Zelensky afastou Vasyl Maliuk da liderança dos serviços secretos ucranianos, apesar de este ter comandado algumas das operações mais devastadoras contra a Rússia, num contexto de polémica interna ligada a pressões sobre órgãos anticorrupção
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afastou Vasyl Maliuk da liderança do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), uma das instituições mais influentes do país em tempo de guerra, apesar do papel central que o responsável teve em algumas das operações mais audaciosas contra a Rússia desde 2022. Para assumir interinamente o cargo, foi escolhido Yevhenii Khmara, um militar de carreira ligado às forças especiais.
Yevhenii Khmara é major-general e comandante da unidade Alfa, o braço de operações especiais da SBU, considerada uma das forças mais eficazes da Ucrânia. Integra a unidade desde 2011 e assumiu o comando em 2023, liderando missões de alto risco tanto em território ucraniano como em operações clandestinas contra alvos russos.
A Alfa tem sido particularmente ativa no uso de drones, sabotagem de infraestruturas militares e ações de eliminação seletiva, desempenhando um papel central na chamada “guerra assimétrica” de Kiev contra Moscovo. Ao nomear Khmara como chefe interino da SBU, Zelensky aposta num perfil operacional e militar, afastando-se de uma liderança mais politizada do serviço.
A nomeação foi feita por decreto presidencial, contornando temporariamente o parlamento, o que reforça o carácter urgente da decisão.
Porque foi afastado Vasyl Maliuk, apesar do seu peso
O afastamento de Vasyl Maliuk apanhou de surpresa parte das Forças Armadas e do setor da segurança. Maliuk liderava a SBU desde 2022 e foi o arquiteto de algumas das operações mais emblemáticas da guerra, incluindo a operação “Spiderweb”, que atingiu dezenas de bombardeiros estratégicos russos em bases aéreas a milhares de quilómetros da Ucrânia, através de drones escondidos em camiões de carga.
Sob a sua liderança, a SBU foi também responsável por ataques à ponte da Crimeia, operações marítimas com drones subaquáticos e ações em território russo que ultrapassaram, pela primeira vez, as capacidades convencionais do exército ucraniano.
No entanto, o seu nome ficou associado a uma polémica interna de grande dimensão: a SBU, sob comando de Maliuk, foi acusada de exercer pressão sobre órgãos anticorrupção independentes, nomeadamente o Gabinete Nacional Anticorrupção (NABU). A detenção de vários investigadores, alegadamente por ligações à Rússia, foi interpretada por organizações da sociedade civil como uma tentativa de travar investigações sensíveis que envolviam figuras próximas do poder político.
O antigo líder da SBU, Vasyl Maliuk, foi afastado do cargo pelo presidente ucraniano (Danylo Antoniuk/Anadolu via Getty Images)
Fontes políticas ucranianas indicam que Zelensky terá considerado Maliuk uma das faces da crise institucional gerada por essa ofensiva, levando o presidente a procurar distanciar-se do escândalo numa altura em que Kiev depende fortemente do apoio financeiro e político dos parceiros ocidentais.
Segundo meios de comunicação ucranianos, Maliuk recusou alinhar com interesses políticos durante uma investigação que atingiu antigos responsáveis da presidência, mantendo uma postura de neutralidade. Essa posição terá sido mal recebida no círculo presidencial, num contexto em que Zelensky procura reforçar o controlo político sobre os serviços de segurança.
Apesar de ter resistido inicialmente à sua saída, Maliuk acabou por aceitar afastar-se do cargo para evitar uma escalada institucional. O presidente garantiu, contudo, que o responsável continuará a trabalhar na SBU, concentrando-se em operações assimétricas contra a Rússia – o terreno onde é considerado mais eficaz.
Uma decisão que divide o país
A substituição de Maliuk gerou críticas públicas por parte de comandantes militares, que alertaram para o risco de enfraquecer uma das agências mais eficazes da Ucrânia em pleno conflito. Ainda assim, Zelensky avançou com a decisão, integrando-a numa remodelação mais ampla que inclui mudanças nos setores da defesa, energia e serviços de informação.
A confirmação definitiva da saída de Maliuk depende agora de uma votação no parlamento. Até lá, Yevhenii Khmara assume o comando de uma das estruturas mais sensíveis do Estado ucraniano.