Leibniz Universität Hannover

Leibniz Institute of Plant Genetics

Cofre de sementes protegido por nove pessoas que morreram à fome. A “arca de Noé” da agricultura.

Durante o cerco de Leninegrado, uma das páginas mais devastadoras da Segunda Guerra Mundial, nove pessoas morreram a proteger uma “biblioteca” que não tinha livros.

Guardava, em vez de obras, sementes, recolhidas um pouco por todo o mundo, e era o primeiro grande banco de sementes do planeta, antepassado direto das atuais coleções de conservação genética espalhadas por dezenas de países.

Os heróis eram cientistas da alimentação e agrónomos. Morreram à fome, tal como cerca de 700 mil outros habitantes da cidade, mas recusaram consumir o tesouro que lhes estava confiado.

A decisão, vista à distância, transformou-se num símbolo: em situações-limite, preservar diversidade genética pode ser tão vital quanto salvar vidas no imediato porque é isso que permite reconstruir sistemas alimentares depois do desastre.

O conceito moderno de banco genético, biorepositório onde se guardam recursos genéticos, como sementes, células ou tecidos, está intimamente ligado ao trabalho de Nikolai Vavilov, botânico e geneticista russo, fascinado pela variedade das plantas cultivadas, nota a Popular Science.

Vavilov imaginou um “balcão único” mundial de sementes onde investigadores e melhoradores pudessem aprender, cruzar variedades e responder a crises de fome.

Ao longo da vida, o botânico organizou enormes expedições: foram 115 viagens a 64 países, das quais resultaram cerca de 380 mil amostras reunidas para o banco de sementes de Leninegrado. A coleção tornou-se tão valiosa que, segundo relatos históricos, despertou a atenção das forças alemãs durante o cerco.

Vavilov acabaria por morrer num gulag, mas a visão sobreviveu: hoje, a ideia de reunir, preservar e partilhar diversidade agrícola está no centro de estratégias globais de segurança alimentar.

Atualmente existem centenas de genebancos no mundo. Quase todos os países mantêm coleções próprias, complementadas por redes internacionais e centros de investigação.

Organizações como a Crop Trust, entidade que apoia financeiramente e tecnicamente a conservação de recursos genéticos, trabalham para reforçar estas infraestruturas: ajudam a garantir financiamento, formação, gestão e tecnologia para manter as coleções viáveis no longo prazo.

Porquê? Porque se a agricultura moderna é, cada vez mais, uma aposta em poucas variedades altamente produtivas, os genebancos funcionam como um seguro coletivo; uma reserva de características genéticas que pode ser decisiva quando uma doença, uma praga ou uma mudança abrupta do clima ameaça as culturas dominantes.

A história oferece exemplos dramáticos do que acontece quando a diversidade é insuficiente. A Grande Fome da batata na Irlanda, no século XIX, ilustra o risco de homogeneidade agrícola: quando muitos agricultores dependem do mesmo tipo de planta, um único agente patogénico pode arrasar colheitas, economias e vidas humanas.

É precisamente esse cenário que os genebancos procuram evitar. Ao guardarem milhares de linhagens, variedades antigas e parentes selvagens das culturas atuais, preservam um arsenal de características que pode ser reintroduzido por melhoramento convencional ou por ferramentas modernas de genética.

Um exemplo citado pela PopSci é o trabalho do ICARDA (International Center for Agricultural Research in the Dry Areas), que gere genebancos em Marrocos e no Líbano.

Para além de serem coleções de conservação, funcionam como janelas para a história humana e agrícola: incluem parentes selvagens das culturas, formas “primitivas” e variedades localmente adaptadas, algumas com origem nas primeiras domesticações na região do Crescente Fértil.

Estas sementes contam uma história de adaptação ao longo de séculos. À medida que as gerações se sucedem, as plantas evoluem e ajustam-se às pressões do ambiente. Para uma agricultura sob stress climático, isso é ouro genético: muitas variedades conservadas foram moldadas por condições extremas e podem conter pistas para culturas mais resilientes num planeta em aquecimento.

Os genebancos não são apenas “armazéns”. Mantêm uma função activa de investigação e partilha: investigadores e melhoradores podem solicitar amostras para estudar traços específicos e desenvolver novas variedades.

Se uma equipa procura, por exemplo, aumentar o valor nutricional do trigo ou melhorar a tolerância à seca, pode encontrar material genético útil numa coleção localizada noutro país.

Quando o pedido é aprovado, o genebanco envia amostras para estudo e multiplicação. Esta circulação controlada de material ajuda a acelerar a inovação agrícola — e, em muitos casos, a responder a urgências no terreno.

Os genebancos podem também fornecer sementes antigas e adaptadas para que agricultores retomem a produção após perdas severas. E há outro nível de proteção: o das duplicações.

Para reduzir o risco de perda total, genebancos enviam cópias das suas sementes para outras instituições. Existe até um modelo conhecido como “black box”, em que o depósito externo serve apenas para salvaguarda e o material continua a pertencer exclusivamente ao depositante.

É uma forma de dispersar o risco num mundo onde um incêndio, uma inundação, uma falha elétrica ou um ataque armado pode inutilizar uma coleção de um dia para o outro.

A vulnerabilidade preocupa.

Muitos genebancos dependem de frio constante; uma falha de energia pode comprometer a viabilidade de sementes conservadas a temperaturas muito baixas de -18ºC, que levaram à criação, como o ZAP escreveu ainda este mês, de cofres como o grande “backup de vida” de Svalbard, onde o permafrost e o frio natural oferecem uma camada extra de segurança: mesmo sem energia, a temperatura ambiente ajuda a manter as sementes preservadas por longos períodos.


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