Só agora em janeiro assisti a uma das melhores séries de 2025, “Verdade Oculta”, lançada no Brasil pela Disney+, sem grande alarde, em dezembro passado.
Criada por Sterlin Harjo, a dramédia se passa em Tulsa, segunda maior cidade de Oklahoma, e traz Ethan Hawke como protagonista. Ele interpreta Lee Raybon, um “historiador da verdade” (“truthstorian”), uma espécie de jornalista independente, dedicado a revelar tramoias, golpes e crimes que a grande mídia evita investigar.
O título original da série, “The Lowdown”, se refere a uma gíria usada por jornalistas. É um substantivo que significa “os fatos essenciais” ou “as informações inéditas” sobre um determinado assunto. Como adjetivo, “lowdown” descreve alguém ou algo desprezível.
A série gira em torno da investigação sobre o suicídio de um ricaço de Tulsa, irmão de um candidato a governador do Estado. Desconfiado de que haja algo criminoso por trás dessa morte, Raybon se envolve em inúmeras confusões e toma várias surras, seguidamente, enquanto vai conectando os fios da trama, que envolvem especulação imobiliária, supremacistas brancos e alguns assassinatos.
A atmosfera lembra um pouco “Fargo”, a série, com vilões cartunescos, capangas ignorantes e assistentes do herói trapalhões. O protagonista ganha a vida com uma livraria que vende obras raras e se orgulha de escrever para uma revista que publica reportagens longas.
Lee Raybon faz pensar em Hunter S. Thompson (1937-2005), o jornalista gonzo, que trabalhava chapado, interpretado por Johnny Depp em “Medo e Delírio em Las Vegas” (1998). Mas o personagem é livremente inspirado em Lee Roy Chapman (1969-2015), um historiador e ativista que publicou vários artigos sobre a história não contada de Oklahoma.
Hawke se entrega ao papel com enorme prazer. Está ótimo. Também merecem destaque Keith David como Marty Brunner, um detetive particular, a serviço do político Donald Washberg, vivido por Kyle MacLachlan, o eterno agente Dale Cooper de “Twin Peaks”. Peter Hayden Dinklage aparece em um dos oito episódios como ex-sócio de Raybon.
Hoje a segunda maior cidade de Oklahoma, Tulsa acumula um histórico de tensões e violências contra indígenas e negros. A cidade foi fundada no século 19 sobre um assentamento das etnias creek, kickapoo e osage, que posteriormente foram removidas a força de suas terras. Também foi lar de uma próspera comunidade negra, vítima de um massacre racial em 1921.
Antes de “Verdade Oculta”, esse violento e tumultuado passado de Tulsa já havia sido evocado em algumas importantes produções audiovisuais.
A minissérie “Watchman”, exibida em 2019, baseada na célebre HQ de Alan Moore e David Gibbons, relembra em detalhes a chacina de 1921. Vencedora de 11 prêmios Emmy, a produção da HBO deu nova visibilidade ao conflito racial, que teve início sob o pretexto de punir um homem negro que teria violentado uma mulher branca.
Igualmente premiada, “Reservation Dogs”, ambientada na zona rural de Oklahoma, foi a primeira série americana a apresentar roteiristas, diretores e um elenco quase inteiramente formado por indígenas.
A produção coloca em primeiro plano quatro adolescentes, que buscam se equilibrar entre o respeito à própria herança cultural e o desejo de se aventurar fora dos limites da reserva onde vivem. Criada por Sterlin Harjo, o mesmo de “The Lowdown”, e Taika Waititi, a série de 2021 tem três temporadas, disponíveis no Disney +.
Lançada nos EUA em setembro, “Verdade Oculta” dialoga bastante com essas duas produções. Uma segunda temporada já foi encomendada. Recomendo muito.
Colunas
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.