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Em agosto de 1725, Custódio Gomes Correia escreveu uma carta ao Santo Ofício: queria ser aceite como agente local da Inquisição na zona onde vivia, Pombeiro da Beira — na altura, um território razoavelmente povoado para os padrões rurais. Seguiram-se diligências para apurar a sua pureza de sangue (que não era mouro ou cristão novo e também aferir condutas morais e sociais) e Custódio foi admitido. “Bandido”, havia de lhe chamar 300 anos depois o seu sétimo neto.
António Filipe desconhecia este antepassado, bem como os primos a que o avô Custódio, nascido em Coimbra e casado com Maria de São Bernardo, o liga. Deste ramo, que vem do lado materno do candidato presidencial, há um visconde e dois políticos no ativo, do lado oposto do espectro partidário.
A poucas semanas das eleições presidenciais, o Observador traçou a árvore genealógica dos principais candidatos para conhecer a história familiar de cada um. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica, foi possível recuar vários séculos para descortinar a sucessão de acasos históricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos.
No caso de António Filipe, foi possível recuar até ao século XVII e documentar mais de sessenta ascendentes diretos, sobretudo no norte e centro do país. Só nas gerações mais recentes, a partir dos trisavós e bisavós do candidato, é que os seus antepassados começam a aparecer na região de Lisboa, ou mais perto dela, em Alcanena, onde o candidato se lembra de ter passado férias na casa dos avós. António Filipe nasceu em Lisboa em 1963, que foi já a cidade onde os seus pais se casaram.
Os antepassados do comunista são na maioria trabalhadores — rurais e não só. Um dos bisavós do candidato, que vivia na Ajuda, foi criado de servir da Casa Real — mas há proprietários e até um visconde. E também há políticos. Os antigos líderes do PSD Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite são primos em 14.º grau do candidato apoiado pelo PCP, também eles descendentes de Custódio Gomes Correia, o agente da Inquisição do século XVII. A revelação surpreendeu António Filipe.
Quando o Observador lhe apresentou estas descobertas, preferiu logo focar-se noutro primo afastado, José Rodrigues Miguéis. O escritor do século XX que se opunha ao antigo regime chegou a estar ligado ao PCP e incumbido de ser o elo de ligação dos comunistas portugueses aos dos EUA, onde viveu exilado. Navegue pela árvore genealógica do candidato apoiado pelos comunistas para descobrir as histórias que se escondem por trás de quatro séculos de linhagem familiar.
António Filipe Gaião Rodrigues é o nome completo do candidato que na política teve de deixar o seu nome de família de parte para não ser confundido com o homónimo social-democrata, António Rodrigues. Tudo começou na faculdade quando, na corrida à associação académica de Direito, já lá estava o membro da JSD. Mais tarde, no Parlamento, o mesmo António Rodrigues também já lá estava como deputado do PSD. Optou por António Filipe como nome de combate para a arena política.
É um nome com história na família, onde os nomes António e Rodrigues se repetem até ao trisavô da parte do pai, António Trindade Rodrigues. O pai do candidato chamava-se António Filipe Rodrigues e o pai deste também. O bisavô paterno tinha Domingos como primeiro nome — e António Rodrigues logo de seguida.
Não foi possível recuar além do século XIX na linha do apelido paterno do candidato. A escassez de registos disponíveis permitiu apenas chegar ao trisavô de António Filipe, António Trindade Rodrigues, que nasceu na freguesia de Samil (em Bragança) e casou com Maria dos Santos Martins. Toda a descendência imediata deste António Rodrigues, até ao avô paterno de António Filipe, nasceu no distrito de Bragança.
António Filipe já nasceu em Lisboa, em 1963, mas as suas raízes vêm sobretudo do norte do país, com a movimentação dos seus antepassados a refletirem o padrão de migração das zonas rurais para Lisboa nos séculos XIX e XX. O seu pai, António Filipe Rodrigues, também já nasceu em Lisboa. A mãe do candidato nasceu no lugar de Filhós, na freguesia de Bugalhos (Alcanena).
O pai de António Filipe casou uma primeira vez em 1944 com Isabel Peixoto Luís, mas divorciou-se. O divórico era legal desde 1910 (mês imediatamente a seguir à implantação da República). Com a Concordata de 1940, passou a ser proibido, mas apenas para os casamentos católicos — que eram a esmagadora maioria das uniões celebradas em Portugal, não sendo o caso deste em particular.
António Filipe Rodrigues tinha casado pelo civil e foi também desta forma que, em 1959, voltou a casar, desta vez com Maria da Nazaré Gaião. António Filipe nasceria quatros anos depois, em Lisboa, onde os pais residiam.

