O Governo decidiu substituir o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de São José (ULS), confirmou ao Observador a ainda presidente da ULS, Rosa Valente de Matos. O escolhido para liderar a ULS, a partir de 2026, é Miguel Paiva, militante do PSD. É apenas uma das mudanças na calha nas administrações dos hospitais do SNS. Outro Conselho de Administração que não continuará em funções, apurou o Observador, é o da ULS de Coimbra.
No caso da ULS de São José, a maior da zona de Lisboa, Rosa Valente de Matos está de saída depois de seis anos à frente da instituição e garante que não lhe foi apresentado qualquer motivo para a não recondução no cargo. “Não me foi dada nenhuma justificação, foi uma vontade do Governo e da Direção Executiva do SNS”, diz a responsável, acrescentando que, perante o silêncio da tutela (e com o mandato a chegar ao fim, a 31 de dezembro), decidiu pedir uma reunião à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que lhe comunicou que não iria continuar à frente da ULS — que integra hospitais como São José, Dona Estefânia ou Curry Cabral.
“Pedimos uma reunião à senhora ministra para nos esclarecer, porque merecemos alguma dignidade e a senhora ministra transmitiu-nos que não era intenção do Governo que continuássemos”, relata Rosa Valente de Matos. A também militante socialista e membro do Secretariado Nacional do PS admite que o vínculo partidário possa ter pesado na decisão do Governo.
“Pode ter influenciado. O único cartão que tenho é o do PS. Mas nunca tive nas minhas equipas pessoas ligadas ao PS”, diz a ainda presidente da ULS de São José, defendendo o que considera ser um trabalho positivo feito nos últimos anos na instituição, que, garante, nunca “fechou portas” e tem bons indicadores assistenciais em diversas áreas. “Fizemos um excelente trabalho. Esta é a única unidade de Coimbra para baixo que nunca fechou, foi feito um trabalho sereno, com lealdade, ao longo dos últimos seis anos”, diz a responsável.
Segundo o Observador apurou, o novo presidente da ULS de São José será Miguel Paiva, atualmente presidente da ULS de Entre Douro e Vouga (com sede em Santa Maria da Feira) e com fortes ligações ao PSD. Miguel Paiva já foi presidente da concelhia social-democrata de Vila do Conde e liderou, nas últimas eleições autárquicas, a candidatura da coligação PSD/CDS à Assembleia Municipal daquele concelho do distrito do Porto. Segundo o Observador apurou, a nomeação de Miguel Paiva terá sido uma escolha conjunta do primeiro-ministro Luís Montenegro e do diretor-executivo do SNS, Álvaro Almeida, ambos com uma estreita ligação às estruturas do PSD na região Norte.
É, aliás, ao diretor-executivo do SNS, Álvaro Almeida, que cabe indicar a composição dos Conselhos de Administração das 39 ULS e dos três IPO do país, nomes que passam depois pelo crivo da CReSAP e são nomeados em reunião de Conselho de Ministros.
Rosa Valente de Matos critica a prática de mudar dirigentes com base na cor do cartão partidário, ao invés da competência para exercer os cargos. “Pensei que a mentalidade dos nossos políticos pudesse ter evoluído, mas não. As pessoas devem ser escolhidas pela sua competência e não pela cor política”, defende a dirigente, com mais de 30 anos de experiência na área da Saúde, deixando um alerta quanto ao perfil do seu sucessor. “A pessoa que vier tem de ter um currículo corresponde às exigências que esta instituição tem”, vinca a presidente da ULS de São José, recusando referir-se ao nome de Miguel Paiva, que tem exercido funções, ao longo dos últimos dez anos, na ULS de Entre Douro e Vouga, de dimensão muito inferior à de São José.
O atual Conselho de Administração da ULS de São José enviou esta terça-feira uma carta aos trabalhadores, à qual o Observador teve acesso, na qual comunica que não será reconduzido, elenca os avanços feitos ao longo dos últimos anos e salienta o espírito de “dever cumprido”. “Encerramos este ciclo com um claro sentido de dever cumprido por todas estas conquistas, mas também com um orgulho imenso por fazermos para sempre parte da história de uma instituição que faz a diferença na vida de milhares de pessoas todos os dias”, pode ler-se na missiva.
Rosa Valente de Matos esclarece ao Observador que tem intenção de deixar a liderança da ULS de São José o mais rápido possível. “Este período, até à substituição, é penoso para os trabalhadores e para nós. Espero que seja o mais rápido possível”, diz a dirigente.
Pelo menos uma dúzia de Conselhos de Administração de ULS — entre as quais o da ULS de São José — terminam os respetivos mandatos a 31 de dezembro de 2025, pelo que terão de ser reconduzidos ou substituídos. Um dos que não irá continuar em funções é o da ULS de Coimbra (a maior do país), liderado pelo experiente administrador hospitalar Alexandre Lourenço, apurou o Observador. A intenção do Governo — numa ULS com bons indicadores assistenciais e com um desempenho unanimemente elogiado — está a ser também recebida com surpresa no meio hospitalar. Contactado pelo Observador, Alexandre Lourenço diz não ter recebido nenhuma indicação sobre a sua continuidade ou saída e realça que a preocupação do Conselho de Administração que lidera é “manter a qualidade de serviço” da ULS.
Contactado pelo Observador, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, não quis fazer comentários, remetendo uma reação a mudanças nos Conselhos de Administração das ULS para mais tarde, quando as mesmas se tornarem oficiais. Em janeiro deste ano, a APAH deixou críticas ao Governo depois de o executivo ter afastado nove Conselhos de Administração de ULS, substituindo, em parte dos casos, dirigentes com ligações ao PS por outros com ligações ao PSD, como nos casos das ULS do Algarve, Almada-Seixal, Castelo Branco, Guarda ou Cova da Beira.
O Observador questionou o Ministério da Saúde no sentido de perceber o que motivou a substituição da administração da ULS de São José e que outras substituições de Conselhos de Administração de ULS estão previstas, mas não obteve resposta. Já a Direção Executiva do SNS diz não comentar nomeações que ainda não aconteceram.
Em 2026, para além da ULS de Coimbra e de São José, há ainda outras mudanças a caminho, com os presidentes das ULS do Nordeste e de Matosinhos a não serem reconduzidos nos cargos — no primeiro caso, por limite de idade do atual presidente, Carlos Alberto Vaz, já com 70 anos, e no segundo caso por limitação de mandatos do presidente, António Taveira Gomes, que cumpre o terceiro mandato à frente da ULS.