Durante quase um século, um conjunto de ossos guardado em coleções científicas dos Estados Unidos foi tratado como apenas mais um exemplar de um dinossauro já conhecido. Agora, uma reanálise detalhada mostrou que aquele animal era, na verdade, algo novo.
Um estudo internacional identificou e descreveu uma nova espécie de hadrossaurídeo de grande porte, os chamados dinossauros de “bico de pato”, batizada de Ahshislesaurus wimani. O animal viveu há cerca de 75 milhões de anos, no atual noroeste do Novo México, em um período anterior ao auge de espécies icônicas como Tyrannosaurus rex e Triceratops.
A pesquisa foi conduzida por cientistas de instituições dos EUA e da Eslováquia e, segundo eles, será publicada no Bulletin of the New Mexico Museum of Natural History and Science em breve.
O fóssil que deu origem à nova espécie foi descoberto em 1916, em rochas do Cretáceo Superior da Formação Kirtland, na região conhecida como Four Corners, onde se encontram Novo México, Arizona, Utah e Colorado.
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Coletado por John B. Reeside Jr., o material foi enviado ao Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos. Em 1935, o paleontólogo Charles Gilmore descreveu os ossos e os atribuiu a um hadrossaurídeo já conhecido, Kritosaurus navajovius. Essa identificação permaneceu válida por cerca de 90 anos.
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O que mudou foi o acúmulo de novos fósseis, dados comparativos e métodos mais refinados de análise. Ao revisar o material, os pesquisadores perceberam que o espécime apresentava um conjunto de características anatômicas que não correspondia a nenhum hadrossaurídeo descrito até hoje.
O holótipo, isto é, o exemplar que serve de base para a definição da espécie, inclui um crânio incompleto, ossos cranianos isolados, como o jugal, o quadrado, o dentário e o surangular, e uma série de vértebras cervicais articuladas.

O holótipo de Ahshislesaurus wimani (NMMNHS/Divulgação)
Segundo Sebastian Dalman, autor principal do estudo, a comparação anatômica foi decisiva. “Hadrosauridae, uma família de grandes dinossauros herbívoros, esteve entre os mais abundantes dos ecossistemas terrestres do Cretáceo Superior da América do Norte por cerca de 20 milhões de anos”, disse ele em comunicado.
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A equipe comparou minuciosamente os ossos do novo exemplar com os de outros gêneros e espécies de hadrossauros, buscando diferenças consistentes. As distinções mais claras aparecem em partes do crânio. Elementos como o quadrado, o jugal e o dentário apresentam formas e proporções que não se repetem em outros dinossauros de bico de pato conhecidos.
Há também indícios de diferenças em ossos pós-cranianos, especialmente no ísquio, um osso da pelve, mas esses materiais ainda não podem ser atribuídos com total segurança à nova espécie. Para confirmar essa associação, os cientistas afirmam que serão necessários novos fósseis com ossos sobrepostos.
Para Anthony Fiorillo, diretor executivo do museu do Novo México, a ênfase no crânio é fundamental. “Como regra geral, crânios são realmente a base para identificar diferenças entre animais”, afirmou em nota. “Quando você tem um crânio e começa a notar diferenças, isso tem mais peso do que, por exemplo, encontrar um osso do dedo do pé que parece um pouco diferente.”
Além da anatomia, a equipe realizou uma análise filogenética, método que usa características físicas para reconstruir relações evolutivas entre espécies.
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Os resultados indicam que Ahshislesaurus wimani pertence ao grupo dos saurolofíneos, um ramo de hadrossaurídeos que inclui outros dinossauros de bico de pato encontrados no Novo México, no Texas e no México. Isso sugere que a região funcionou como um centro de diversificação desses animais no final do Cretáceo.
“Vaca do Cretáceo”
Segundo Steven Jasinski, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Harrisburg, “os hadrossauros às vezes são chamados, de forma pitoresca, de ‘as vacas do Cretáceo’”. “Embora essa talvez não seja uma metáfora perfeita, eles provavelmente viviam em manadas e teriam uma presença marcante”, afirmou em nota.
A comparação se dá porque, com base nos fósseis conhecidos, o dinossauro era um herbívoro de grandes proporções: podia alcançar entre 10 e 12 metros de comprimento e pesar cerca de 8 toneladas.
O corpo robusto e a boca achatada, adaptada ao corte e ao processamento de plantas, indicam que ele consumia grandes volumes de vegetação e exercia forte influência sobre o ambiente ao seu redor – assim como as vacas.
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O Ahshislesaurus viveu no que os cientistas chamam de fauna local de Hunter Wash, no noroeste do Novo México, durante o fim do Cretáceo.
Na época, a região reunia uma grande variedade de dinossauros herbívoros e carnívoros, de diferentes tamanhos e estilos de vida, além de rios, lagos e áreas úmidas habitados por peixes, anfíbios e répteis. Pterossauros sobrevoavam a paisagem, enquanto pequenos mamíferos já ocupavam nichos discretos no solo.
Assim, nesse cenário diverso, hadrossauros como o Ahshislesaurus transformavam grandes quantidades de plantas em energia disponível para o restante da cadeia alimentar.
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