Lei do divórcio, 1910
O primeiro antepassado conhecido do candidato a nascer em Lisboa foi a sua avó paterna, Maria das Dores Ferreira, em 1878. Mas é filha de pais com origem noutras regiões: Sátão e Abrantes. A sua linha ascendente é, no entanto, difícil de seguir porque a mãe de Maria das Dores, Aurélia da Conceição, foi uma criança exposta na roda da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, em 1847, não sendo possível determinar quem eram os seus pais.

Registo de batismo de Aurélia da Conceição
Aurélia da Conceição, bisavó paterna de António Filipe, foi exposta em Abrantes, mas foi viver para Lisboa e, em 1877, foi aí que casou com Firmino Marques Ferreira. Viveram na zona da Ajuda e Firmino aparece, nos vários registos, referido como “criado de servir” e também como “criado da Casa Real”.
Os genealogistas consideram que isto sugere que poderia prestar serviço no Palácio da Ajuda (a residência oficial da família real, desde o reinado de D. Luís I até ao final da monarquia), já que residia precisamente nessa zona da cidade.
No lado paterno de António Filipe, as atividades profissionais não eram muito diversas. As mulheres dedicavam-se às atividades domésticas. Já os homens de que há registo eram trabalhadores (normalmente, nesta altura, trabalhadores agrícolas, à jorna). O avô paterno de António Filipe, António Filipe Rodrigues, era “soldado da guarda fiscal”, a força militarizada que existia para guardar fronteiras terrestres e marítimas, ou controlar a circulação de mercadorias.

António Filipe Rodrigues, “soldado da guarda fiscal”
Do lado materno, o quadro não é muito diferente, identificando-se sobretudo “trabalhadoras domésticas”, “criadas”, “lavradores” ou “trabalhadores”. Há, no entanto, dois “proprietários” nos antepassados diretos de António Filipe: um trisavô e um bisavô, ambos do lado materno, Manuel Dias e José António de Oliveira.
Na hierarquia rural do século XIX, havia uma distinção entre o trabalhador/jornaleiro, que vendia a força do trabalho ao dia, o lavrador, que tinha uma pequena parcela de terra (e também a trabalhava), e o proprietário, que tinha terras, empregava pessoas e beneficiava de rendas e produtos (podia trabalhar a terra ou não).
José António Oliveira, nascido em Coimbra, era proprietário e vivia em Bugalhos, Alcanena, quando teve uma filha com uma criada de servir.
Perpétua de Jesus Dias tinha nascido em Pombal, mas passou à freguesia de Bugalhos (Alcanena) e era criada de servir quando iniciou uma ligação com José António de Oliveira, então casado. Dessa relação nasceu, em 1903, uma filha, Filomena de Jesus Oliveira Dias, a avó materna do candidato. Os pais de Filomena viriam a casar em 1907, só depois do falecimento da primeira mulher de José António.
Também Filomena seria mãe solteira. A sua filha, Maria da Nazaré, nasceu em 1929 da ligação que teve com Gabriel Salgueiro Gaião. Gabriel e Filomena viriam a casar apenas em 1948, 19 anos depois do nascimento da filha, na vila de Alcanena. Eram os avós maternos de António Filipe.
O apelido Gaião é referido como “extremamente invulgar” pelos genealogistas. Foi possível traçá-lo até ao oitavo avô do candidato, João Duarte Gaião, que nasceu em finais do século XVII no lugar de Vale do Galego, na freguesia de Colmeias (Leiria).
Era filho de João Dias e Luísa João, nenhum deles com apelido registado, não tendo sido possível determinar se esse nome em concreto — Gaião — terá tido início em João Duarte Gaião ou se viria de algum dos seus avós ou bisavós, o que era frequente na época. O que é certo é que chegou até ao candidato.
João Duarte Gaião mudou de distrito, para Santarém, para a freguesia de Bugalhos, onde casou, em 1696, com Maria Francisca da Rosa. O casal ficou a morar no lugar de Filhós, onde a linha deste apelido se manteve durante cerca de 250 anos até à chegada a Lisboa da mãe do candidato, Maria da Nazaré Oliveira Gaião. Durante este período, o apelido passou por linha feminina, de bisavô para bisneto, entre Manuel Duarte Gaião e Manuel Jorge Gaião, sexto avô e trisavô do candidato, respetivamente.
É no lado materno do candidato que se encontram as maiores curiosidades desta análise genealógica. Nomeadamente, a partir de dois elementos específicos, os sétimos avós de António Filipe: Custódio Gomes Correia, que nasceu em Coimbra em 1679, e Maria de São Bernardo, nascida no então concelho de Pombeiro da Beira no mesmo ano.
Esta união vai dar origem a várias ramificações que levam a três figuras relevantes com parentesco com o candidato. Para lá chegar, comecemos por Custódio Gomes Correia, que era escrivão dos órfãos da Vila de Pombeiro, uma figura que fazia parte da administração da justiça cível e que era responsável por toda a escrita e registo dos assuntos relativos a menores sob tutela da justiça, os órfãos. Na altura, era um ofício intermédio, com prestígio social.
Num certo momento, Custódio quis também servir a Inquisição e candidatou-se a familiar do Santo Ofício do Tribunal Inquisitorial de Coimbra.
Nessa altura, já era casado com Maria de São Bernardo, como é possível confirmar no registo da verificação de habilitações para familiar do Santo Ofício, disponível nos arquivos da Torre do Tombo. O documento tem mais de uma centena de páginas, onde consta o resultado de um inquérito à genealogia e à conduta cívica, moral e religiosa de Custódio, já que para ser um agente leigo da Inquisição era preciso provar a “pureza de sangue” (o que significava não ter nos antepassados cristãos novos, mouros ou escravos) e a prática religiosa, situação económica e reputação.
Na carta, consta que Custódio, “suplicante, deseja muito ser admitido a Familiar do Santo Ofício do distrito da Inquisição de Coimbra”. O processo teve parecer positivo para agente local da Inquisição, uma função de prestígio social na altura e cujo exercício passava por receber as denúncias da população, transmiti-las ao Tribunal do Santo Ofício e também executar prisões.

