A Justiça dos Estados Unidos acusou Nicolás Maduro de usar os seus poderes enquanto deputado, ministro e Presidente para facilitar o transporte de “toneladas de cocaína” para os EUA, colaborando com organizações como as FARC e o Tren de Aragua e vendendo passaportes diplomáticos para ajudar o transporte de lucros do tráfico no território norte-americano.

Para além do Presidente da Venezuela, cinco outras pessoas foram acusadas no mesmo caso: a primeira-dama e deputada Cilia Flores; o filho do Presidente, conhecido como ‘Nicolasito’ Maduro; o ministro da Administração Interna e Justiça, Diosdado Cabello, e o seu o antecessor, Ramón Rodrigues; e o líder da organização narcotraficante Tren de Aragua, Hector “Niño” Guerrero.

O texto completo da acusação, promovida pelo procurador federal Jay Clayton no Estado de Nova Iorque, foi publicado pela procuradora-geral Pam Bondi na rede social X. Ali pode ler-se que, “há mais de 25 anos, os líderes da Venezuela abusam das suas posições de confiança pública e corrompem instituições outrora legítimas para importar toneladas de cocaína para os Estados Unidos”.

Ao todo, os seis arguidos são acusados de quatro crimes: conspiração para cometer narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os EUA, posse de metralhadora e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir metralhadoras e dispositivos destrutivos.

Segundo os procuradores norte-americanos, o país começou a ser “um porto seguro para traficantes de drogas” a partir de 1999. Estes traficantes, afirmam, estavam dispostos a “pagar por proteção e apoiar funcionários civis e militares corruptos venezuelanos” para escapar ao “alcance das autoridades policiais e das forças armadas colombianas, apoiadas pela assistência anti-narcóticos dos Estados Unidos”.

Na “vanguarda” desta corrupção, alegam, está Nicolás Maduro, que usou a sua “autoridade obtida ilegalmente” para apoiar e fazer parceria com “traficantes de narcóticos e grupos narcoterroristas, que enviam cocaína processada da Venezuela para os Estados Unidos através de pontos de transbordo no Caribe e na América Central, como Honduras, Guatemala e México”.

O líder capturado pelos EUA, lê-se ainda, é acusado de “participar, perpetuar e proteger uma cultura de corrupção em que as elites venezuelanas poderosas enriquecem-se através de tráfico de droga e proteção dos traficantes“. Todos os lucros deste tráfico, indicam, correrão para vários funcionários civis e militares, liderados por um grupo de oficiais militares, referidos como o “Cartel dos Sóis”.

“Nicolás Maduro, o arguido, está no topo de um Governo corrupto e ilegítimo que, durante décadas, tem usado o poder governamental para proteger e promover atividades ilegais, incluindo o tráfico de drogas”, afirmam os procuradores.

Ao todo, cinco organizações são listadas como tendo colaborado com o regime de Venezuela: as FARC e o ELN – organizações de guerrilha da Colômbia; o Cartel de Sinaloa, os Zetas – cartéis do México; e o Tren de Aragua, organização narcotraficante venezuelana.

Como notou o órgão noticioso Axios, a maioria das acusações feitas por Trump à Venezuela no passado envolviam a de ser protagonista no tráfico de fentanil para os Estados Unidos. Porém, em nenhuma das acusações listadas pelo procurador federal mencionavam o fentanil, nem a palavra surge em nenhuma parte do ficheiro.

Um dos principais abusos da “autoridade ilegal” data de antes do início da sua Presidência, assumida após a morte de Hugo Chavez, em 2013. Segundo os procuradores norte-americanos, Maduro, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros entre “aproximadamente 2006 e 2008”, terá vendido “passaportes diplomáticos a indivíduos que […] sabia serem traficantes de droga”. Tudo isto, dizem, serviria para ajudar os traficantes a “mover lucros da droga do México para a Venezuela”.

