Texto originalmente publicado na newsletter Appetrecho
Apresentei um aplicativo para meus sócios recentemente e obtive três reações totalmente diferentes: o Felippe abraçou e entrou na hora; a Jade não se interessou nem um milímetro, sequer respondeu qualquer mensagem da conversa; já o Orrico foi na linha “Deus me livre desse negócio”.
Eu gosto desse app, o Retro, em muitos aspectos é tipo um Instagram de 2010. Você só compartilha fotos com seus contatos, não há contagem de seguidores, não tem hashtag, as fotos não tem legenda (mas tem comentários). Sinceramente, estou cansado do Instagram, de ver posts de pessoas que não conheço, de ver Reels insignificantes e baits de engajamento.
Acima de tudo, o Instagram me irrita porque, como a maioria dos outros apps de redes sociais, ele torna tudo muito simples pro usuário, sem fricção. E isso, em meio a todos os seus benefícios, só nos ajuda a ficarmos ainda mais grudados em nossas telas, em consumir mais conteúdo podre, em participar ainda mais dos planos de negócio de Mark Zuckerberg e outros bilionários.

Eu não culpo a Jade por não se engajar na minha sugestão, e muito menos o Orrico por não se interessar em algo que vá dar mais trabalho pra ele entender e reconstruir. A vida digital ininterrupta e fluida é cômoda, confortável – eu certamente me dou bem com ela.
Só que ausência de fricção nos priva de algo fundamentalmente humano, que passamos todos os dias em nossas vidas reais em geral sem nos dar conta: nosso esforço para superar as pequenas coisas no caminho a fim de chegarmos aonde queremos.
Mais ainda, fricções nos relembram o por que nossos caminhos são importantes: escolher ir a pé ou de bike pro trabalho em vez de pegar um Uber, telefonar pra sua mãe no aniversário dela em vez de mandar mensagem de texto, cozinhar algo em vez de pedir delivery. Não são todas as vezes que a fricção ganha, mas é importante que ela sempre esteja lá.
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A internet hoje em dia é desenhada para tirar esse tipo de agência de nós, removendo fricção onde for possível a fim de facilitar comunicação, gratificação e, claro, venda de produtos e serviços de anunciantes. Algumas das mentes mais brilhantes da engenharia moderna estão, neste exato momento, trabalhando para você passar 10 minutos a mais no Instagram.
Em um brilhante artigo (com paywall) para a The Atlantic, o chefe de tecnologia da Mozilla, Raffi Krikorian, começa assim seu argumento:
A internet de antigamente era um bazar vibrante. Era barulhenta, caótica e excêntrica. Cada clique nos levava a algum lugar novo, às vezes imprevisível, permitindo que você descobrisse curiosidades que nem sabia que procurava. A internet de hoje, no entanto, é uma concierge elegante. Pronuncia-se em declarações suaves e oferece uma experiência lisonjeira e sem atritos.
Ele continua com o chute no estômago:
Isso nos privou de algo profundamente humano: a alegria de explorar e questionar. Nós nos tornamos, voluntariamente, criaturas da gratificação instantânea.
Com as novas ferramentas de inteligência artificial generativa (que eu certamente uso também), esse tipo de coisa vai ser ainda mais turbinado, a ponto de não mais sermos responsáveis por escrever nossos emails ou compor nosso próprio currículo. Isso é péssimo.
Como empreendedor, eu entendo a beleza e a necessidade de ter produtos sem fricção, de facilitar a vida das pessoas para que nosso negócio tenha sucesso. Isso é importante. Mas como humano e consumidor, sinto que falta de algo na minha vida digital. Foi por isso que comecei um blog, tirei apps de redes sociais do meu celular, removi as cores dos ícones de apps do meu celular, passei a testar apps novos.

Alguma fricção ajuda a tornar nossas vidas mais dignas, a fazer valer a pena conquistar e pensar certas coisas. Se tudo é muito mastigado o tempo todo, o sabor do nosso esforço é diluído numa sopa de conveniências, facilidades e recompensas gratuitas que tem o potencial de nos distanciar ainda mais da intencionalidade de nossas ações e sentimentos.
“Quanto mais esses sistemas antecipam e entregam o que queremos, menos percebemos o que está faltando — ou lembramos que algum dia tivemos uma escolha em primeiro lugar”, escreveu Krikorian.
Estamos tão acostumado à facilidade e falta de atrito que sequer lembramos que, para as Big Techs, nós não somos os usuários, nós somos o produto.