As contas ainda não estão fechadas, mas 2025 pode entrar para a História como o segundo ano mais quente desde que há registos. Em Portugal, testemunhámos fenómenos extremos como a depressão Martinho, em Março, uma onda de calor em Junho com novo recorde de temperatura (46,6 graus Celsius em Mora, no Alentejo), grandes incêndios florestais no Verão e o tornado em Novembro no Algarve. 2025 foi ano em que sentimos na pele as alterações climáticas?

O cientista climático Pedro Matos Soares afirma que a ocorrência de todos esses fenómenos em território nacional não deve causar espanto ou estranheza. “Toda esta fenomenologia – desde as precipitações muito extremas às fortes rajadas de vento e ondas de calor – enquadra-se na questão projectada do que é o clima futuro português e ibérico”, diz o físico da atmosfera do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Não há aqui nenhuma surpresa.”

Em conversa com o Azul, o investigador recorda que Portugal apresenta um clima de transição que, por definição, apresenta variabilidade tanto de temperatura como de precipitação. “Somos atreitos a essa fenomenologia e, por isso, para sermos rigorosos temos de ver tendências a longo prazo”, refere o investigador.

Faltam estudos específicos

Uma análise do grupo World Weather Attribution à onda de calor que atingiu a Europa no final de Junho mostrou que 65% das 2305 mortes atribuídas ao calor resultam das alterações climáticas. Em Lisboa, o tempo quente foi a causa de 23% das mortes em excesso, concluiu o estudo de atribuição elaborado por cientistas do Imperial College London e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres​.

Em Portugal, contudo, ainda não há estudos de atribuição (ver caixa) deste tipo. O que a ciência nos diz hoje com certeza é que o acúmulo progressivo de carbono na atmosfera, provocado pela queima progressiva de combustíveis fósseis, está a transformar o clima, aumentando a intensidade e a frequência de fenómenos extremos como ondas de calor e extremos de precipitação.

“Isso está projectado e é claro para nós. Mas não podemos dizer, por exemplo, que a depressão Martinho foi amplificada pelo contexto de aquecimento global – isto não foi especificamente estudado e, por isso, não posso dizer isso”, afirma o investigador, referindo-se à ausência em Portugal de estudos de atribuição para fenómenos específicos.

A depressão Martinho deixou dezenas de pessoas desalojadas. Em Março, ventos fortes com rajadas até 169  quilómetros por hora, chuva intensa, inundações e agitação marítima provocaram milhares de ocorrências no país, cortes no sistema de energia eléctrica e perturbações nos serviços públicos de transporte.

Para o geofísico Filipe Duarte Santos, professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), apesar da falta de estudos específicos sobre fenómenos recentes, a tendência é clara: há um aumento da frequência e da intensidade dos fenómenos extremos devido à crise climática.

Entre eles, as ondas de calor destacam-se como os mais mortíferos. “São, de longe, os eventos extremos que provocam mais vítimas”, afirma, em conversa com o Azul, lembrando que o excesso de mortalidade é facilmente quantificável. Em Portugal, o programa Ícaro, que emite avisos para ondas de calor, tem sido eficaz: “A mortalidade tem descido devido a esse sistema de alerta.”

Clima, um sistema variável

Tanto Filipe Duarte Santos como Pedro Matos Soares sublinham que o clima consiste num sistema muito variável, podendo oscilar a nível local e regional. Esta variabilidade também ocorre ao longo do tempo, pelo que não é possível fazer afirmações absolutas tendo em conta apenas um ano, ou mesmo um só estudo rápido de atribuição. É por isso, aliás, que a ciência do clima requer séries de dados recolhidas ao longo de três ou mais décadas para estabelecer tendências ou padrões climáticos.

“O sistema é muito variável. Hoje a comunicação social pode estar a falar de longos períodos de seca como o ‘novo normal’, mas isso não quer dizer que não possamos ter anos chuvosos dentro de dois ou três anos. Não podemos ser demagógicos. Há muita gente surpresa com a precipitação intensa e as barragens cheias, mas eu não estou nada surpreso”, confessa Pedro Matos Soares.

Para o físico da atmosfera Instituto Dom Luiz, há um desacerto entre “o tempo mediático” e a capacidade de resposta da ciência climática, que está ancorada sobretudo em estudos de longo prazo e longas séries de dados. Se perguntarmos a um cientista se um tornado português foi alimentado pela actividade humana, a resposta não poderá garantir a lógica binária do sim ou não.

Os estudos de atribuição, por sua vez, conseguem satisfazer a dinâmica jornalística e das redes sociais porque estimam rapidamente o aumento da severidade e frequência dos fenómenos. “Estes estudos são importantes, mas resultam de modelos e os modelos não contêm verdades absolutas”, diz Pedro Matos Soares, para quem há uma dúvida que persiste: “Será que é aí que devemos concentrar a comunicação sobre as alterações climáticas?”

Cuidar de pessoas e bens

Para Pedro Matos Soares, no contexto geopolítico actual – volátil, tenso e marcado pelo declínio do multilateralismo –, é fundamental focar a atenção na adaptação climática e na “salvaguarda de pessoas e bens” para que a questão climática possa ganhar um espaço maior nas preocupações quotidianas.

