O Observador sabe que os investidores que tentaram vender as suas carteiras após a saída de Tiago Stattmiller receberam uma resposta por parte da administração da Oeno na qual era indicado que a transação não era possível, porque a empresa estava em processo de aquisição e a atravessar “várias mudanças internas”. Num email de 16 de dezembro, a Oeno avisava os clientes que tinha um novo CEO, Oliver Patterson, que teria substituído Michael Doerr no mesmo cargo, e que ia passar a ser uma subsidiária da gestora de ativos Casa del Fuego Family Office & Trust. O Observador tentou contactar os responsáveis desta empresa, sem sucesso.

Na mesma mensagem enviada aos investidores, a Oeno refere que a Casa del Fuego é uma “gestora de investimentos internacionais que gere mais de trinta mil milhões de dólares em ativos”, e que investe em áreas como “tecnologias transformadoras, luxo, hotelaria e ativos alternativos”. Da pouca informação pública que é possível recolher sobre a suposta nova dona da Oeno, há notícias sobre a compra de uma empresa norte-americana de 5G, a Digital Global Systems (DGS), em junho de 2025 por cinco mil milhões de dólares. O Observador também contactou a DGS e não obteve retorno.

Ainda no mesmo email, a Oeno reconhece que em “anos recentes” alguns clientes “nem sempre receberam o nível de serviço ou comunicação que esperavam”. A empresa dizia estar “cuidadosamente a explorar soluções digitais reguladas para que a experiência de colecionar e investir em vinho e whisky seja mais transparente, segura e acessível”.

Perante a insistência dos investidores na venda das carteiras, a administração da Oeno respondia que “no presente não existem diretores ou gerentes sénior no ativo” autorizados a tratar das operações “financeiras, contratuais ou legais”. Prometia reencaminhar o pedido internamente para ser tratado “assim que for reposta a capacidade de governança ou de tomada de decisão”, mas dizia não ser capaz de prever uma data para dar resposta aos pedidos.

Numa plataforma de avaliação de serviços, a Services Reviewed, há mais de duas centenas de avaliações à Oeno, quase todas negativas. A mais recente tem data de 3 de janeiro e foi feita pelo utilizador Fabrizio Murruni. “Claramente um esquema. Se alguém quiser entrar em contacto e avançar com uma ação legal contra estas pessoas, eu farei parte”, diz.

Os relatos de quem investiu milhares e não consegue entrar em contacto com a empresa nem recuperar o dinheiro sucedem-se na mesma plataforma. Como a alemã Sophie Zillmann que tinha na Oeno uma carteira de investimento avaliada em 15 mil euros. “Apesar das repetidas tentativas de contactar a empresa e pedir a venda do meu portefólio, a Oeno não respondeu nem fez nada”, referia a 17 de novembro na plataforma de avaliações. Contactada pelo Observador, Sophie Zillmann confirmou que desde essa data nada mudou. Não recebeu resposta aos contactos que fez nem conhece o paradeiro dos seus investimentos. Admite avançar para tribunal.

É essa também a vontade de “João”, que apresentou uma queixa através de formulário às autoridades britânicas, mas pretende juntar-se a outros possíveis lesados portugueses para levar o caso a tribunal. “Não sei muito bem como é que isto vai acabar, mas tudo indica que está perdido”, admite. Confessa ter ainda, porém, “alguma esperança de que não esteja. Ou melhor, tenho esperança de ter restado alguma coisa. Pode ser que as autoridades do Reino Unido consigam confiscar alguma coisa e ajudar-me”. Hoje, não consegue evitar o lamento. “Como é que eu fui entregar dinheiro, este valor a estas pessoas? Olhando para trás, não sei porque fiz isto. Porque é que confiei?”.