O que está acontecendo nos Estados Unidos se parece muito com o roteiro de uma comédia distópica satírica dos anos 1990, escrita por Alan Moore e dirigida por Tim Burton, chamada “It’s the End of the World”.
No futuro em que se passava a ação de “É o Fim do Mundo”, o então distante 2026, o país que criou Hollywood vivia em tal estado de decomposição política e moral que o presidente era um bufão narcisista grotesco, tipo demente e fascistoide chamado Ronald Turd.
Na história de Moore, Turd era um tirano de chanchada, caprichoso como uma criança mimada e mau feito o pica-pau, que transformava seu país numa republiqueta de quinta –uma republiqueta com arsenal nuclear– e empurrava o planeta para uma guerra de destruição total.
A graça da história –era uma comédia, afinal– vinha do exagero dos traços monstruosos de Turd e da canalhice dos personagens que compunham sua corte, apunhalando-se uns aos outros pelas costas para melhor bajulá-lo.
Infelizmente, por problemas de produção, o filme nunca foi realizado. Depois de sondar para o papel de Turd nomes como Jack Nicholson e Robert de Niro, Burton acabou optando, de forma surpreendente, por um estreante, um milionário nova-iorquino do ramo imobiliário chamado Donald Trump.
O diretor foi muito criticado por isso. Ocorre que estava difícil fechar o orçamento até que o tal Trump despejou um caminhão de dinheiro na produção. Personalidade midiática desde sempre, o sujeito além do mais era cheio de caprichos, sendo o capricho do momento se lançar como ator de Hollywood.
Pena que o aporte de Trump tenha se revelado fraudulento, pura planilha, grana zero. Um dia o ricaço avaliou que o melhor jeito de ganhar dinheiro com aquele negócio era processar Burton e os demais produtores alegando perdas de meio bilhão de dólares. Além do mais, tinha passado o capricho.
Esse foi o triste fim de “É o Fim do Mundo”. Muita gente lamenta que a lendária película nunca tenha chegado a existir. Segundo uma crença bastante difundida, a história do mundo esteve ali, sem saber, numa bifurcação crucial – e pegou o caminho errado.
Se Donald Trump tivesse interpretado Ronald Turd em 1993, teria saciado seu afã de ser um ditador de sátira, e a sátira estaria até hoje confinada ao território da ficção, de onde nunca deveria ter saído.
Se Trump tivesse interpretado Turd –um Calígula piorado à testa da vertiginosa, da aterrorizante decadência do império norte-americano–, para que encarná-lo décadas depois na vida real?
Seria uma espécie de vacina. Se a comédia tivesse chegado primeiro, teria extraído o veneno da víbora, a peçonha do escorpião, o leite da cadela fascista. A arte triunfaria. O mundo estaria salvo.
Assim garantem os seguidores do movimento conhecido como “turdismo”. Que, como tudo mais neste texto, é inventado. Há quem chame de fake news. Eu chamo de ficção.
A diferença entre uma coisa e a outra é a mesma que existe entre mentira e verdade. De todo modo, não há muito mais que se possa fazer além, talvez, os que forem de reza, de rezar.
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