No último e mais longo debate de todos, com os 11 candidatos presidenciais frente a frente, a noite abriu com a captura de Maduro e o medo de um mundo onde “não há direito”, passou pela pergunta sobre que Presidente cada um quer ser e aterrou na economia e na imigração, entre a promessa de “intervenção”, o apelo ao “árbitro equidistante” e a ideia de que Portugal “precisa de imigrantes”. No fecho, quando listaram o que faltou discutir, ficou também a fronteira, mais ou menos nítida, entre as causas de Belém e as matérias do Governo
No estúdio couberam 11 candidatos e coube também um país inteiro em miniatura, com as suas urgências e as suas tentações. O debate na RTP começou na Venezuela e terminou numa lista do que ficou por dizer, pelo meio atravessou o papel que um Presidente deve ter, a economia, a imigração, a Justiça, a Saúde. O essencial, visto de longe, foi isto: quase todos procuraram marcar a fronteira entre prudência e intervenção e entre o Presidente que arbitra e o Presidente que entra em jogo.
Sobre a Venezuela, Luís Marques Mendes abriu com a ideia de facto consumado, “concorde-se ou não, a intervenção na Venezuela já ocorreu”, e empurrou o foco para o que vem depois, “a grande questão agora” é que o futuro seja decidido “pelos venezuelanos, sem condicionamentos”. Henrique Gouveia e Melo chamou à operação “ilegítima”, repetiu que “não é um terceiro país que vai definir o regime de outro país” e apresentou-se como alguém preparado para o risco, com “conhecimentos geoestratégicos” para perceber o que Portugal pode perder. António José Seguro falou em violação da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional e preferiu o caminho da prudência, dizendo que “é preciso pedir esclarecimentos aos EUA”, agir sim mas “com prudência”. André Pestana também ficou nesta linha, descreveu a operação como “gravíssima” e afirmou que Trump “não pode achar-se no direito de invadir uma capital, raptar pessoas, matar pessoas e querer governar”.
André Ventura insistiu na palavra “ditadura” e pediu que se distinguisse “Donald Trump da Venezuela”, chamou “narcotraficante” a Maduro, disse que esta foi “a única maneira” de acabar com “a ditadura” e avisou que “isto não se acaba com cravos”. João Cotrim Figueiredo tentou segurar as duas pontas, “é possível aplaudir o derrube de um ditador sanguinário e é possível censurar a forma como foi feito”, e deixou o aviso a crescer para outros mapas — Gronelândia, Açores; fê-lo com uma frase em bifurcação, “ou admitimos e somos lacaios ou assumimos a nossa autonomia estratégica e isso implica sacrifícios”.
Catarina Martins pediu coerência e acusou a Europa de “duplo critério”, defendendo que o Direito Internacional “tem de valer do mesmo modo” quando se fala de Gaza, da Venezuela ou da Gronelândia. António Filipe chamou “vergonha” à falta de condenação portuguesa e insistiu que “o Direito Internacional não pode ser letra morta”. Jorge Pinto avisou que aceitar um ataque “nestes moldes” é dar “carta branca” para que outros líderes autoritários se sintam autorizados a repetir a fórmula, Manuel João Vieira disse que se passou “das regras do Direito internacional para a regra do ‘não há direito'” e concluiu que “isto está a ficar muito perigoso para toda a gente”. Humberto Correia leu o episódio como prova de que “o comunismo não funciona” e antecipou “uma guerra civil” e “uma guerra de sangue”, insistindo na necessidade de “salvar as vidas dos portugueses” que vivem na Venezuela.
Agora isto aquece (mas pouco)
Quando a discussão passou para as fronteiras internas, nomeadamente para geopolítica em Belém, António José Seguro definiu-se com a frase “eu venho para servir Portugal” e prometeu ser um Presidente exigente, para “mudar o que está mal e não manter tudo como está”. André Ventura recusou ser “uma jarra de enfeitar”, prometeu “intervenção” e descreveu o Presidente como alguém que deve chamar o Governo à responsabilidade para não ser “marioneta do primeiro-ministro”. Henrique Gouveia e Melo respondeu com a imagem do “árbitro equidistante”, falou em segurança e estabilidade e chamou ao sistema “cínico”, usando a Saúde como exemplo de um problema antigo. Luís Marques Mendes disse que não será “Presidente do Governo”, que não será “amigo nem adversário” e que quer dar condições para governar e resolver problemas. Cotrim Figueiredo fixou a fronteira funcional, o Presidente “tem de saber do que fala” e “deixar o Governo governar”, mas quando houver decisões prejudiciais “tem de chamar a atenção”.

Nessa zona de fronteiras apareceu também a aritmética política da esquerda. Jorge Pinto disse que não desistia, lamentou que ninguém tivesse aceitado o pacto republicano que propôs e deixou a frase para encerrar o assunto, “não será por mim que Seguro não será Presidente”, enquanto Catarina Martins e António Filipe repetiram que vão “até ao fim”. A seguir, como acontece em debates longos, houve uma disputa de pertenças e de memória que saiu do plano dos poderes e entrou no plano da identidade, Marques Mendes acusou “oportunismo” a quem evoca Sá Carneiro e disse “evocam Sá Carneiro mas eu é que privei com ele”, Cotrim respondeu que “era só o que faltava” não poder manifestar respeito por figuras da democracia e Ventura entrou na mesma discussão sobre a medição de legitimidades.