Para além disto, o então ministro facilitaria também “o transporte de aviões particulares sob cobertura diplomática para garantir que os voos não fossem inspecionados pelas autoridades policiais ou militares”, facilitando assim a transferência dos “lucros do tráfico do México para a Venezuela”.

“Nessas ocasiões, Maduro ligava para a embaixada venezuelana no México para avisar que uma missão diplomática chegaria num avião particular. Então, enquanto os traficantes se reuniam com o embaixador venezuelano no México sob os auspícios de uma missão diplomática de Maduro, o avião era carregado com o dinheiro proveniente do tráfico de drogas. O avião então retornava à Venezuela sob cobertura diplomática”, descrevem os procuradores norte-americanos.

Segundo a acusação, “entre 2004 e 2015”, o Presidente da Venezuela e a primeira-dama, Cília Flores, terão trabalhado “em conjunto para traficar cocaína, muita da qual fora intercetada previamente pelas autoridades policiais venezuelanas, com ajuda de escoltas militares armadas”.

“Durante esse período, Maduro e [Cília] Flores de Maduro mantiveram os seus próprios grupos de gangues patrocinadas pelo Estado, conhecidas como ‘coletivos’, para facilitar e proteger as suas operações de tráfico de drogas”, alegam os EUA, acrescentando que o casal “também ordenou sequestros, espancamentos e assassinatos contra aqueles que lhes deviam dinheiro do tráfico ou que de alguma forma prejudicavam as suas operações de tráfico de drogas, incluindo uma ordem de assassinato de um chefe do tráfico local em Caracas, Venezuela”.

A própria Cília Flores, acusa a justiça norte-americana, terá “participado numa reunião” em 2007 com um “traficante em larga escala” e o então líder do Gabinete Nacional Anti-Drogas, Nestor Reverol Torres. Flores é acusada de ter aceitado “centenas de milhares de dólares em subornos” para arranjar esse encontro e de receber, mais tarde, parte de um suborno pago por esse traficante ao chefe do gabinete anti-droga.

Diosdado Cabello, atual ministro da Administração Interna e da Justiça e braço-direito do Presidente, é acusado de ser um facilitador e ajudar no transporte da droga, acabando por beneficiar desse esquema, no qual terá participado até 2025.

A acusação afirma que, “entre cerca de 2003 e 2011”, Cabello “trabalhou com um grupo de traficantes de droga colombianos para despachar contentores de carga em navios porta-contentores”. Estes navios, lê-se, transportavam “cinco a seis toneladas de cocaína cada, e às vezes até 20 toneladas cada, de portos na Venezuela para portos no México e, finalmente, para os Estados Unidos”. Todo o processo era protegido por um grupo de “oficiais militares venezuelanos”, referidos como “os generais”.

Cabello terá feito várias viagens para garantir o transporte de drogas, aterrando em pistas controladas pelo ELN perto da fronteira com a Colômbia. Dessas pistas, alegam os norte-americanos, partiram vários carregamentos de droga que chegaram aos EUA.

Os procuradores mencionam ainda várias operações específicas em que Diosdado Cabello foi parte ativa. Uma delas ocorreu, “por volta de 2006”, afirmando que Cabello, então diretor da agência de espionagem militar, terá ajudado ao transporte de “mais de 5,5 toneladas de cocaína da Venezuela”, a partir do aeroporto de Maiquetia, para o México num jato DC-9” e de receber subornos para garantir que os facilitadores não fossem presos na Venezuela, após a carga ser intercetada no México.

Sete anos depois, com Maduro já na Presidência da Venezuela, Cabello terá participado no envio de 1,3 toneladas de cocaína para França a partir do mesmo Aeroporto de Maiquetia. À chegada, no aeroporto Charles de Gaulle, a droga foi intercetada pelas autoridades francesas. Este incidente levou a uma repreensão do Presidente da Venezuela a Cabello por ter usado o mesmo aeroporto do caso das drogas intercetadas no México e que “deveriam usar outras rotas e locais bem estabelecidos para enviar cocaína”.