A CIA (Central Intelligence Agency, principal agência de serviços secretos norte-americana) não encontrou provas de que a Ucrânia tenha atacado uma das residências do Presidente russo, de acordo com responsáveis norte-americanos citados na quarta-feira pelo diário “Wall Street Journal”, contrariando as alegações de Moscovo.
Fontes dos serviços de informação de Washington consultadas pelo jornal norte-americano afirmam que a Ucrânia estava a visar um objetivo militar que já tinha atacado antes na região de Novgorod, onde se encontra a casa de campo de Putin, a mansão de Valdai, mas não nas proximidades do alvo de Kiev. A CIA avaliou, assim, a alegação como falsa, indicando que Vladimir Putin deturpou o incidente.
A notícia foi divulgada no mesmo dia em que o Presidente norte-americano, partilhou nas redes sociais um severo editorial do “New York Post”, que acusa Moscovo de fabricar o ataque para sabotar o processo de paz. Segundo Donald Trump, a reação exagerada da Rússia demonstra que é Moscovo quem está a atrapalhar as negociações.
O artigo é bastante crítico do líder do Kremlin, que o acusa também de basear toda a campanha contra a Ucrânia numa mentira, de “desprezar os Estados Unidos” e de trabalhar contra a agenda do republicano ao aliar-se a países como o Irão, a Coreia do Norte e a Venezuela.
Na passada segunda-feira, Trump afirmou que fora o próprio homólogo russo que lhe tinha contado por telefone o alegado ataque à sua residência. Numa primeira reação, o republicano expressou insatisfação, embora tenha admitido que a operação poderia não ter decorrido conforme descrito por Putin.
Rússia envia análises dos destroços para os EUA
Para provar o seu ponto, a Rússia vai enviar para os Estados Unidos as análises aos destroços dos drones que alegadamente atacaram a casa de Valdai, indicou na quinta-feira o Ministério da Defesa russo, um dia depois de Trump ter partilhado o editorial que acusa Moscovo de aproveitar o incidente para minar as negociações de paz.
“Esses materiais [dos destroços dos drones] serão transferidos à parte americana através dos canais estabelecidos”, comunicou o Ministério da Defesa russo na rede social Telegram, acrescentando que realizou uma inspeção técnica ao sistema de navegação de um dos veículos aéreos não tripulados ucranianos abatidos sobre a região de Novgorod na noite de 29 de dezembro.
Donald Trump recebeu Volodymyr Zelensky na sua residência de Mar-a-Lago, na Florida, a 28 de dezembro
Anadolu via Getty Images
“Os agentes dos serviços de informações russos conseguiram extrair o arquivo da missão de voo” do drone, explicou o ministério. “A descodificação dos dados da rota revelou que o objetivo final do ataque ucraniano de 29 de dezembro era uma instalação na residência presidencial russa na região de Novgorod.”
Na quarta-feira, o Ministério da Defesa divulgou detalhes sobre o alegado ataque ucraniano com drones contra a residência de Putin, indicando que, a partir de diferentes pontos de descolagem, 91 drones voaram em direção ao alvo sobrevoando as regiões de Briansk, Smolensk, Tver e Novgorod.
Esta é a primeira vez que a Rússia denuncia um ataque que poderá ter sido dirigido contra o líder russo, que desde o início do conflito reforçou a sua segurança. Do outro lado, desde o início da guerra, em 2022, as autoridades de Kiev denunciaram mais de uma dezena de tentativas de assassinato ou sequestro contra Volodymyr Zelensky.
Ucrânia fala numa acusação “falsa”
Já o Presidente ucraniano destacou na terça-feira que os aliados de Kiev têm a oportunidade de verificar a falsidade da acusação de Moscovo.
“A nossa equipa de negociação contactou a equipa norte-americana, examinaram os detalhes e descobrimos que é falsa. E, claro, os nossos parceiros também podem verificar, utilizando os seus recursos técnicos, que é falsa”, argumentou Zelensky.
A alta representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, também questionou a veracidade do ataque, considerando que se trata de “uma distração deliberada”.
O Governo ucraniano já tinha declarado que Moscovo não tem provas para suportar a sua acusação, que levou a diplomacia russa a ameaçar com um endurecimento da sua posição nas negociações de paz promovidas pela Casa Branca.
“Faltam 10%” para o acordo de paz, diz Zelensky
Esta súbita tensão ocorre logo após declarações dos Estados Unidos e da Ucrânia dando conta dos progressos alcançados na busca de um entendimento.
Na sua mensagem de Ano Novo, Zelensky disse que a proposta de um acordo de paz com a Rússia está 90% pronta, embora observe que a parte determinante está nos restantes 10%.
“O acordo de paz está 90% pronto. Faltam 10%. Estes 10% contêm tudo, na verdade. São estes 10% que vão determinar o destino da paz, o destino da Ucrânia e da Europa”, declarou numa mensagem de vídeo na plataforma Telegram.
O Presidente ucraniano afirmou que o seu país quer o fim do conflito, mas não “a qualquer preço”, e que um acordo deverá incluir fortes garantias de segurança para impedir a Rússia de lançar outra invasão.
Outro tema sensível que afasta as partes prende-se com as questões territoriais, com Moscovo a reivindicar a legitimação da anexação das áreas ocupadas na Ucrânia, que por sua vez tem recusado a sua cedência.