E agora aquece um pouco mais (mas ainda pouco)
A economia entrou como palavra-mãe e puxou outra palavra, imigração. Catarina Martins disse que “estamos a separar trabalhadores portugueses de trabalhadores imigrantes” e que se ataca o imigrante para não discutir “que economia temos”, uma economia de baixos salários, defendendo integração com aprendizagem da língua e a prioridade dos “salários dignos”. Seguro falou de “controlar quem entra no país, acolher bem e integrar” e assumiu o que chamou “dado adquirido”, “a nossa economia precisa de imigrantes”, ligando a saída dos jovens ao tamanho das empresas e à progressão na carreira e dizendo que “as soluções estão encontradas” mas faltam liderança e coragem. Marques Mendes foi direto, “precisamos de imigrantes porque os portugueses já não querem fazer certos trabalhos” e falou em reformas com equilíbrio, combate à burocracia e liberalização da economia.
Cotrim Figueiredo preferiu a comparação para dizer que crescer acima da média europeia pode ser pouco ambicioso, “é o mesmo que dizer que eu corro mais depressa do que uma pessoa com uma condição física qualquer”, e trouxe a Segurança Social como urgência, avisando que “se não atalharmos a tempo não vamos conseguir resolver”, chamando “vergonhosa” a quantidade de pessoas com pensões baixas. Jorge Pinto respondeu como quem fala de condições de vida, “quem nos honra a querer viver em Portugal tem de ter condições”, e disse que com essas pessoas se pode “libertar todo o nosso potencial”. António Filipe ligou imigração e emigração, pediu salários melhores e disse que as pessoas “vão e vêm para melhorar as condições de vida e não para cometer crimes”, defendendo imigração regulada e chamando “erro” à extinção do SEF. Humberto Correia ratificou que “não é possível viver sem a imigração”, mas avisou que “o povo português não pode ser absorvido por ela”, propondo escola obrigatória a partir dos três anos como ferramenta de integração.
Numa das passagens mais ásperas, Gouveia e Melo tentou prender a economia a uma ideia de credibilidade e atacou, chamou a Marques Mendes “facilitador de negócios” e atirou contra Seguro uma frase atribuída a Mário Soares, dizendo que ele “nem devia ter o respeito do seu partido”. Marques Mendes respondeu com indignação, disse que Gouveia e Melo trouxe “lama e ordinarice” e defendeu-se, “em 15 anos de advocacia nunca tive um problema, não sou facilitador de negócios, nunca fui” — “sou uma pessoa íntegra”. Já na reta final, em tema livre, Gouveia e Melo escolheu uma enumeração de projeto, “quero desenvolver um novo contrato social, uma nova economia, um Estado seguro externamente e internamente e um Estado renovado na Justiça e nas reformas”, insistindo na neutralidade partidária e na promessa de pragmatismo.
Também houve momentos em que o debate saiu do guião e entrou na imagem. André Pestana voltou aos “banqueiros”, disse que é aí que está o dinheiro para “melhorar salários” e defendeu que lucros “recorde” deviam ser “socializados”, antes de uma troca com Ventura, que o atingiu pelos sindicatos e pela “mama”. Manuel João Vieira puxou o território para o centro da mesa e prometeu uma nova cidade no interior, Vieirópolis, em Vila Velha de Ródão, e deixou a frase como um cartaz, “em Vieirópolis trabalha quem quer”, como se a geografia pudesse ser reescrita por decreto e por humor.
Agora, tema livre (mas sem aquecer)

No fim, quando lhes perguntaram o que faltou, cada um puxou do seu tema. Marques Mendes falou das comunidades portuguesas e disse ser “lamentável” não terem entrado no debate, prometendo “presidenciais abertas” no estrangeiro e insistindo na estabilidade entre presidência e Governo, com a ideia de que as legislaturas devem durar quatro anos. Cotrim apontou “cultura, crescimento e conhecimento” e lançou o prognóstico, “Ventura não tem hipótese de ganhar”, Ventura respondeu chamando-lhe “arrogante” e fechou com o lema “é preciso meter na cadeia quem tem de estar na cadeia”.
Seguro destacou Saúde e igualdade entre mulheres e homens, incluindo salários, e alertou para a violência doméstica. António Filipe trouxe o tema para o fecho e disse que os portugueses precisam “de um Presidente que se identifique com os valores do acesso” ao ensino. Jorge Pinto voltou à regionalização e à violência doméstica, juntou transição energética e cultura. Catarina Martins pediu que se cuidasse do trabalho e do salário e, “acima de tudo”, “da liberdade”. Pestana puxou pela idade da reforma e pela “dignidade” dos idosos. Manuel João imaginou um “botão” para resolver tudo. Humberto Correia trouxe as alterações climáticas e pediu “plantar mais”.
Visto à luz de um regime semipresidencial, do debate ficou uma constatação prática: muito do que foi dito pertence à área de atuação do Governo e ao dia a dia das políticas públicas, afinal em Belém é-se mais árbitro do que jogador. Que é precisamente o que será quem for eleito entre estes 11: o próximo árbitro do país.