Santos, Lisboa. 60 metros quadrados. Duarte Caldas
Mínimo e minimalista. O estúdio de arquitetura DC.AD transformou um duplex de 60 metros quadrados em Lisboa num apartamento em tons de cinza onde tudo foi pensado de raiz – com uma surpreendente cereja no topo.
Foi em 2019 que o projeto ficou terminado, colocando o ateliê fundado por Duarte Caldas como uma espécie de especialista em casas pequenas, a par de projetos comerciais. “Uma loja ou restaurante normalmente tem mais densidade por metro quadrado, no sentido em que todos os cantos são pensados, e nós acabamos por trazer essa experiência para a habitação, onde tudo é também planeado, da arquitetura à posição dos candeeiros”, conta o arquiteto. “Pensar em tudo acaba por ser uma mais valia neste tipo de plantas: claro que é tudo mais compacto, mas o desenho, o feito à medida, consegue otimizar o espaço.”
A disposição deste apartamento em Santos, projetado para um cliente português nos dois últimos andares de um prédio de início do século XX, permitiu desde logo separar a zona pública e privada. O piso de baixo, “anteriormente muito compartimentado”, foi transformado num open space que combina as zonas de estar e de comer, enquanto o de cima ficou reservado para o quarto, a casa de banho e o terraço.
A regra aplicada em ambos foi a mesma: áreas tão amplas quanto possível, com o máximo de funções no mínimo de espaço. Em baixo, essa divisão é feita subtilmente através da cor aplicada no tecto – branco de um lado, cinzento do outro – e das vigas em metal usadas para reforçar a estrutura, depois das demolições. Em 30 metros quadrados, combinam-se hall de entrada, sala de jantar, sala de estar e cozinha, com uma mesma estante a servir de costas do sofá e de arrumação para pratos e copos, consoante o lado de que é vista.
© Francisco Nogueira
O chão foi pintado de branco – vestígios do tempo em que Duarte Caldas viveu em Berlim, “onde o gesto é comum para trazer luz para dentro das casas” –, e no lado mais funcional, onde está a cozinha e os armários, foi escolhido um cinzento que combina com o mármore da bancada e que se estende até ao teto. É como se um longo painel corresse toda essa parede, escondendo a porta de acesso às escadas e várias zonas de arrumação: junto à porta os quadros elétricos e o termoacumulador, debaixo do vão das escadas o aspirador e outros acessórios de limpeza, e numa zona onde a parede é menos profunda “e não dava sequer para pôr um prato”, os arquitetos resolveram criar uma assimetria e abrir um dos módulos para fora, usando-o como bar. “Tudo foi meticulosamente pensado para não perder um centímetro de arrumação”, resume Duarte Caldas, e para criar um espaço “limpo, organizado, confortável e visualmente apelativo”.
© Francisco Nogueira
Na experiência do arquiteto, casas pequenas vêm muitas vezes acompanhadas de orçamentos igualmente pequenos – e esse foi também o caso aqui. “Neste apartamento não há nenhum material que seja extremamente luxuoso ou caro, porque havia essa limitação de budget”, diz. “Há, isso sim, uma ferramenta a que recorremos muitas vezes e que tem um poder interminável: a cor. Pode fazer uma diferença enorme ter peças coloridas ou até uma subtil passagem de tons muito parecidos, como fizemos aqui com o branco e o cinzento, ou com a estante salmão”, continua. “Essa utilização não é cara, é inteligente e causa um efeito grande.”
Esse efeito é ainda mais visível no piso de cima. Depois de subir as escadas integralmente pintadas de cinzento – o mesmo cinzento que, já no quarto, se estende ao chão –, descobrem-se duas portas de acrílico rosa na casa de banho. “Numa base muito neutra, um foco de cor serve sempre como um isco para a atenção”, diz Duarte Caldas. “É interessante usar a cor em momentos específicos, e aqui ela foi usada também para aproveitar a luz do terraço e criar um tom mais quente, mais rosado, quebrando um pouco a paleta da restante casa, que é mais fria.”
