A imagem de uma doente oncológica deitada no chão do Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra, na quinta-feira, por alegada falta de macas, levou a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra a anunciar neste sábado à tarde que iria abrir “um processo de averiguações, com o objectivo de apurar, com rigor e serenidade, todas as circunstâncias associadas ao caso”. Perto das 20h um novo comunicado garantia, contudo, que “a afirmação de que a doente terá permanecido deitada no chão por falta de macas não corresponde à verdade”.

E sublinha: “Em nenhum momento, a ULS de Coimbra permitiu, nem permitiria, que uma doente permanecesse no chão por inexistência de meios, seja ela doente oncológica ou não.”

No primeiro comunicado, a ULS dissera ter dito conhecimento “do relato recentemente divulgado nas redes sociais, referente a uma situação ocorrida” nas urgências. O processo de averiguações anunciado pretendia identificar “eventuais oportunidades de melhoria na organização e na experiência dos utentes”.


A situação foi relatada nas redes sociais pelo filho da utente. “Ontem, dia 8 de Janeiro de 2026, vi a minha mãe, doente oncológica em fase terminal, deitada no chão de um hospital português”, conta João Gaspar na sua conta do Facebook. “A minha mãe tem um cancro generalizado na zona abdominal. Faz quimioterapia, vive com dores constantes, tem bolsa de urina e saco para as fezes. Não consegue andar sozinha nem permanecer sentada por muito tempo.”

João Gaspar disse que na quinta-feira as dores da mãe se tornaram insuportáveis, que ligou para o 112 mas que não havia ambulâncias, que levou a mãe ao hospital no carro mas que quando chegou não havia macas. “Não havia macas disponíveis. Disseram-nos para usar uma cadeira de rodas.” Só que a mãe não aguentava estar sentada. “Sem maca e sem alternativa, deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós”, relatou.

“Só quando perceberam que aquela imagem estava a ser registada é que alguém começou a agir. Depois disso, tudo aconteceu como devia ter acontecido desde o início. Foi-lhe administrada morfina, duas vezes. Recebeu soro. Foram feitos exames. Os meios existiam”, acrescentou.

No seu primeiro comunicado, a ULS de Coimbra não se referia ao que se passara em concreto. Mas garantia que “este processo será acompanhado de forma próxima pelo Serviço de Humanização e pelo Provedor do Utente, assegurando a escuta das partes envolvidas, a análise dos procedimentos adoptados e a formulação de propostas de melhoria, sempre que tal se revele necessário”.

ULS rejeita “acusações infundadas”

Poucas horas depois apresentou a sua versão, com base “nos registos clínicos e nos testemunhos dos profissionais envolvidos”: “O enfermeiro da pré-triagem foi abordado por um familiar com pedido de uma maca.” Após avaliação da situação no local, “foi verificado que a doente se encontrava calma, orientada e capaz de se sentar, tendo sido disponibilizada uma cadeira de rodas, com apoio de um segurança”.

“A doente entrou no Serviço de Urgência sentada em cadeira de rodas, acompanhada por dois familiares, situação corroborada pelos seguranças de serviço”, prossegue o comunicado desta noite. “Durante um curto intervalo temporal, um familiar decidiu regressar ao veículo, trazer uma manta, estendê-la no chão e deitar a doente, anunciando a intenção de fotografar e divulgar imagens; um bombeiro alertou imediatamente a equipa de enfermagem de que a utente se iria deitar no chão e esta interveio de imediato, procedendo à triagem da doente.”

A ULS diz que a doente recorreu às urgências em dois momentos distintos (não dá datas) e que em ambos os episódios foi “avaliada, medicada e acompanhada clinicamente de acordo com as boas práticas e protocolos vigentes”. Por isso, “rejeita” as “acusações infundadas” que são dirigidas aos seus profissionais, lembrando que as equipas têm tido “turnos particularmente exigentes e penosos, num contexto de elevada pressão assistencial”.

No anterior comunicado afirmara que o Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra é o maior do país, “quer em volume de episódios, quer na compreensividade e diferenciação dos cuidados prestados”, acrescentando que para o acompanhamento de doentes oncológicos está prevista para este ano “a criação de uma consulta aberta no Hospital de Dia de Oncologia, destinada a reforçar o acompanhamento clínico e a resposta às necessidades destes doentes, evitando o recurso aos serviços de urgência”. Em paralelo, “será reforçado o apoio dos cuidados paliativos no domicílio, promovendo proximidade, continuidade assistencial e dignidade no cuidado”.

Notícia actualizada às 20h44 de dia 10 de Janeiro com novo comunicado da ULS