A competição no setor da inteligência artificial (IA) está a sofrer uma transformação radical. A corrida já não se foca apenas em criar os modelos mais potentes, mas sim em oferecer o melhor desempenho ao menor custo possível, uma arena onde as empresas chinesas estão a ganhar uma vantagem notável.

Uma mudança na competição da IA: modelos mais baratos

Durante muito tempo, a narrativa dominante na IA girava em torno da capacidade pura: que modelo superava mais benchmarks, resolvia problemas mais complexos ou gerava as respostas mais criativas. Contudo, essa era está a dar lugar a uma nova fase, onde o custo se torna um fator decisivo para a adoção empresarial.

Esta transição representa um ponto de viragem crucial, e são sobretudo as startups chinesas que demonstram uma capacidade extraordinária para produzir modelos de IA não só potentes, mas também excecionalmente económicos.

Conforme sublinha Kai Williams na newsletter Understanding AI, o ecossistema de modelos open-source da Alibaba, conhecido como Qwen, tornou-se na “família” mais descarregada a nível mundial, de acordo com dados da Hugging Face.

A empresa chinesa alcançou um feito notável: desenvolver modelos competitivos em praticamente todas as dimensões, desde os mais compactos até aos gigantes de 235 mil milhões de parâmetros.

Adoção empresarial: o caso da Airbnb

A prova de fogo para qualquer tecnologia é a sua adoção no mundo real, e os modelos chineses já estão a passar neste teste. Em outubro, Brian Chesky, CEO da Airbnb, surpreendeu o mercado ao revelar que a sua empresa “confia muito no modelo Qwen da Alibaba” por ser rápido, económico e suficientemente poderoso para as suas necessidades.

Esta declaração é particularmente relevante, pois demonstra que uma empresa norte-americana de topo prefere utilizar um modelo chinês open-source, um facto com potencial para alterar a perceção de toda a indústria.

No entanto, Williams aponta que, apesar do interesse, muitas outras empresas ocidentais enfrentam barreiras de imagem corporativa ou de conformidade regulamentar que as impedem de adotar modelos provenientes da China.

Se o Qwen se destaca pelo volume e versatilidade, o Kimi K2 Thinking brilha noutra área: a performance pura. Este modelo posiciona-se como um dos melhores open-sources do mundo em termos de pontuação em benchmarks. A plataforma Artificial Analysis classifica-o atualmente como o modelo mais potente que não foi criado pelos gigantes OpenAI, Google ou Anthropic.

Lançamento do modelo DeepSeek e o início da reviravolta

O lançamento do DeepSeek R1 em janeiro foi o verdadeiro catalisador desta onda de inovação. Apresentado apenas quatro meses após a OpenAI anunciar o seu primeiro modelo de raciocínio, o o1, a DeepSeek introduziu uma diferença fundamental: publicou abertamente os seus parâmetros.

O impacto foi imediato: a sua aplicação superou brevemente o ChatGPT em número de downloads na App Store, as ações da Nvidia sofreram uma queda de quase 20% nos dias seguintes e as empresas chinesas apressaram-se a integrar o modelo nos seus produtos.

Os Estados Unidos não assistiram passivamente a este avanço. A OpenAI lançou os seus próprios modelos open-source, a IBM publicou os seus modelos Granite e gigantes como a Google, a Microsoft e a Nvidia também apresentaram novos modelos “semi-abertos”. Contudo, nenhum destes lançamentos conseguiu, até agora, igualar o impacto ou a performance dos principais chineses.

 

Leia também: