Como o integrante mais jovem da formação original do Grateful Dead, Bob Weir era frequentemente rotulado como o garoto viajandão tentando acompanhar seus veteranos mais experientes, especialmente o guitarrista Jerry Garcia e o baixista Phil Lesh. Mas, com o passar dos anos, Weir provou que era muito mais do que apenas o guitarrista base de rabo de cavalo.

Tão devotado às canções narrativas de cowboy quanto a melodias sinuosas e cheias de desvios, Weir, que morreu aos 78 anos, era uma alma criativamente inquieta que ajudou a dar corpo à música do Dead de múltiplas maneiras.

O músico americano Bob Weir, membro fundador da banda "Grateful Dead", faleceu aos 78 anos — Foto: SUZANNE CORDEIRO / AFP O músico americano Bob Weir, membro fundador da banda “Grateful Dead”, faleceu aos 78 anos — Foto: SUZANNE CORDEIRO / AFP

Aqui estão 10 de suas performances mais notáveis, com e sem o Dead.

Grateful Dead, ‘Sugar Magnolia’ (1970)

Weir já havia cantado como vocalista principal no Dead antes disso, inclusive em “Born Cross-Eyed”, de 1968. Mas foi essa ode efusiva à sua então companheira, Frankie Weir, que marcou o momento em que ele realmente se afirmou dentro da banda. Tocada com uma energia galopante e cantada com tamanha sinceridade que evocava uma felicidade inocente, tingida de tie-dye, “Sugar Magnolia” também mostrou a rusticidade que Weir podia trazer ao som do Dead.

Grateful Dead, ‘Truckin’ (1970)

Com letra de Robert Hunter e música escrita por Garcia, Weir e Lesh, o shuffle escorregadio “Truckin” foi um esforço coletivo em todos os sentidos. Os versos de Hunter levam o ouvinte a um passeio por várias desventuras do Dead, incluindo uma batida policial em Nova Orleans, mas é a interpretação incrédula de Weir nas estrofes — navegando por dísticos difíceis como “Arrows of neon and flashing marquees out on Main Street” — que funciona como a cola que mantém a canção unida.

Grateful Dead, ‘The other one’ (1971)

Uma das primeiras vitrines da voz de Weir, “The other one” era originalmente parte da espiralada e multipartida “That’s It for the Other One”, do álbum “Anthem of the Sun”, de 1968. A letra — uma das poucas que Weir escreveu para o Dead — também oferecia um vislumbre de sua vida inicial com a banda, desde o contato com os Merry Pranksters até jogar um balão de água em um policial. Desmembrada como faixa independente (como se ouve no álbum ao vivo “Grateful Dead”, de 1971), “The other one” também provou que Weir conseguia se adaptar às melodias mais tortuosas que faziam parte do repertório do Dead.

Cada integrante do Dead levava para o grupo uma paixão musical diferente; entre as de Weir estava o amor pela música country e pelas canções de cowboy. Em seu primeiro álbum solo, “Ace”, ele e seu amigo e letrista de longa data John Perry Barlow tentaram criar sua própria balada solitária e pungente — com resultados magníficos. Uma das canções mais emocionais e despudoradamente vulneráveis de todo o catálogo de Weir ou do Dead, “Looks like rain” é majestosa como o topo de uma montanha.

Grateful Dead, ‘Playing in the band’ (1972)

Colaboração entre Weir, Hunter e o baterista Mickey Hart, esse clássico do Dead colocou em destaque a voz carregada de tensão de Weir; aqui, ele soa verdadeiramente no comando da banda. Em versões ao vivo, como a registrada em “Europe ’72”, a música também ilumina a interação singular entre os solos em espiral de Garcia e a abordagem radical e nada convencional de Weir à guitarra, que dispensava padrões rítmicos tradicionais em favor de partes mais truncadas e imprevisíveis.

Grateful Dead, ‘The music never stopped’ (1975)

Com as guitarras de Weir e Garcia perfeitamente encaixadas, esse boogie funkeado do álbum “Blues for Allah” acabou se tornando a contribuição involuntária do Dead ao subgênero sulista e bluesy conhecido como swamp rock. Qualquer outro cantor entoaria o elogio de Barlow ao poder da música (“Keep on dancing through to daylight / Greet the morning air with song”) com ironia, mas o canto totalmente sem malícia de Weir está em absoluta sintonia com suas contribuições à banda.

Kingfish, ‘Lazy Lightnin’ (1976)

Weir tocou essa música com o Dead muitas vezes, mas a primeira versão — gravada com a banda Kingfish durante o hiato do Dead em meados dos anos 1970 — evidencia o grito flexível de sua voz e as mudanças de acordes cada vez mais pouco convencionais em suas composições.

Grateful Dead, ‘Estimated Prophet’ (1977)

O narrador dessa canção liderada por Weir em “Terrapin Station” é um profeta ou um louco? Weir a canta de maneira tão severa e inabalável que é difícil dizer, e a mistura de prog e reggae da banda ao fundo só aprofunda o mistério e o fascínio da faixa. A performance do Dead no lendário show da Universidade Cornell, em 1977, também é obrigatória.

Grateful Dead, ‘Hell in a Bucket’ (1987)

O rock mais debochado que Weir já encarou, com o Dead ou com qualquer outro, “Hell in a Bucket” é uma espécie de inferno em si mesmo, repleto de motoqueiros, términos e ressentimento (“There may come a day, I will dance on your grave / If unable to dance, I will crawl across it”). Deixando de lado sua voz de baladas, Weir respondeu a essas letras com um rosnado deliciosamente indignado.

Se em algumas de suas canções mais antigas Weir evocava jovens peões de rancho, “Only a River” soa como uma canção de ninar para um cowboy calejado em sua última condução de gado. Faixa de abertura de “Blue Mountain”, seu último álbum solo de estúdio, ela permanece como uma de suas músicas mais evocativas.