Acabou-se a especulação e o desenvolvimento isolado em Cupertino. A Apple e a Google anunciaram, esta segunda-feira, uma colaboração oficial para integrar a tecnologia da gigante das pesquisas no ecossistema do iPhone. O objectivo é potenciar as funcionalidades de inteligência artificial (IA) que têm sofrido atrasos, incluindo a tão prometida renovação da assistente virtual Siri.

Segundo um comunicado conjunto das duas empresas, citado inicialmente pela CNBC, a infra-estrutura de IA da Apple passará a basear-se nos modelos Gemini e na tecnologia de nuvem da Google. Esta foi a solução encontrada para viabilizar as funcionalidades da “Apple Intelligence” e garantir que uma Siri mais personalizada e capaz chegue aos utilizadores ainda este ano.

A decisão representa uma mudança estratégica significativa. A Apple, conhecida por controlar verticalmente toda a tecnologia dos produtos, admitiu na nota de imprensa que, “após uma avaliação cuidadosa”, determinou que a tecnologia da Google fornecia a base “mais capaz” para os seus modelos de fundação.

Atrasos e “bugs” forçam parceria

Para perceber a importância deste acordo, é preciso olhar para os bastidores. A Siri, lançada originalmente em 2011, acumulou o que os especialistas em engenharia de software chamam de “dívida técnica”. O código antigo e as limitações na infra-estrutura dificultavam a implementação de capacidades de conversação fluida semelhantes às do ChatGPT.

A Apple tentou resolver o problema “dentro de portas”. Contudo, relatos de erros constantes e uma fase de desenvolvimento descrita internamente como “feia” forçaram a tecnológica a procurar ajuda externa. No comunicado, a Apple justifica a escolha afirmando que, “após avaliação cuidadosa”, a tecnologia da Google provou ser a base “mais capaz” para os modelos de fundação da marca.

Mudança de guarda na liderança

A confirmação do acordo coincide com uma reestruturação profunda na hierarquia da empresa. A estratégia de IA da Apple, até agora marcada por um secretismo que muitos analistas consideraram prejudicial, custou o lugar a John Giannandrea. O executivo, que liderava a divisão de aprendizagem automática desde 2018, deixou o cargo, sendo substituído por Amar Subramanya.

A escolha de Subramanya não é inocente: trata-se de um veterano com currículo firmado precisamente na Google e na Microsoft. A missão do novo vice-presidente será integrar a tecnologia Gemini sem comprometer a promessa sagrada da Apple: a privacidade. O comunicado assegura que, apesar de o motor ser Google, o processamento continuará a respeitar os padrões de Private Cloud Compute da Apple.

O mercado financeiro reagiu de imediato. As acções da Alphabet (a empresa-mãe da Google) subiram cerca de 1%, levando a tecnológica a tocar na marca dos 4 biliões de dólares (trillion, na escala anglo-saxónica) de capitalização de mercado, juntando-se a um clube restrito onde já habitam a Nvidia, a Microsoft e a própria Apple.

Uma aliança sob o olhar da justiça

Fica por esclarecer como é que este abraço entre gigantes será visto pelos reguladores. É irónico que a salvação da Siri venha da mesma empresa que o Departamento de Justiça dos EUA e o juiz Amit Mehta classificaram como monopolista nas pesquisas online.

Enquanto o tribunal discute medidas para limitar o domínio da Google na pesquisa, esta nova parceria em inteligência artificial generativa pode abrir uma nova frente de batalha legal. Os valores que Apple vai pagar para ter “inteligência” da Google na Siri não foram revelados, mas, em Novembro, um artigo da Bloomberg apontava para cerca de mil milhões de dólares anuais. Resta saber se esta concentração de poder passará no crivo das autoridades da concorrência.

Texto actualizado às 21h35. O artigo indicava que a Apple já pagava à Google para integrar o motor de busca desta empresa no iPhone. Na verdade, passa-se o inverso: é a Google que paga à Apple pela integração da pesquisa Google no iPhone.