Natural de Norfolk, em Inglaterra, Andre Yarham morreu aos 24 anos, depois de viver com uma forma rara e agressiva de demência que o fez envelhecer mentalmente décadas antes do tempo. Diagnosticado aos 22 anos, o seu caso evidencia como a demência pode atingir, também, pessoas jovens, e sublinha a urgência de investigação para compreender e travar a doença.

Cérebro

Andre Yarham começou a apresentar sinais de demência, em 2022, com a família a afirmar que se tinha tornado progressivamente esquecido e que, por vezes, ficava com uma expressão vazia no rosto.

Nos últimos meses de vida, perdeu a fala, deixou de conseguir cuidar de si sozinho, apresentava comportamentos inadequados e ficou confinado a uma cadeira de rodas.

A demência é geralmente associada à idade avançada. No entanto, algumas formas da doença podem surgir muito cedo e evoluir de forma alarmantemente rápida. Um exemplo é a demência frontotemporal, a diagnosticada a Yarham, de acordo com Rahul Sidhu, candidato a doutoramento em neurociência, na Universidade de Sheffield.

Papel da genética em casos de demência precoce

Ao contrário da doença de Alzheimer, que tende a afetar primeiro a memória, a demência frontotemporal ataca as áreas do cérebro envolvidas na personalidade, comportamento e linguagem. Estas regiões situam-se atrás da testa e acima das orelhas, nos lobos frontal e temporal.

Estas áreas ajudam-nos a planear, controlar impulsos, compreender a fala e expressar-nos. Quando sofrem danos, as pessoas podem mudar de formas descritas pelo candidato a doutoramento como “profundamente angustiantes para as famílias”, tornando-se retraídas, impulsivas ou incapazes de comunicar.

A demência frontotemporal é uma forma menos comum de demência, estimando-se que represente cerca de um em cada 20 casos, sendo especialmente cruel, uma vez que pode surgir e, jovens adultos.

Em muitos casos, a demência frontotemporal tem um forte componente genético: alterações em genes específicos podem afetar a forma como as células cerebrais processam proteínas e, em vez de serem degradadas e recicladas, essas proteínas agrupam-se dentro dos neurónios, interferindo com a sua capacidade de funcionar e sobreviver.

Com o tempo, as células cerebrais afetadas deixam de funcionar e morrem. À medida que mais células se perdem, o próprio tecido cerebral encolhe.

Demência precoce é uma incógnita até para os investigadores

O motivo pelo qual este processo pode começar em idades tão jovens não é totalmente compreendido. No entanto, “quando uma pessoa possui uma mutação genética potente, a doença não precisa de décadas para se manifestar”. Afinal, a mutação acelera o dano, e a resiliência habitual do cérebro falha.

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As ressonâncias magnéticas realizadas enquanto Yarham estava vivo mostraram uma redução impressionante para alguém tão jovem.

Contudo, comparar o cérebro de Yarham com o de alguém com 70 anos seria enganador, pois o cérebro dele não tinha “envelhecido mais depressa” no sentido habitual. Em vez disso, um grande número de neurónios tinha sido perdido em pouco tempo devido à doença.

Família doou o cérebro à ciência

Enquanto neurocientista, perguntam-me frequentemente como algo assim pode acontecer a alguém tão jovem. A resposta honesta é que só agora começamos a compreender a biologia que torna alguns cérebros vulneráveis desde o início.

Escreveu Rahul Sidhu, da Universidade de Sheffield.

Para que a ciência avance, a família de Yarham decidiu doar o seu cérebro para investigação, num gesto que o candidato a doutoramento descreveu como “extraordinário, que transforma a tragédia em esperança para outros”.

De facto, atualmente, a demência não tem cura. Uma vez iniciados os sintomas, não há forma de os travar, e os tratamentos que retardam os sintomas têm efeitos limitados.

Parte da razão prende-se com a complexidade extrema do cérebro, que ainda não é totalmente compreendida. Segundo Sidhu, cada cérebro doado ajuda a reduzir essa lacuna.