Por mais de um século, cientistas e a indústria de alimentos buscam alternativas que reproduzam o sabor do açúcar sem seus conhecidos efeitos negativos, como ganho de peso, cáries e aumento do risco de diabetes. Um estudo recente publicado na revista Cell Reports Physical Science indica que essa meta pode estar mais próxima de ser alcançada.
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Pesquisadores da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, desenvolveram um método biossintético para produzir a tagatose, um açúcar naturalmente existente, mas extremamente raro. A substância tem sabor muito semelhante ao do açúcar de mesa e pode oferecer menos impactos negativos à saúde — com possíveis benefícios adicionais.
A tagatose ocorre em quantidades mínimas em alimentos como leite e derivados, além de frutas como maçã, abacaxi e laranja, geralmente representando menos de 0,2% dos açúcares presentes. Por isso, sua obtenção sempre dependeu de processos industriais caros e pouco eficientes.
“Existem processos estabelecidos para produzir tagatose, mas eles são ineficientes e caros”, afirmou Nik Nair, professor associado de engenharia química e biológica da Universidade Tufts, ao portal Science Daily. Para contornar o problema, a equipe recorreu à engenharia genética, transformando a bactéria Escherichia coli em uma espécie de “fábrica microscópica”.
“Desenvolvemos uma forma de produzir tagatose ao modificar a bactéria Escherichia coli para funcionar como pequenas fábricas, carregadas com as enzimas certas para processar grandes quantidades de glicose em tagatose. Isso é muito mais viável economicamente do que nossa abordagem anterior, que usava a galactose, menos abundante e mais cara”, explicou o pesquisador.
O avanço foi possível graças à identificação de uma enzima encontrada em um tipo de bolor, capaz de gerar galactose a partir da glicose. Em seguida, outra enzima converte essa galactose em tagatose. Com o novo método, o rendimento chega a 95%, bem acima dos 40% a 77% obtidos por técnicas tradicionais.
Do ponto de vista nutricional, a tagatose apresenta cerca de 92% da doçura da sacarose, com aproximadamente 60% menos calorias. Classificada pela agência reguladora americana FDA como “geralmente reconhecida como segura”, ela provoca impacto muito menor nos níveis de glicose e insulina no sangue, o que pode ser vantajoso para pessoas com diabetes. Estudos clínicos apontam apenas aumentos mínimos desses indicadores após o consumo.
Há ainda indícios de benefícios para a saúde bucal, já que a tagatose não favorece o crescimento das bactérias associadas às cáries, ao contrário do açúcar comum. Pesquisas sugerem também possíveis efeitos probióticos, tanto na boca quanto no intestino.
Outro diferencial é o comportamento na cozinha: a tagatose doura quando aquecida e reproduz textura e sabor semelhantes aos do açúcar tradicional, algo que adoçantes intensos não conseguem fazer.
“A principal inovação na biossíntese da tagatose foi encontrar a enzima Gal1P do bolor e inseri-la em nossas bactérias de produção”, disse Nair. “Isso nos permitiu reverter uma via biológica natural e gerar galactose a partir da glicose. A partir daí, a tagatose — e potencialmente outros açúcares raros — pode ser sintetizada”.
Segundo os pesquisadores, a técnica pode abrir caminho para a produção mais eficiente de outros açúcares raros, com potencial para transformar o mercado de adoçantes e a forma como a doçura é incorporada aos alimentos no futuro.