“Nós vimos que as alterações climáticas desapareceram praticamente do discurso político em Portugal”, lamenta Matos Soares, que recorda que foi necessário haver um evento trágico, como o incêndio de Pedrógão Grande em Junho de 2017, para que o clima ocupasse o centro dos debates parlamentares.

A comunicação do clima pode ganhar se não estiver centrada só na mitigação e na atribuição, dando visibilidade “aos ganhos em termos de minimização de risco” e “à relevância da “contabilização do risco climático”, acredita o físico da atmosfera.

“As pessoas têm uma vida corrida e não estão preparadas para viver sempre sob uma ameaça constante. É claro que devemos ser sempre transparentes e é certo que o clima que estamos a viver hoje em dia é um clima diferente do que estávamos a viver há dez anos”, afirma Pedro Matos Santos, para quem a adaptação climática merece maior atenção mediática.

Se é certo que a preparação e sistemas de alerta salvam vidas, e que é preciso manter as populações e os líderes políticos empenhados na acção climática que salvaguarda pessoas e bens, também é verdade que a adaptação climática tem um limite.

“Temos de continuamente resenhar as nossas estratégias de comunicação climática. A preparação e a adaptação são fundamentais, mas têm limites. A redução drástica das emissões é urgente”, afirma Theodore Keeping, investigador do Imperial College London, numa conferência de imprensa virtual em que o World Weather Attribution apresentou o balanço de 2025.

Incêndios, furacões e calor

Ainda não sabemos se 2025 vai ou não entrar para a História como o segundo ano mais quente desde que há registo – isto porque não é certo que supere 2023, que detém hoje essa classificação e que é superado apenas por 2024, o ano mais quente registado globalmente.

Há aqui, contudo, um detalhe preocupante: sem a crise climática, 2025 não teria sido um ano particularmente quente. Isto porque 2023 e 2024 estiveram sob a influência do padrão climático El Niño, um fenómeno que aquece as águas do Pacífico equatorial, fazendo subir temporariamente a temperatura média global.

Já 2025 conta com o efeito “refrescante” do padrão climático La Niña, que integra Sistema Climático El Niño/Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês) e faz arrefecer naturalmente as águas superficiais do Pacífico. Ou seja: mesmo sem contar com o “empurrão” que o La Niña dá para fazer baixar o mercúrio dos termómetros, 2025 está a “disputar” o título de vice-campeão da crise climática com 2023.

O ano que agora está prestes a terminar reúne uma trágica e destrutiva colecção de fenómenos extremos. Se olharmos para os Estados Unidos, por exemplo, veremos no calendário um mês de Janeiro marcado pelos incêndios de Los Angeles. Após um Outono muito seco, as folhagens destituídas de humidade ofereceram combustível suficiente para fazer arder mais de 23 mil hectares e causou directamente a morte de 31 pessoas.

No mesmo ano em que o presidente norte-americano Donald Trump se esforçou para desmantelar as estruturas académicas e técnicas que fazem avançar a ciência climática, os Estados Unidos também foram fustigados por fenómenos extremos como as cheias no rio Guadalupe, no Texas.

O ano de 2025 foi ainda marcado pelo furacão Melissa nas Caraíbas, um fenómeno que atingiu a categoria 5. Um dos furacões atlânticos mais fortes a chegar à superfície terrestre, o Melissa provocou cerca de 1200 mortes e dois milhões de desalojados em Cuba, no Haiti, na Jamaica e na República Dominicana.

Os furacões são classificados nas categorias de 1 a 5 pela escala de Saffir-Simpson, com base na velocidade dos ventos sustentados. As categorias indicam o potencial de destruição, desde danos menores na categoria 1 (ventos entre 119-153 quilómetros por hora) até danos catastróficos na categoria 5 (ventos acima de 252 km/h). Basta lembrar que o Katrina, que há 20 anos deixou quase toda a Nova Orleães submersa, também ostentava a perigosa categoria 5.

As ondas de calor foram dos fenómenos mais mortíferos de 2025. Estes extremos tornaram-se significativamente mais intensos desde a assinatura do Acordo de Paris, sendo alguns agora até dez vezes mais prováveis de ocorrer do que em 2015, segundo análises rápidas do World Weather Attribution.

Outros estudos desta iniciativa publicados neste ano revelaram ainda que as alterações climáticas intensificaram as ondas de calor no Sudão do Sul, Burquina Faso, Noruega, Suécia, México, Argentina e Inglaterra.




Esta imagem baseada em dados do serviço europeu Copérnico mostra as anomalias da temperatura da superfície do Pacífico em 8 de Dezembro de 2025
Copérnico

“A cada ano, os riscos das alterações climáticas tornam-se menos hipotéticos e mais uma realidade brutal”, afirmou Friederike Otto, professora de Ciências Climáticas no Centro de Política Ambiental do Imperial College London e co-fundadora do grupo World Weather Attribution, numa conferência de imprensa.

“O nosso relatório mostra que, apesar dos esforços para reduzir as emissões de carbono, eles têm sido insuficientes para impedir o aumento da temperatura global e os piores impactos. Os decisores políticos devem enfrentar a realidade de que a dependência contínua dos combustíveis fósseis está a custar vidas, milhares de milhões em perdas económicas e a causar danos irreversíveis às comunidades em todo o mundo”, alerta Friederike Otto.