Aos 49 anos de idade e 35 de carreira, a atriz Luana Piovani não quer espalhar por aí glórias individuais, como grande parte dos seus colegas. Sua ideia é mostrar que gente como ela, linda, loira e famosa, tropeça e leva tombos difíceis de se levantar, mas, uma vez de pé, se sente fortalecida novamente. “Se não fossem minhas quedas, não teria nem esse solo teatral para dividir tantas histórias”, diz.

O solo em questão é Cantos da Lua, espetáculo dirigido por Ando Camargo, que estreia nesta quinta, 8, no Teatro BDO Jaraguá, depois de um certo burburinho em Portugal, onde a artista vive há sete anos.

No palco, Luana, acompanhada da guitarrista Hozana Matias, oferece um misto de stand-up comedy, depoimentos pessoais e números de cabaré para, em meio a gargalhadas, promover alguma reflexão sobre sua vida e carreira.

“Me deu vontade de fazer um teatro próximo às redes sociais porque, quando compartilho experiências, fortaleço o outro”, explica. “Se alguém na plateia estiver se sentindo derrotado, enxerga chances de sobreviver já que aquilo é dito por uma pessoa que, aos olhos da sociedade, não cai na lama.”

A dramaturgia de Cantos da Lua, escrita pela protagonista e o diretor, coloca em cena de tudo um pouco. A atriz trata das relações entre mulheres e homens, que, segundo ela, se comportam como meninos mimados de 12 anos, revela ghostings enfrentados e ainda confessa uma nova questão, a dificuldade de flertar perto dos 50 anos. “Eu me acho linda, mas quando chego aos lugares não chamo mais a mesma atenção, como foi a vida inteira.”

Do passado, Luana recorda momentos em que se colocou em situações de vulnerabilidade, como pegar táxis bêbada e, na madrugada, dormir no banco de trás contando com a generosidade do motorista. “O tiozinho batia no meu ombro e avisava que tínhamos chegado ao endereço, mas hoje isso é impossível de se imaginar”, comenta.

Os bastidores da televisão são relembrados em narrativas longe do glamour. Aos 16 anos, a jovem modelo, acostumada a receber bons cachês em outros países, estreou como intérprete na minissérie Sex Appeal, escrita por Antônio Calmon em 1993, e não gostou do clima.

Luana Piovani e Marcelo Serrado ao lado de Priscila, da ‘TV Colosso’, em foto de dezembro de 1995; à época, atriz tinha 19 anos de idade.  Foto: José Cordeiro/Estadão

“Era um núcleo adolescente gigantesco e não entendia aquele frisson de estar na Globo e só pensar em um papel para a próxima novela”, conta ela, que, naquele ano, recusou o protagonismo em Olho no Olho, trama das sete, do mesmo autor.

O início de Luana Piovani

“Trabalhava de segunda a sábado, passava o domingo decorando texto, ganhava pouco e queria mais era voltar para a casa da minha mãe, em São Paulo.” Luana se queixa, mas, logo depois dessa experiência, começou a impor as suas vontades – algo que não abre mão até hoje.

No teatro, trabalhou com grandes diretores, como João Falcão e Gabriel Villela, participou de filmes dos cineastas Jorge Furtado, Bruno Barreto e Claudio Torres e, vez por outra, deu as caras em uma e outra novela, se fosse interessante paras as duas partes. “Quando eu era pequena, minha mãe me disse que, além de bonita, era inteligente, então para tudo o que quisesse deveria estudar que conseguiria.”

Tamanha autoestima moldou a personalidade da garota e se tornou um diferencial, às vezes incompreendido, entre seus colegas mais adaptados ao sistema. O fato é que até hoje Luana desperta curiosidade e polêmicas por onde passa e não é diferente em Portugal.

“Os portugueses deixaram me chamar para a televisão daqui porque entenderam o pacote que sou e se incomodaram”, diz ela, que trabalhou em novelas, séries e programas de auditório na TV local. “Luto pela causa feminina em um país que é um moedor de mulheres.”

A explicação para tanta celeuma em torno da sua figura nem ela sabe explicar. “Acho que por não vestir a fantasia que a sociedade me deu, virei um case e as pessoas têm raiva de mim porque sou diferente do que elas gostariam que fosse”, observa. “Elas queriam que eu fosse medíocre como os que não têm coragem de sair da mediocridade.”

Luana Piovani em foto de novembro de 2017. Foto: Iara Morselli/Estadão

Em meio a tanto discurso é inegável que Luana esnobou um lugar reservado no mainstream desde a década de 1990. Seja por atitudes pessoais ou opções profissionais, a atriz, desde cedo, demonstrou que não rezaria por cartilhas alheias ou se submeteria às pressões da fama. “Nunca dependi do outro e, se gritam comigo, apanho a bolsa e vou embora”, garante.

Existe, porém, um preço para ser Luana Piovani? “Claro que sim! E eu pago”, concorda a atriz. Só que mesmo assim, ela admite, que não chega a ser tão pesado – ou já teria desistido. “A minha conta sempre fecha ou mudaria a receita porque gosto de viver bem, que significa não ter que me submeter a nada que discorde”, argumenta.

Por que Luana Piovani foi para Portugal

A mudança para Portugal tem a ver com a busca de uma coerência na teoria e na prática. “Eu me incomodava com essa rotina carioca de gente famosa que pensa que está em Hollywood e aqui, em Portugal, vivo em outro padrão”, justifica. Luana mora em Cascais, balneário a 30 quilômetros de Lisboa, não tem carro e os dois filhos gêmeos, Bem e Liz, de 10 anos, estudam em escola pública, a mesma em que os filhos da sua funcionária.

O mais velho, Dom, de 13 anos, voltou a morar no Rio de Janeiro, em 2024, com o pai, o surfista Pedro Scooby, de quem a atriz se separou em 2019 depois de oito anos. “O Dom vive abafado na bolha dos abastados do Brasil e, às vezes, acho que vou perdê-lo para o mundo, mas foi uma escolha dele”, lamenta. “Penso que, depois da efervescência da adolescência, vai ficar a ética que transmiti por 11 anos, e ele e o pai têm o direito de viver essa fantasia.”

Luana Piovani e Pedro Scooby em foto tirada em fevereiro de 2018, durante evento de carnaval. Foto: Gianne Carvalho/Estadão

Luana afirma que não, não se arrepende de nada. Reconhece que é feita, inclusive, das grandes burradas que cometeu. Além da peça Cantos de Lua, ela promete aprofundar mais a intimidade na autobiografia – sem título definido – que será publicada até o fim do ano pela Editora Record. Luana titubeia e volta a afirmar que não, não se arrepende de nada, mesmo de ter namorado o ator Dado Dolabella, que trata apenas como “meu agressor”, entre 2006 e 2008. “Nós terminamos por um desgaste natural e, como era apaixonada, voltamos um pouco depois”, declara. “Foi quando ele levantou a mão para mim.”

A violência ganhou os jornais, Luana pediu medida protetiva e Dolabella, depois de desrespeitar a ordem, acabou preso temporariamente. De todos os males, a artista enxerga um ponto positivo no episódio. “Se eu não tivesse sido agredida, a luta contra a violência feminina no Brasil não teria avançado tanto”, acredita. “Eu me acho um instrumento que mostrou o quanto essa sociedade é ignorante, machista e cruel.”

Cantos da Lua. Teatro BDO Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71, centro. Sexta e sábado, 20h; domingo, 19h. R$ 200,00. Até 8 de fevereiro. Estreia nesta quinta, 8, às 20h.