“Não quero o sucesso fake, quero bons personagens, sou um ator versátil”, me diz Kelner Macêdo, em uma conversa que se alongou por uma tarde toda, com sessão de fotos e muito café. Pessoalmente, o paraibano de 1,76m e 31 anos não se parece nem com Zé do Bode nem com Cristian Cravinhos, seus personagens mais recentes.

Com o cabelo maior do que o da série “Tremembé” e sem aquele aparato de cangaceiro de “Guerreiros do Sol”, Kelner parece mais lânguido, mais leve que seus personagens. Mais jovem também.

Ele tem uma vida incomum e uma maneira de se colocar no mundo totalmente genuína. “Nasci numa cidade pequena, numa família pobre, completamente sem recursos. E desde cedo era fascinado por filmes, novelas, televisão”. Mas Rio Tinto, na Paraíba, não tinha cinema.

“Eu juntava moedas a semana toda para alugar fitas VHS na locadora, passava o fim de semana inteiro assistindo filmes”, afirma. A maioria brasileiro, pois Kelner nunca estudou inglês. “Não tinha nada na minha cidade. Nem cinema, nem teatro, nem aula tinha direito”, conta.

“Assisti muito Mazzaropi, adoro. ‘Lisbela e o Prisioneiro’ me marcou muito, ‘Abril Despedaçado’ também”, lembra o ator, que, sendo o mais velho de quatro filhos, começou a trabalhar cedo. “Aos doze anos fui trabalhar numa padaria bem pobrezinha, de periferia”, lembra.

“Fui criado pela minha avó e sempre falava para ela que o meu destino não era aquele. Não tinha ideia do que queria fazer, só sabia que ficar em Rio Tinto ia acabar comigo”.


Na hora do vestibular, optou pela psicologia. A faculdade era em João Pessoa, o primeiro passo já estava dado. “E me empenhei muito no curso, sou estudioso, quase obsessivo mesmo”, conta. Todo trabalho que tinha para apresentar, Kelner transformava em uma peça.


“Um dia, uma professora me disse: ‘é muito legal o trabalho que você faz aqui, você traz ótimas discussões, mas você é um ator, né?’”, lembra. “Fiquei com aquilo na cabeça e me matriculei em um curso de férias, de teatro. Aí, pronto”.

Deixou a psicologia e foi estudar teatro na Universidade Federal da Paraíba. “Olha, foi tão incrível, como se eu tivesse dito sim para a vida pela primeira vez, e a vida tivesse dito sim para mim também”. “Eu era virgem de tudo, fui sendo deflorado pela existência”, conta. “Quando fiz meu primeiro teste, nunca tinha nem ouvido falar de teste. Mas fiz e passei, era para filmar um curta no sertão, minha primeira experiência como ator”.


Um trabalho levou a outro, até que, em 2015, foi escolhido entre 300 outros atores para viver Elias, o protagonista do filme “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano, que se passa em uma comunidade LGBT no centro de São Paulo.

Elias é um menino do Nordeste que vive só em São Paulo e trabalha em uma confecção de roupas no centro. À noite, vai a bares e boates gays em busca de outros homens. “Corpo Elétrico” foi lançado em 2017, depois de ser exibido em vários festivais e ganhar diversos prêmios, entre eles o de Filme do Ano pela Associação de Críticos de Arte, o badalado APCA.


“Era isso que faltava para eu ter coragem de dizer: ‘sou ator’”, conta Kelner, que nunca cogitou esconder sua sexualidade para conquistar papeis de galã. “Negar isso era negar a minha existência. Eu prefiro ser livre a ter uma carreira construída em cima de uma mentira”.

Kelner é um homem gay. “Sempre tive consciência disso, mas tenho muita abertura para a vida, sabe? Já fui muito surpreendido pelo desejo. Então não descarto nenhuma possibilidade, posso me envolver com um homem, com uma mulher, com uma pessoa trans. O amanhã é outra história”. No momento ele está solteiro, na pista. “Solteiro e vivendo”, provoca.


A abertura total em relação à sua sexualidade não veio sem custos. “Se dissesse que sou hétero, com certeza já teria protagonizado uma novela”, afirma, sem amargura. “Mas faço muita questão de ser feliz. Nunca vou passar por cima de mim mesmo para chegar a algum lugar de poder”.


Entre “Corpo Elétrico” e os dois sucessos do ano passado, Kelner alternou períodos de muito trabalho com muita rejeição. “Ouvi todos os nãos e todas as explicações porque eu não servia para um personagem. Ouvi até que era bonito demais para ser nordestino”, conta.

Quando foi chamado para fazer o teste para “Tremembé”, o personagem pensado para ele era o Luka, que acabou sendo interpretado por João Pedro Mariano, um prisioneiro gay com quem Cristian Cravinhos tem um romance.


“Eles queriam um cara mais jovem para o Luka mas gostaram de mim e pediram para eu testar para o Cristian. Me deu um frio na barriga, o Cristian Cravinhos, né? Mas fui lá, fiz o teste, adoraram. Aí precisava aprender a falar com sotaque de paulista”.


Foi ouvindo podcasts que Kelner adaptou seu jeito de falar até conseguir fazer de novo o teste, desta vez sem sotaque da Paraíba. Deu no que deu. “Outro dia fui no sacolão que vou sempre, atrás da minha casa, ficou todo mundo me olhando. Aí na hora de pagar o cara do caixa falou, ‘cara, é você, né? De Tremembé?’, eu confirmei e todo mundo começou a aplaudir”.

Kelner já está confirmado na segunda temporada da série da Amazon Prime, que ainda não tem data de estreia. “O Cristian foi um dos últimos a irem pro regime semi-aberto porque foi preso numa saidinha e pegou mais quatro anos”, conta. Daqui para frente, o ator paraibano quer viver personagens mais complexos e diversos. E, por que não, protagonizar uma novela. Mas sem nada a esconder.

“Quero um mundo mais possível para quem vem depois de mim. Para a bichinha que está lá no interior e acha que não tem saída, que não tem nenhuma outra pessoa como ele em outro lugar”, diz. Kelner Macêdo quer ser a prova de que é possível mudar um destino insistindo num sonho, mesmo com os mil obstáculos do mundo.

com IVAN FINOTTI (INTERINO), DIEGO ALEJANDRO, KARINA MATIAS e VICTÓRIA CÓCOLO