Primeiro, os ataques violentos do almirante. Depois, as sondagens diárias que apontam para uma queda inesperada. Por fim, a sucessão de casos sobre o socorro do INEM, que puseram o Governo debaixo de fogo. As notícias que “tentam desanimar” a sua campanha e atingem o Governo e a coligação que o apoiam não têm ajudado à definição da estratégia de Luís Marques Mendes, que se viu obrigado a fazer ajustes e a corrigir o discurso em várias frentes. A semana foi passada a tentar encontrar o tom certo para mobilizar o eleitorado da AD, sendo preciso, em simultâneo, garantir que não será apenas o Presidente “amigo” do Governo.
A campanha vai desvalorizando os resultados da tracking poll da CNN/TVI, que coloca Mendes em quinto lugar, atrás de João Cotrim Figueiredo, lembrando o desfasamento entre as previsões que o mesmo estudo fez nas eleições legislativas de 2022 e a surpreendente maioria absoluta de António Costa. Mas qualquer sondagem negativa tem, naturalmente, um impacto anímico — além de obrigar a ajustes no discurso, seja para apontar ao liberal, agora seu maior adversário na passagem à segunda volta, seja para se referir com equilíbrio ao Governo, desmentindo a ideia de estar completamente “colado” a Luís Montenegro.
Na campanha assume-se que a ideia é afinar o discurso para destacar as reformas concretas que o candidato à Presidência quer defender, devolvendo-lhe um tom presidencial, “moderado” e sem se confundir com quem quer discutir o “acessório”. O que pode representar uma tentativa de corrigir o tiro, depois de nos últimos dias Mendes ter aparecido nas televisões em trocas de acusações duras com os principais rivais, que o foram acusando de estar colado ao Governo (Ventura e Gouveia e Melo) ou de nem sequer ser o candidato que mais favorece o Executivo de Luís Montegro (Cotrim).
O discurso em relação ao liberal é o que tem sofrido mais alterações: como o Observador escrevia, a campanha começou convicta de que Cotrim, pelo estilo e tom do discurso que estava a adotar, competiria sobretudo na pista de André Ventura; com o liberal a crescer nas sondagens, a equipa começou por acreditar que conviria evitar ataques diretos, focando-se em argumentos que mobilizassem o eleitorado da AD pela positiva; mas acabou mesmo por entrar em confronto direto, com Mendes a classificar como “ridícula” a ideia de Cotrim, em plena luta pelo eleitorado da AD, ter enviado uma carta a Montenegro.
Foi no sexto dia de campanha eleitoral, o terceiro consecutivo em que aparecia atrás de Cotrim, que Luís Marques Mendes calçou as luvas de boxe. Literalmente. Num centro de dia em Cascais, o candidato juntou-se a uma prática de boxe dos idosos e fez as delícias dos fotojornalistas e das câmaras de televisão, trocando uns socos amigáveis com o autarca Nuno Piteira Lopes. À saída, tentaria deixar Cotrim Figueiredo em KO, acusando o rival de ser um “catavento”.
Não lhe correu particularmente bem. Na resposta, Cotrim recordou que o mesmo Mendes tinha chamado catavento a Pedro Passos Coelho, por quem toda a gente à direita suspira nesta campanha. Horas depois, já à noite, Mendes voltou a guardar as luvas de boxe e tentou focar a estratégia: esquecer a trica política e inspirar-se em François Mitterrand para prometer uma liderança “tranquila”.