Registo da verificação para admissão a Familiar do Santo Ofício
Custódio e Maria de São Bernardo foram pais de Josefa Maria Correia, sexta avô de António Filipe, que casou com Manuel Rodrigues. A família manteve-se em Pombeiro da Beira onde, em 1750, nasceu a filha de Josefa e Manuel, Caetana de São Bernardo Correia, que foi batizada com os apelidos dos seus avós maternos. As 21 anos casou com Joaquim José Lopes de Frias. E aqui começa a história de uma das ligações familiares curiosas de António Filipe.
Caetana e Joaquim José Lopes Frias casaram em Pombeiro da Beira em 1771 e foram pais de Sinfrósia Maria Correia Frias, em 1775, que é tetravó do candidato. Cinco anos, depois foram também pais de Bernardo Correia de Frias, que nasceu em Penacova.
Se seguirmos este ramo familiar, vemos que Bernardo voltou a Pombeiro da Beira, de onde era originária a sua família, e casou com D. Quitéria Maria Correia. Desta união nasceu, também em Pombeiro, António Correia de Frias, em 1822. Aos 42 anos, António casou com D. Ana Machado Sanches da Rocha e foram pais daquele que, anos mais tarde, seria o primeiro Visconde de Sanches de Frias.
David Correia de Sanches de Frias vinha de uma família de estatuto social elevado, como atesta o uso de Dona pela sua mãe. O título Visconde de Sanches de Frias foi criado por D. Luís I, em 1887, data em que o atribuiu pela primeira vez e por duas gerações (“duas vidas”) a David Correia Sanches de Frias, pelo trabalho em associações sociais e culturais, no tempo em que viveu no Brasil, em Belém do Pará. A sua vida foi dedicada às letras: colaborou com jornais e publicou várias obras, desde romances à poesia, sendo a mais conhecida Pombeiro da Beira – memória histórica, descritiva e crítica.

Visconde de Sanches de Frias
Joaquim e Caetana são quintos avós de António Filipe e bisavós, por varonia, do primeiro Visconde de Sanches de Frias. Os dois são primos em sexto grau.
Se recuarmos na ascendência Correia, comum ao candidato e ao Visconde, é possível verificar ainda a existência de um parentesco com duas figuras muito relevantes no PSD. O comunista António Filipe tem ligação familiar a dois antigos presidentes do partido de que é rival na arena política.
Para chegarmos a esses dois elementos, temos de recuar novamente a Custódio Gomes Correia (o agente local da Inquisição, lembra-se?) e à sua mulher, Maria de São Bernardo.
Dez anos antes de terem sido pais de Josefa Maria, de onde saiu o ramo que vai dar a António Filipe — e, por outra via, também ao Visconde de Ribeiro de Frias —, já tinham sido pais de António. É desta linha que surgem, mais de 250 anos depois, os dois social-democratas a que já vamos chegar.
A família mantém-se em Pombeiro da Beira e é lá que António casa com Maria Lopes dos Santos. Desta união nasce Maria Correia, que casa com António Brandão. O casal tem, em 1761, D. Áurea Maria de São Bernardo Correia (vai buscar os apelidos à bisavó materna). É também em Pombeiro que Áurea casa com Manuel Gomes da Silva.
É esta união, em 1777, que vai conduzir-nos até Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite. E que vai ligar os dois a António Filipe.

Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes
Áurea e Manuel foram pais de D. Margarida e de D. Pulquéria. A primeira é tetravó de Santana e a segunda é tetravó de Ferreira Leite. O ramo que leva a Santana passa a usar o apelido Silva, que só é substituído por Lopes em 1900, ano em que nasce o avô paterno de Santana, Luís Abílio Lopes.
Já o ramo que conduz a Manuela Ferreira Leite tem um percurso mais acidentado, com alguns filhos de pais incógnitos (caso de D. Bernarda Pereira de Vasconcelos ou de José Eugénio Dias Ferreira).
Os apelidos Dias Ferreira entram neste ramo pelo casamento de uma neta de Manuel e D. Áurea, D. Bernarda, com António Ferreira Dias. Os dois foram pais do Conselheiro Dias Ferreira, o último antepassado de Manuela Ferreira Leite a nascer na freguesia de Pombeiro, em 1834. Este ramo passa, depois, para Lisboa.
António Filipe é do ramo dos Correia, que seguiu de Sinfrósia Maria Correia de Frias, irmã do avô do Visconde de Frias.
A existência de um parentesco entre os dois ex-líderes do PSD já era conhecida e foi até explorada na altura em que ambos concorreram à liderança do partido, em 2008. O que não se conhecia era a ligação também aos Correia de Frias, de onde vem António Filipe e também o Visconde de Sanches de Frias.
Se regressarmos ao casal Caetano e Maria de São Bernardo, percebemos que são quartos avós do Visconde, sétimos avós de António Filipe e oitavos avós de Pedro Santana Lopes e de Manuela Ferreira Leite. Isto faz do comunista e dos dois sociais-democratas primos em 14.º grau.
Os últimos antepassados comuns a António Filipe e José Rodrigues Miguéis são Domingos Dias e Francisca Fernandes, que também viveram em Pombeiro da Beira, no lugar de Sail, em meados do século XVII. São os nonos avós de António Filipe e sextos avós de José Rodrigues Miguéis.
A ligação a António Filipe faz-se pela filha deste casal, Maria Fernandes, que casou em 1691 em São Martinho da Cortiça, com Baltazar Rodrigues. Esta linha ficou por Sail até que um neto destes últimos, Manuel Rodrigues, casou com Josefa Maria Correia — os pais de Caetana e Joaquim de Frias, que levam ao tronco Correia de Frias.
Já a ligação a José Rodrigues Miguéis vem de Domingos Dias, dito o Novo, outro filho de Domingos Dias e de Francisca Fernandes. Tal como o pai, também Domingos casa com uma Francisca (da Cunha) em São Martinho da Cortiça, em 1695. São pais de Luísa da Cunha, que casou com um membro da família Brandão, Custódio Rodrigues Brandão.
A descendência desta linha permaneceu em Sail até António Rodrigues, que aí tinha nascido em 1821, ter passado à vila de Góis. Adotou, no entanto, como apelido o nome da sua terra — Sail — dando origem à única família portuguesa, segundo os genealogistas, com este raro apelido. Um dos seus filhos, por exemplo, chamou-se Cipião Rodrigues Sail e foi vereador da Câmara Municipal de Góis.
Outros filhos de António Rodrigues Sail ficaram com o apelido Rodrigues, como foi o caso de D. Maria Adelaide Rodrigues, que casou com o galego Manuel Maria Miguéis Pombo, em 1897, na Sé de Lisboa. Foi desta união que nasceu José Rodrigues Miguéis.
O escritor é visto como um grande prosador do século XX, tendo publicado, sobretudo, contos e prosas. Mas foi também um republicano e combatente do antigo regime, sendo uma voz de esquerda que acabou por se exilar nos EUA devido ao ambiente político no país.
Nessa altura, chegou a colaborar com o PCP. Um documentário da RTP sobre o escritor revela mesmo uma carta enviada pelo dirigente comunista Júlio Fogaça a pedir a José Rodrigues Miguéis que fosse “o referente ” do PCP “junto do Partido americano” — o escritor acabou, mais tarde, por se desiludir com os partidos no geral.
É primo em 14.º grau de António Filipe.

José Rodrigues Miguéis
A árvore genealógica de António Filipe traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia mostra exatamente 62 ascendentes do comunista que se candidata à Presidência da República.
Nesta lista, há uma bisavó deixada na roda dos expostos em Abrantes, há a comum migração das zonas rurais para Lisboa, dos séculos XIX e XX, e há alguma atividade política. Nas ligações familiares de António Filipe há um Visconde, mas também dois antigos líderes do PSD, Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes, e ainda um escritor que chegou a colaborar com o PCP na primeira metade do século XX, José Rodrigues Miguéis.