O tremor de terra político resultante da captura de Nicolás Maduro pelos EUA teve epicentro na Venezuela mas será sentido em toda a América do Sul, da Argentina, de Javier Milei, aliado de Donald Trump, ao Brasil, onde o presidente Lula da Silva vai tentando manter relação amigável como o homólogo americano, defendem especialistas.

“A saída para que a crise não alastre no Brasil é o Lula se acomodar ao Trump, aliás, o presidente brasileiro já deu um sinal nesse sentido ao dizer que quer colaborar com os EUA no combate ao narcotráfico”, disse Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado, ao DN.

“Os países latino-americanos, até por uma questão de sobrevivência dos seus governos, não têm alternativa a não ser tentarem moldar as políticas externas e internas à nova realidade e isso vai minar ainda mais o direito internacional…”, continuou o académico.

“Temos um cenário que coloca qualquer um na mira, mesmo aqueles que agora se alinhem, como deve fazer Milei, porque basta a Trump dizer que há suspeita de narcoterrorismo para fazer bullying contra um estado, até porque não me parece que o presidente americano seja um grande adepto da democracia liberal ao ponto de querer substituir Maduro por um regime democraticamente aberto, o interesse são os recursos naturais”.

“Então”, prossegue Vieira, “temos aqui algo que combina o século XIX, a política das grandes potências, mas com os recursos do século XXI, com drones e afins que permitem uma guerra cirúrgica”.

Priscila Caneparo, especialista em Direito Internacional, disse na CNN Brasil que “é inegável que Maduro é ditador, que faz perseguições e que deteriora as condições dos direitos humanos da população venezuelana”. “Porém, o Direito Internacional diz que intervenção num outro país depende da autorização dos 15 países de Conselho de Segurança da ONU, o que não houve, ou então da chamada legítima defesa, mas também não existe ameaça venezuelana aos EUA, aquilo que Washington talvez alegue é que o país sendo narcoterrorista afeta o país”.

“Entretanto, quando se faz uma intervenção deste tipo tem de se ter um plano B, um governo de transição, mas aqui não houve isso, nem o Senado dos EUA sabia do ataque, logo tudo o que se está a passar lança desafios inéditos até porque é a primeira vez que há um ataque direto dos EUA na América do Sul”, completou a especialista.

“A democracia não é automática, é uma construção em várias camadas de uma sociedade, isto é só o início de uma nova fase, que vai garantir mais acesso ao petróleo venezuelano dos EUA e que vai gerar ondas migratórias”, defendeu por sua vez Regiane Bressan, professora de Relações Institucionais da Universidade Federal de São Paulo, no canal Globonews.

“O Brasil agora terá de arcar com os custos da instabilidade e de reservar mais recursos para questões humanitárias em coordenação com a Colômbia até porque os outros governos, mais à direita, vão defender de forma mais enfática os EUA”, afirmou ainda Vinícius Rodrigues Vieira. E, para o professor de Relações Internacionais e Ciência Política, até as eleições brasileiras marcadas para outubro podem ser atingidas pela crise. “Eleitoralmente, o caso pode levar a que se vote mais à direita na região de forma a evitar que Trump faça com cada país o que fez na Venezuela…”.