Em um ponto, os cientistas concordam: “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh (1853-1890) é uma obra icônica. Seus redemoinhos e espirais hipnotizantes capturam a imaginação.

Mas eles de fato lembram o real fenômeno físico da turbulência? Quando pintou a cena, o artista holandês estaria canalizando a mecânica dos fluidos que faz a fumaça de uma chaminé se enrolar caoticamente ou os redemoinhos que se formam em rios de correnteza rápida? Aí, começa um intenso debate.

Em 2024, pesquisadores da China e da França disseram em um estudo publicado na revista Physics of Fluids ter detectadoturbulência, um fenômeno físico complexo, na escala complexa das pinceladas de Van Gogh. O artigo, assinado por seis cientistas, contribuiu para uma discussão de anos que vinha e voltava nas páginas de periódicos de física.

James Riley, professor emérito de engenharia mecânica da Universidade de Washington (Estados Unidos), soube da história quando sua filha lhe enviou uma notícia sobre o artigo científico.

“Parecia meio estranho”, disse Riley, que obteve seu diploma de pós-graduação com Stanley Corrsin, especialista em mecânica dos fluidos que fez importantes contribuições para a compreensão da turbulência. “Baixei o artigo, li e percebi que era um absurdo, simplesmente um absurdo.”

Desde então, Riley e outros cientistas publicaram três textos refutando a argumentação do artigo de 2024, com um tom duro nem sempre visto em trabalhos científicos.

“As alegações dos autores normalmente seriam rejeitadas imediatamente por pesquisadores de fluxos turbulentos”, escreveram Riley e Mohamed Gad-el-Hak, especialista em mecânica de fluidos da Universidade Commonwealth da Virgínia, em um artigo que saiu em 2025 no periódico Journal of Turbulence.

A disputa mostra a ciência em ação. Contrariando a ideia de que a ciência é um conjunto de fatos estáticos em um livro criado por especialistas imparciais, trata-se de um processo humano. Existem descobertas e conclusões, mas a ciência em si é um método para interrogar o mundo, sujeito às limitações das técnicas utilizadas. Desacordos são comuns, e o conhecimento é refinado ao longo do tempo.

“Publiquei diversos artigos nos últimos 30 anos, mas nunca encontrei tanta animosidade de colegas (este é o terceiro artigo deles nos criticando em termos tão duros!)”, escreveu em um email François Schmitt, físico do Centro Nacional Francês para Pesquisa Científica e um dos autores do artigo de 2024. “Desacordos fazem parte do método científico e do mundo acadêmico. Por que tanta agressividade? Normalmente, se discordamos, discutimos isso em um artigo bem argumentado, sem agressão.”

Turbulência sobre turbulência

O fluxo turbulento é caótico. Apesar de surgir constantemente na natureza, é considerado um dos problemas mais difíceis da física. Ele conecta o movimento dos fluidos em uma ampla gama de tamanhos, desde redemoinhos de grande escala até os menores.

Para encontrar turbulência em “A Noite Estrelada”, Schmitt e colegas começaram analisando as pinceladas individuais em cada um dos 14 vórtices do céu noturno da pintura. Eles descobriram que as pinceladas seguiam uma lei de escala proposta na década de 1940 pelo matemático soviético Andrei N. Kolmogorov (1903-1987) e mais tarde ampliada por dois cientistas, entre os quais Stanley Corrsin, orientador de pós-graduação de Riley.

Diversos veículos publicaram reportagens sobre o artigo científico de 2024. O nível de publicidade, segundo Riley, tornou essencial tentar corrigir o registro.

Uma das análises posteriores, publicada em agosto de 2025 em Bulletin of the American Meteorological Society, utilizou técnicas semelhantes para analisar uma pintura diferente: “Uma Mulher Sentada ao Lado de um Vaso de Flores”. Esses cientistas encontraram os mesmos padrões matemáticos na pintura do francês Edgar Degas (1834-1917) que poucas pessoas, se é que alguma, descreveriam como turbulenta, emocional ou cientificamente.

O fato de uma pintura satisfazer um critério matemático para turbulência não é suficiente para declará-la como turbulência, argumentaram os autores desse artigo. “A pintura não se parece com qualquer processo atmosférico que ocorre naturalmente, muito menos um turbulento”, escreveu um revisor anônimo sobre “A Noite Estrelada”.

Em uma declaração escrita, Yongxiang Huang, da Universidade de Xiamen (China), um dos autores da pesquisa de 2024, respondeu: “Devemos apontar uma distinção crítica em relação ao tema: flores não são nuvens. Encontrar um resultado espectral específico em uma imagem pintada de flores não tem relação com nosso estudo de padrões de fluxo atmosférico turbulento em nuvens”.

Riley argumentou no periódico Journal of Turbulence que toda a análise envolveu uma aplicação incorreta da teoria sobre turbulência. Em uma entrevista, ele defendeu que o artigo de 2024 deveria ser retratado.

No terceiro texto, um comentário publicado em dezembro de 2025 na revista Physics of Fluids, Riley e mais três cientistas se uniram para argumentar que as conclusões do artigo de 2024 são infundadas.

Em um artigo de resposta ainda não publicado, Huang e sua equipe escreveram: “Reconhecemos plenamente que a pintura é uma obra de arte, não um experimento científico. Nossa intenção nunca foi diminuir seu valor artístico, mas sim demonstrar que, por meio de uma análise rigorosa e contrariamente às afirmações anteriores na literatura acadêmica, a lei de escala de Kolmogorov-Obukhov-Corrsin pode de fato ser observada, mesmo que apenas em uma faixa restrita de escalas”.

Toda essa disputa provavelmente pouco importa para a maioria das pessoas que contemplam “A Noite Estrelada”. Van Gogh era um artista, não um matemático tentando representar com tinta a óleo uma teoria estatística que só surgiu meio século depois de sua morte. Mas a questão pode não estar completamente resolvida.

O físico José Luis Aragón, da Universidade Nacional Autônoma do México, foi autor de um artigo anterior que encontrou evidências de turbulência em “A Noite Estrelada”. Ele disse ter sido persuadido pelas críticas ao artigo de 2024 porque o trabalho, a seu ver, tem um erro conceitual fundamental: “Eles tratam uma pintura como se possuísse a realidade física de um fluxo fluido. Ao identificarem e analisarem ‘redemoinhos’ em uma imagem estática, eles implicitamente assumem um sistema físico onde nenhum existe”.

No entanto, ele observou que sua própria análise encontrou turbulência ao examinar o brilho das pinceladas, usando-o como uma analogia para velocidade. Seu artigo examinou flutuações nas mudanças de brilho entre pixels.

“A luminância contém assinaturas estatísticas reminiscentes de turbulência”, disse Aragón. “E que, portanto, transmitem a essência do movimento turbulento com um realismo impressionante.”