho genuíno por ele. Vi-o arriscar, largar a segurança de um salário fixo, trabalhar até tarde, passar fins de semana colado ao computador. Estive lá para ouvir os desabafos quando as contas não batiam certo, para acalmar os medos quando um cliente desistia, para brindar às pequenas vitórias que, para ele, significavam tudo. Só que, à medida que a empresa foi crescendo, algo nele começou a endurecer. As conversas passaram a girar quase exclusivamente em torno do trabalho, dos lucros, da necessidade constante de mostrar resultados. Tornou-se mais competitivo, não só com o mundo, mas comigo. Começou a medir o valor das pessoas pelo sucesso visível, pelo estatuto, pelo que conseguiam exibir. Surgiu uma desconfiança constante, como se todos fossem potenciais ameaças ou degraus numa escada que ele precisava de subir depressa demais. A amizade, que antes era refúgio, começou a parecer um palco onde ele precisava de provar, a todo o momento, que tinha “chegado longe”. E eu, sem dar por isso, deixei de ser um amigo para passar a ser apenas mais alguém com quem ele se comparava.
As conversas deixaram de ser horizontais, deixaram de ser um espaço de partilha verdadeira. Tudo se transformava numa comparação constante, quase automática. Se eu falava de um problema no trabalho, ele respondia com um relato ainda mais pesado, como se precisasse de provar que o dele era sempre maior, mais urgente, mais digno de atenção. Se eu partilhava algo bom, uma conquista, um momento feliz, ele relativizava, desviava o foco, ou acrescentava um detalhe que diminuía a importância daquilo que eu dizia. Às vezes fazia-o de forma subtil, com um sorriso ou uma piada, outras vezes de forma mais crua, mas o efeito era sempre o mesmo: eu sentia-me pequeno, desvalorizado, como se a minha vida estivesse sempre um degrau abaixo da dele. No início, ignorei. Convenci-me de que era stress, cansaço, o peso de ser responsável por uma empresa inteira. Disse a mim próprio que amizades longas sobrevivem a fases más, que não se desistem de pessoas por mudanças temporárias. Afinal, éramos amigos há tantos anos que parecia impensável acreditar que algo tão silencioso, tão pouco espetacular, pudesse estar a cavar o fim daquilo que construímos juntos.
O ponto de rutura não foi marcado por um único acontecimento dramático, mas por um acumular silencioso de pequenas desconsiderações que, ao longo do tempo, se tornaram insuportáveis. Comentários irónicos, disfarçados de brincadeira, que me faziam duvidar de mim mesmo e do valor do que eu dizia. Falta de apoio em momentos em que mais precisei dele, como se a minha vulnerabilidade fosse um incómodo e não uma oportunidade de partilha. Ausências injustificadas em encontros combinados, conversas interrompidas, mensagens sem resposta, gestos que, embora pequenos, gritavam desinteresse. E, sobretudo, a sensação esmagadora de que eu já não era ouvido, que a minha presença e as minhas palavras existiam apenas para preencher o espaço ao redor do ego dele — tolerado enquanto não o incomodasse ou competisse com a sua narrativa. Cada episódio isolado parecia trivial, mas juntos formavam um peso crescente, sufocante, que me obrigava a questionar se a amizade que tanto valorizei ainda existia de verdade.
A gota de água veio num momento inesperado: quando atravessei uma fase complicada da minha vida pessoal e precisei, pela primeira vez em muitos anos, de apoio verdadeiro. Falei-lhe com honestidade, sem máscaras. E ele ouviu… mas respondeu com conselhos frios, apressados, quase condescendentes. Disse-me que eu tinha de “endurecer”, que estava a dramatizar, que havia problemas bem maiores no mundo. Saí daquela conversa a sentir-me pequeno, envergonhado por ter confiado.
Foi aí que percebi algo doloroso: a amizade já não era um lugar seguro. Eu estava a esforçar-me para manter vivo algo que, para ele, já tinha deixado de ser prioridade. Não houve discussão final, nem cobranças, nem acusações. Houve distância. Mensagens que ficaram por responder. Convites que deixaram de ser feitos. Um silêncio que começou por ser desconfortável e acabou por se tornar necessário.
Deixar de falar com o Ricardo foi como perder um capítulo inteiro da minha vida. Durante muito tempo, senti culpa. Perguntei-me se devia ter insistido mais, sido mais compreensivo, mais paciente. Mas, com o tempo, percebi que amizade não pode ser sustentada por uma só pessoa. 15 anos não garantem respeito. Nem presença. Nem cuidado.
Hoje, guardo as memórias boas — porque foram muitas e verdadeiras —, mas já não tento reescrever o fim. Algumas pessoas acompanham-nos apenas até certo ponto do caminho. E aceitar isso, por mais que doa, também é uma forma de maturidade.
Perdi um melhor amigo. Mas ganhei clareza. E, sobretudo, aprendi que não devemos manter na nossa vida quem nos faz sentir menores do que somos.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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