A China, que é um dos principais clientes e investidores da indústria petrolífera venezuelana, manifestou-se contra a operação militar norte-americana, que resultou na detenção do Presidente do país sul-americano. “A China não aceitará que nenhum país se assuma como juiz do mundo”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi. E, depois de Donald Trump ter prometido revitalizar a indústria do petróleo da Venezuela, a dureza da posição não é de estranhar se se tiver em conta o acordo entre China e Venezuela, já do início dos anos 2000, ao abrigo do qual Pequim prometeu mais de cem mil milhões de dólares em financiamento em troca do crude de Caracas.
Esse dinheiro chinês financiou obras públicas, como caminhos-de-ferro e centrais de energia, recursos que Caracas precisou para sobreviver às sanções impostas pelos EUA. Entre 2016 e 2023, segundo estimativas do American Enterprise Institute, investidores chineses injectaram mais de 2100 milhões de dólares no sector petrolífero venezuelano.
Hoje, Caracas deve mais de dez mil milhões de dólares à China, montante que será difícil de reaver se os EUA tomarem conta da indústria no país. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que os EUA iriam impedir petroleiros sancionados de entrarem ou saírem do país enquanto o Governo venezuelano não abrir a indústria controlada pelo Estado a investidores estrangeiros, o que garante a Washington uma enorme “vantagem”.
Contudo, após as sanções impostas em 2017, a Venezuela deixou de conseguir financiar a dívida e o país entrou numa recessão profunda que levou até a uma crise humanitária. Desde então, a China deixou de investir no país, apesar de continuar a receber petróleo como forma de a Venezuela repagar as dívidas.
A China ainda precisa de petróleo para alimentar o seu esforço energético. No entanto, segundo Erica Downs, investigadora no Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, em entrevista ao NYT, “quando as empresas petrolíferas chinesas se internacionalizaram nos anos 1990, os líderes do país já estavam preocupados com a segurança energética”.
Isto levou a China a fazer um “grande esforço” para diversificar e adoptar a electricidade como fonte de energia, segundo Downs, que refere também que, embora Pequim “ainda precise de petróleo”, duvida que a situação na Venezuela altere a “estratégia chinesa”.
Mas as relações entre a China e a Venezuela vão para além do petróleo. A revista Financial Times escreve que, “desde que o falecido predecessor de Maduro, Hugo Chávez, assumiu o poder em 1999, a China e a Venezuela elevaram as suas relações em 2023 para ‘uma parceria estratégica para todas as circunstâncias’”.
Nicolás Maduro com Qiu Xiaoqi no Palácio de Miraflores, em Caracas, horas antes de ter sido capturado pelas forças especiais norte-americanas
Reuters
“A investida dos EUA para ganhar controlo do país representa um aviso para Pequim, que tem cultivado relações próximas com Cuba e outros países latino-americanos. Poderá também alterar os cálculos de Pequim ao considerar qualquer movimento sobre Taiwan”, conclui o FT, notando ainda que horas antes de ter sido capturado pelas forças especiais norte-americanas, Nicolás Maduro encontrava-se com o diplomata chinês Qiu Xiaoqi, representante especial do Governo chinês para Assuntos Latino-Americanos.
Os BRICS e o sistema do petrodólar
O sistema do petrodólar, estabelecido por Henry Kissinger em 1973 com a Arábia Saudita, permite aos EUA não só dominar o mercado energético — sendo que praticamente todo o petróleo do mundo está precificado e é transaccionado em dólares —, como assegurar a hegemonia da moeda ao exportarem dólares que são usados para comprar títulos do Tesouro norte-americano, permitindo assim financiar a dívida.
Ainda no ano passado, vários analistas notaram a fragilidade do dólar face a outras divisas, após as tarifas de Donald Trump terem provocado um aumento das taxas de juro e o enfraquecimento da moeda norte-americana.
Parte desta ameaça é provocada pela ascensão da China de Xi Jinping, que, após o anúncio das tarifas de Trump, em Agosto do ano passado, pediu aos BRICS — grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que se “unissem”. Já Lula da Silva, o Presidente do Brasil, pediu a criação de uma moeda própria dos BRICS, afirmando que o seu país “não pode depender do dólar”.
Segundo várias fontes, após vários anos de especulação, este grupo de países já está a desenvolver o UNIT, um sistema de pagamento cujo objectivo é “reduzir a dependência comercial do grupo em relação ao dólar”, lê-se no jornal académico The Conversation.
Esta tentativa de contornar o sistema monetário do dólar é também acompanhada por uma crescente tendência de troca de petróleo entre países sancionados, que passa cada vez menos pelo sistema do dólar, embora, segundo o think-tank Atlantic Council, os EUA mantenham a hegemonia do mercado. A Venezuela é um deles. De acordo com a revista financeira Barron’s, à medida que novas sanções foram impostas, Caracas passou a usar o yuan chinês e o euro para transaccionar petróleo.
Apesar de estar formalmente fora da organização dos BRICS, Nicolás Maduro esteve presente numa conferência do grupo em 2024, na cidade russa de Kazan, onde se discutiu a possibilidade de um sistema monetário alternativo. Na altura, a Venezuela chegou mesmo a apresentar uma candidatura à organização, que o Brasil recusou, argumentando que Maduro foi eleito de forma fraudulenta.
Agora, numa altura em que a dívida norte-americana atinge valores históricos — mais de 38 milhões de milhões de dólares —, o petróleo da Venezuela surge como uma oportunidade estratégica para Washington. Com 303 mil milhões de barris de reservas comprovadas, avaliadas em aproximadamente 18,4 milhões de milhões de dólares (ao preço actual do petróleo), o controlo por empresas norte-americanas da indústria petrolífera venezuelana permitirá consolidar a posição do dólar e gerar receitas que podem ajudar a financiar a dívida.
Segundo o Atlantic Council, os EUA “estão a pagar mais em juros da sua dívida do que gastam em defesa”, o que torna ainda mais relevante o acesso a estas reservas para, por exemplo, aumentar gastos com defesa e colocar pressão sobre a China e a organização dos BRICS.
Caso os EUA sejam capazes de aumentar a produção de barris, tal como foi prometido pela Administração Trump, para três milhões de barris por dia — valor máximo de exportação já atingido pela indústria petrolífera venezuelana —, estariam em jogo um milhão de milhões de dólares por ano em receitas. Tudo transaccionado em dólares.