© Francisco Nogueira
A altura das portas foi também pensada ao milímetro. “Como esta era uma zona de sótão, reduzida e com pouca luz, o que decidimos fazer foi outra vez a leitura da totalidade do espaço, sem nenhuma compartimentação. Por isso, nada toca no tecto, o que cria uma sensação de amplitude.”
Novamente, o espaço e as funções são divididas através do mobiliário, com destaque para um armário central que, oposto ao que esconde o lavatório da casa de banho, cria até um pequeno corredor. Nesse armário foi colocado um espelho de corpo inteiro de um dos lados, não só como apoio ao closet, escondido num desvão do telhado, mas também como “velho truque para criar a ilusão de um espaço maior e com mais luz”. “Um espelho serve ainda para diluir uma coisa que não quero que seja vista”, acrescenta Duarte Caldas, explicando: “Quando aplicado numa superfície, faz com que essa superfície desapareça. Aqui, tenho um obstáculo, que é o armário, mas graças ao espelho ele não parece um volume – é antes o reflexo de outro espaço e cria até outras perspetivas do terraço, visto a partir da cama.”
© Francisco Nogueira
A cama propriamente dita foi também desenhada pelo ateliê para encaixar num nicho que já existia, com uma estrutura em degraus que cria duas mesas de cabeceira e ainda uma superfície atrás, para colocar livros e outros objetos. Por cima, já integradas, ficam as luzes de leitura; por baixo um gavetão para arrumar coisas. “Tudo branco, para se diluir e dar ênfase às portas cor de rosa”, explica Duarte, também ele vestido num conjunto de camisa e calças da mesma cor.
Neste mundo desenhado a régua e esquadro, saltam ainda à vista as tomadas e interruptores pretos, alinhados estrategicamente com os candeeiros também redondos. “É algo que não queremos esconder, mas que aproveitamos para usar de forma quase gráfica”, diz Duarte Caldas. Mais uma prova de que cada milímetro conta e pode trazer “uma nova camada de interesse”.
Dafundo, Oeiras. 77 metros quadrados. Catarina Aguilar
A janela de canto, “nada habitual”, foi o suficiente para despertar a atenção de Pablo e Catarina Aguilar. Isso e o pé direito de 3,20 metros, que “numa casa pequena dá imediatamente uma sensação de amplitude”. Estávamos em 2019 e o casal de arquitetos procurava um apartamento que pudesse remodelar. Não fizeram a coisa por menos: compraram um piso térreo na zona do Dafundo, Oeiras, e viraram-no ao contrário.
“Mudámos completamente o sentido da casa”, explica a arquiteta, referindo-se à cozinha que estava escondida ao fundo, como se fazia muito nas casas da primeira metade do século XX, e que passou a ser a porta de entrada. Mas a mudança não foi apenas uma questão de modernização da planta: de um apartamento escuro e compartimentado, o casal fez um T2 com ar de casa de férias, onde até a revista Elle veio fotografar uma produção de moda de fatos de banho.
© Manuel Manso
Para esse ar de casa de campo na cidade, contribuíram várias decisões. Primeiro, destapar o espaço exterior, onde “o anterior proprietário tinha aproveitado para construir tudo e mais alguma coisa”, e fazer um tanque quadrado, de um metro por um metro, com o som da água a correr, chão de tijoleira artesanal e uma parede de catos. Depois, abrir mais as janelas para o jardim, nalguns casos até abaixo, com portadas feitas à medida. Finalmente, e depois de decidir fechar o corredor para ganhar uma zona de arrumação logo à entrada e uma segunda casa de banho, criar um arco para fazer a passagem pela sala, com uma cortina de linho esvoaçante, da Pedroso & Osório.
Colocados ao fundo da casa, na zona mais resguardada, os dois quartos têm saída direta para o pátio e outras soluções de aproveitamento de espaço: no de casal, as mesas de cabeceira foram trocadas por um nicho na parede; no de criança, um armário de carvalho, feito à medida, serve ao mesmo tempo de roupeiro, estante e secretária. Dos quartos à cozinha amarela, todas as carpintarias foram feitas em altura, para aproveitar o pé direito e ganhar o máximo de arrumação.