Quando Mendes chegou a Fátima para o primeiro momento de “contacto com a população” (pouca, até por causa da chuva, e composta sobretudo por lojistas) um jornalista aproveitava os costumeiros trocadilhos para perguntar ao candidato se as declarações de Cotrim sobre a segunda volta teriam constituído “um milagre”. Mendes sorria: “Se for a sua opinião não vou contrariá-lo”. A entourage ria-se com ele. Tudo parecia bem mais leve no candidato e na equipa, que se viram constantemente obrigados a lidar com os efeitos da tracking poll.

Afinal, Cotrim tinha acabado, no dia anterior, de lhe oferecer uma nova narrativa e uma nova forma de provar a relevância da sua candidatura. Com Mendes a precisar de falar ao centro, o liberal “associou-se ao Chega”, diagnosticava. E não largava o osso, num apelo declarado aos potenciais desiludidos de Cotrim. Não por acaso, Mendes refere-se sempre apenas a Cotrim como “o candidato da IL”, encostando-o ao partido de origem para tentar afastá-lo da AD.

“Os portugueses que votaram [antecipadamente] devem estar desiludidos ou sentem-se enganados. Provavelmente fariam um voto diferente”, atirou, acrescentando que isto também é uma “chamada de atenção” para o dia das eleições: “As pessoas não se podem enganar. Tornou-se ainda mais importante concentrar votos ao centro”.

O tom subia e Cotrim passava mesmo a constituir parte das ameaças à democracia. “Em função disto, a minha candidatura passou a ser mais necessária para defender a democracia”, garantiu. “Apelo a que concentrem por favor votos na candidatura que representa estabilidade, moderação e previsibilidade”, ou seja, a sua.

A narrativa da moderação e da previsibilidade vs o suposto radicalismo e a imprevisibilidade de Cotrim estava desenhada. E continuaria a ser o mote para o dia todo. Ao almoço, Mendes, que como qualquer veterano sabe que a política requer o killer instinct para tentar arrumar o adversário no momento certo, carregava nas tintas: Cotrim veio demonstrar um “falso arrependimento” pelas suas declarações. À noite, atirava a matar: “Imagine-se uma crise política. Imagine-se um conflito do Governo com o Parlamento, um veto político numa lei muito delicada. E imagine-se ter na Presidência alguém que não sabe onde é que tem a cabeça”.

A plateia riu-se, aplaudiu, concordou. Mas é preciso mais. E o esforço é visível. No mesmo discurso, Mendes estendia-se, muito mais do que é costume, nos apelos finais ao voto. Pediu que não se faça experiências na primeira volta, pediu “ajuda” para passar a mensagem, frisou que “ainda há muitos indecisos e que admitem trocar de voto”.

Ao almoço, tinha tido uma ajuda suplementar e inédita: a mulher, Sofia, que o tem acompanhado sempre no terreno, subia a palco para declarar o seu amor ao marido, dizer que se orgulha dele e da sua generosidade e receber um abraço e um beijo comovido de Mendes.

No final do dia, outro dos cérebros da campanha, Luís Campos Ferreira, pegaria no microfone para falar à plateia “sem medo”: para dizer que as sondagens historicamente falham, que esta campanha não serve “para ganhar sondagens”, que é preciso “abanar” o eleitorado, que talvez seja até preciso proibir sondagens em tempo de eleições. E para dramatizar, como se impõe: “As últimas 72 horas são decisivas”.

Campos Ferreira remataria pedindo otimismo, porque “prognósticos só no fim do jogo”. Já Mendes, ao sair do restaurante em que recebeu pela primeira vez a notícia da sondagem, ouviria um apoiante citar a célebre expressão de Pinheiro de Azevedo: “É só fumaça!”. “Grande, grande expressão!”, respondia o candidato. Resta saber se as sondagens serão só fumaça.

Ouça aqui a reportagem do Observador

“Amo-te”. Mulher de Mendes discursa na campanha