Uma equipa do Instituto Português de Oncologia de Coimbra apresentou, num simpósio sobre exercício físico e cancro em 2019, uma análise de um caso clínico — uma doente de 45 anos com cancro na mama tinha registado um grau de fadiga muito mais baixo após aumentar a carga de atividade física. A mulher já tinha sido submetida a quimioterapia e a uma mastectomia, foram registadas metástases cerebrais e fez radioterapia. Nessa altura, passou de fazer uma caminhada de quatro quilómetros por semana para uma de 12, conjugada com reforço muscular dos membros superiores.
As conclusões não foram surpreendentes, já que vários estudos apontam para o mesmo: o exercício ajuda doentes oncológicos a controlar a fadiga física, um dos efeitos adversos mais relatados por estes pacientes.
Carla Malveiro é fisiologista do exercício e coordenadora de programas de exercício na Fundação Champalimaud, onde acompanha doentes oncológicos em várias fases. Há quem chegue logo após o diagnóstico, mas também há pacientes que começam a prática de exercício físico já perto do fim do tratamento ou já depois de o terminar. E apesar de haver diferenças nos resultados, os benefícios existem em qualquer fase. O principal, garante a fisiologista do exercício, é a “melhoria da qualidade de vida”.
Quais são os benefícios da prática física durante tratamento oncológico?
“Há uma forte evidência científica relativamente à questão da fadiga”, sublinha Carla Malveiro, mas não é só esse sintoma que sofre melhorias.
A prática de exercício físico “previne a perda de massa muscular”, muito comum durante os tratamentos oncológicos. Essa perda é particularmente negativa já que “a massa muscular liberta mioquinas”, proteínas “que têm uma efeito anti-inflamatório, muito importantes para inibir a progressão e crescimento do tumor” — menos exercício físico e menos massa muscular implicam uma menor produção destas proteínas.
“Saiu há pouco tempo um estudo muito importante”, diz a fisiologista do exercício, referindo-se a um artigo científico publicado no início de junho no The New England Journal of Medicine.
Através de uma amostra de 889 doentes, divididos em dois grupos — um que fazia exercício, outro de controlo — e acompanhados ao longo de vários anos, foi possível perceber que “o exercício poderá mesmo ter impacto no prognóstico”, ou seja, fazer mais exercício pode fazer com que haja menos recidivas e “aumentar a taxa de sobrevivência”.
Além disso, “há também um grande impacto ao nível da saúde cardiovascular”, já que alguns tratamentos, como a quimioterapia, podem provocar toxicidades cardíacas e “o exercício físico acaba por ajudar nessa componente, ao melhorar a componente cardiorrespiratória”, explica Carla Malveiro.
Quais os principais desafios?
Logo após o início da prática física, o doente começa a ver melhorias, a ter mais mobilidade e funcionalidade em muitos casos. Mas começar é difícil, e a fisiologista do exercício da Fundação Champalimaud diz que, para o doente, nota que “o mais desafiante é não se deixar levar pelo ciclo da fadiga”.
“As pessoas pensam: ‘Estou tão cansado e ainda vou fazer exercício físico? Depois não me mexo’”, descreve, garantindo que “é precisamente o contrário”.
Para os próprios fisiologistas do exercício é complicado explicar aos doentes que “a fadiga associada à doença oncológica e aos tratamentos nada tem a ver com a fadiga do exercício”. O que acontece realmente é um “boost” que leva a ter “mais vontade para fazer atividades no dia-a-dia”.
Mas entre os pacientes e o exercício físico, por vezes, há um obstáculo: “Alguns profissionais de saúde não estão sensibilizados para a importância do exercício físico”. E muitas vezes é “mais fácil dizer para as pessoas irem caminhar”. Essa prescrição não está errada, as caminhadas “são melhores do que nada”, mas não são suficientes.
Como se adapta o tipo de exercício a cada doente?
Carla Malveiro aponta o “ajuste” do plano de treino às necessidades específicas de cada doente como uma das dificuldades do trabalho. “É diferente fazer um treino para uma pessoa a fazer quimioterapia para um cancro do pâncreas e outra para cancro da mama” porque tanto os sintomas associados como a intensidade dos tratamentos são díspares.
As diferenças são sobretudo ao nível da intensidade da prática física: uma pessoa numa fase já bastante avançada dos tratamentos não conseguirá suportar o mesmo exercício do que alguém que acabou de receber o diagnóstico.
A fisiologista do exercício dá um exemplo: no caso de uma pessoa que tenha cancro da mama, nota-se largas diferenças entre quem começa a fazer atividade física logo a seguir ao diagnóstico e quem só começa mais tarde, “há muito mais mobilidade no braço e a recuperação é melhor”.
Independentemente do estado, há uma linha comum a quase todos os treinos: unem a componente cardiorrespiratória ao reforço muscular. Mas se o doente tiver, por exemplo, metástases ósseas, “é preciso ter muito cuidado com o tipo de carga e com a localização das metástases, temos que adaptar o treino sabendo que exercícios com mais impacto podem causar risco de fratura”. É um processo “contínuo de adaptação”, explica Carla Malveiro.
E importa não pensar apenas no “foro oncológico”, sublinha a fisiologista. Deve olhar-se para o doente como um todo, perceber que impacto tem em todas as componentes o tipo de tratamento que está a fazer, desde a aptidão cardiorrespiratória, à força muscular ou mobilidade.
Para além da prescrição e acompanhamento de um plano de treino, grande parte do trabalho é “dar confiança àquela pessoa para que ela acredite que é capaz”. “A parte psicológica” é muito importante, explica Carla Malveiro, até porque, não raras vezes, pessoas diagnosticadas com cancro desenvolvem depressão ou ansiedade.
Onde é que um doente oncológico pode procurar profissionais de exercício físico?
Há pouca infraestrutura, “não há muitos espaços específicos” com pessoas qualificadas para acompanhar doentes oncológicos. Mas Carla Malveiro vê uma evolução positiva: “Cada vez mais há sensibilidade por parte das faculdades e entidades de formação para munir os profissionais de exercício de ferramentas” que lhes permitam construir planos de treino específicos para pacientes oncológicos.
Na Fundação Champalimaud, onde a fisiologista do exercício trabalha, há um ginásio que recebe pacientes com diferentes tumores, noutros hospitais há serviços disponíveis, mas muitas vezes estão inseridos em projetos de investigação e há clínicas que também têm acompanhamento físico a doentes oncológicos. Mas o mais comum é “ter de ser a própria pessoa a perceber onde pode procurar ajuda” de forma autónoma, principalmente fora das grandes cidades.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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