Na semana passada, Trump já tinha afirmado que a Gronelândia iria ser território dos EUA pela forma mais fácil ou difícil, mas esta é uma questão que se afigura bastante complicada, uma vez que a Dinamarca já fez saber que o território não está à venda.
Ainda assim, segundo a televisão norte-americana NBC a aquisição da ilha de 2.072.000 quilómetros quadrados poderia custar até 700 mil milhões de euros de acordo com académicos e ex-funcionários do governo dos EUA inquiridos por aquela estação.
Ou seja, segundo estes cálculos, seria mais de metade do orçamento anual do Departamento de Defesa dos EUA. A NBC cita um alto funcionário da Casa Branca que garante ter o secretário de Estado, Marco Rubio, recebido instruções para, nas próximas semanas, apresentar uma proposta para a compra da Gronelândia, sublinhando que este plano tem uma “alta prioridade” para Trump.
Esta será uma batalha complicada para a administração americana, uma vez que à chegada a Washington, na terça-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, deixou clara a sua posição: “A Gronelândia não quer ser propriedade dos Estados Unidos, governada por eles ou fazer parte deles. Escolhemos a Gronelândia que conhecemos hoje, como parte do Reino da Dinamarca.”
As razões do interesse estratégico e mineiro
Território autónomo da Dinamarca, a Gronelândia é a maior ilha do mundo, com uma importância geoestratégica e riquezas naturais sob o gelo que cobre 81% da sua superfície a atrair o interesse dos Estados Unidos.
A ilha situa-se no Ártico e tem uma área superior à França, Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Alemanha juntas, segundo o jornal norte-americano The New York Times, que refere esta quarta-feira que “se Trump conseguisse conquistá-la, seria a maior aquisição territorial da história dos Estados Unidos, incluindo o Alasca e a Califórnia”.
A Agência France Press aponta as principais razões do interesse dos EUA pela Gronelândia:
Setor mineiro pouco explorado
Desde 2009, cabe aos gronelandeses decidir sobre o uso das matérias-primas da ilha.
O governo local, que tem na pesca a principal fonte de rendimento, destaca as riquezas do subsolo, embora apenas duas minas estejam em atividade e a produção seja limitada.
Num momento de crescente procura por metais e minerais, a corrida a recursos inexplorados acelera e a Gronelândia poderá afirmar-se como um ‘eldorado’, apesar do ambiente polar inóspito e das infraestruturas precárias.
O acesso a estes recursos é considerado crucial pelos norte-americanos, que assinaram em 2019 um memorando de cooperação no setor.
A União Europeia (UE) seguiu o exemplo quatro anos depois.
Bruxelas identificou na ilha 25 dos 34 minerais da sua lista oficial de matérias-primas essenciais, incluindo terras raras.
A Amaroq, que explora a mina de ouro do território, pretende desenvolver a extração de terras raras, zinco, chumbo e prata, além de elementos críticos como germânio e gálio, podendo a produção arrancar em 2027 ou 2028.
Economicamente, a Gronelândia depende de uma subvenção de Copenhaga que representa um quinto do Produto Interno Bruto (PIB) da ilha.
Proximidade a Nova Iorque
Embora a justiça, a política monetária, externa e de defesa dependam de Copenhaga, a capital gronelandesa, Nuuk, está mais próxima de Nova Iorque do que da Dinamarca.
Washington mantém uma base militar ativa no nordeste da ilha, em Pituffik, um elo essencial do escudo antimíssil norte-americano.
Durante a Segunda Guerra Mundial, “quando a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha, os Estados Unidos apoderaram-se da Gronelândia e, de certa forma, nunca a deixaram”, disse a historiadora Astrid Andersen à AFP.
Para colmatar a falta de vigilância aérea e submarina a leste, a Dinamarca está a investir em patrulhas árticas, drones e radares costeiros.
Localização estratégica
Situada entre o Atlântico Norte e o Ártico, próxima dos Estados Unidos, do Canadá e da Rússia, a Gronelândia ocupa uma posição geográfica estratégica.
Trump acusa Copenhaga de não garantir a segurança do território face à Rússia e à China.
A Dinamarca rejeita as críticas e recorda o investimento de cerca de 12 mil milhões de euros para reforçar a presença militar no Ártico.
Horas antes de um encontro crucial em Washington com os responsáveis norte-americanos, o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, prometeu hoje “reforçar a presença militar” na ilha e intensificar o diálogo com a NATO.
População e forma de governo
A Gronelândia tem cerca de 56.600 habitantes, dos quais mais de 19.000 em Nuuk, segundo dados do Conselho Nórdico, de que faz parte.
A ilha integra a NATO desde 1949, como parte da Dinamarca, mas saiu da UE em 1985.
Mantém um acordo de pescas especial e é reconhecida como um dos territórios com associação especial à UE.
O rei Frederico X da Dinamarca é o chefe de Estado da Gronelândia, que tem um estatuto de autonomia, com um parlamento (Inatsisartut, 31 deputados) e um governo próprio, liderado pelo primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen desde abril de 2025.
O dia mais longo do ano, 21 de junho, é o dia nacional da Gronelândia.
*Com Lusa