O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apelou nesta terça-feira aos iranianos para que continuem a protestar e afirmou, sem fornecer pormenores, que a ajuda está a caminho, uma indicação de que poderá ter posto de parte a pressão diplomática e optado por uma acção militar contra o regime de Teerão.
Numa altura em que o número de mortes causado pela repressão aos protestos, os maiores registados no país em três anos, poderá ascender aos milhares, Trump utilizou a sua plataforma favorita, a Truth Social, para dizer que cancelou todas as reuniões com o Governo iraniano até que acabe a “matança sem sentido” de manifestantes. Na segunda-feira, numa entrevista à Al Jazeera, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, disse que o Governo de Teerão estava em contacto com o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e que se encontrava a analisar as propostas apresentadas por Washington.
“Iranianos patriotas, continuem a protestar – assumam o controlo das vossas instituições!!! A ajuda está a caminho”, escreveu o Presidente norte-americano na Truth Social.
A agitação social, desencadeada pelas graves dificuldades económicas, representa o maior desafio interno ao poder do regime clerical desde que os iranianos saíram à rua, em 2022, na sequência da morte da jovem Mahsa Amini às mãos da polícia da moralidade, pelo uso “indevido” do véu islâmico e surge num momento de crescente pressão internacional.
Um responsável iraniano, citado pela Reuters, afirmou nesta terça-feira que terão morrido cerca de 2000 pessoas, a primeira vez que as autoridades reconheceram um número tão elevado de vítimas mortais após mais de duas semanas de protestos. O número está de acordo com a estimativa da Human Rights Activists News Agency, sediada nos EUA.“Estamos horrorizados, mas ainda assim consideramos que o número é conservador”, afirmou uma responsável da organização, Skylar Thompson, citada pela Associated Press.
Por sua vez, o canal de televisão Iran International, com sede no Reino Unido, fala em 12 mil mortos. “Com base nos dados disponíveis e na verificação cruzada de informações obtidas junto de fontes fiáveis, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional e a presidência, a estimativa inicial das instituições de segurança da República Islâmica é de que pelo menos 12 mil pessoas foram mortas nesta vaga de mortes em todo o país”, refere o Iran International.
A própria televisão estatal iraniana reconheceu o elevado número de mortos na sequência dos protestos, afirmando que o país tinha “muitos mártires”.
O Governo afirmou também que foram criados tribunais especializados para lidar com os casos relacionados com os protestos. A Hengaw, uma organização curda iraniana de defesa dos direitos humanos, informou que um homem de 26 anos, Erfan Soltani, detido no âmbito dos protestos na cidade de Karaj, será executado nesta quarta-feira. Segundo a organização, as autoridades disseram à família que a sentença de morte é definitiva, citando uma fonte próxima dos familiares.
Tarifas antes das armas
Enquanto pondera uma acção militar, Trump anunciou, na segunda-feira à noite, a imposição de tarifas de importação de 25% sobre produtos provenientes de qualquer país que faça negócios com o Irão, uma medida prontamente criticada pela China, um dos principais importadores de petróleo iraniano, tal como Índia, Turquia, Iraque e Emirados Árabes Unidos. Pequim foi o destino, em 2024, de 77% das exportações iranianas de petróleo, segundo a empresa de dados Kpler.
Na Europa, vários países, incluindo Portugal, Reino Unido, França, Alemanha e Itália convocaram os embaixadores iranianos em protesto contra a repressão.
“O MNE chamou o embaixador do Irão em Lisboa para lhe transmitir de viva voz a condenação veemente, já reiteradamente feita nos últimos dias, da repressão violenta das manifestações e o apelo a que sejam respeitados os direitos das cidadãs e dos cidadãos iranianos”, escreveu na rede social X o ministério liderado por Paulo Rangel.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou, durante uma visita à Índia, acreditar que a liderança iraniana esteja nos seus “dias e semanas” finais devido aos protestos, disse que a Alemanha se mantém em contacto com os EUA sobre a situação no país e instou Teerão a não reprimir os protestos.
Já a Rússia, aliada de Teerão, condenou o que descreveu como “interferência externa subversiva” na política interna do Irão, afirmando que as ameaças norte-americanas de novos ataques militares contra o país são “categoricamente inaceitáveis”.
“Aqueles que planeiam usar a agitação inspirada do exterior como pretexto para repetir a agressão contra o Irão cometida em Junho de 2025 devem estar cientes das consequências desastrosas que tais acções teriam para a situação no Médio Oriente e para a segurança internacional global”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, num comunicado divulgado nesta terça-feira.