Quase nove meses depois, continuam por esclarecer muitos dos contornos do apagão energético de 28 de abril de 2025. Esta quarta-feira, foram ouvidos na na comissão parlamentar de Ambiente e Energia a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, a Autoridade Nacional de Proteção Civil e o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal.

O corte generalizado no abastecimento elétrico afetou Portugal e Espanha durante cerca de 11 horas.

O painel de peritos europeus que investiga o incidente – a Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês) – concluiu, no primeiro relatório factual sobre o assunto, que o apagão foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia.

No relatório, de 03 de outubro de 2025, o grupo classifica o incidente como de “escala 3” – o nível mais grave previsto pela legislação europeia – e descreve-o como “o mais significativo ocorrido no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”.

A falta de combustível nos hospitais, as pessoas presas em elevadores e as SMS tardias

A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) adiantou que uma das dificuldades foi a falta de combustível para os geradores dos hospitais.

Numa audição pelo grupo de trabalho da comissão parlamentar de Ambiente e Energia para apurar o que aconteceu no dia do apagão, o comandante nacional de emergência e proteção civil Mário Silvestre disse aos deputados que foi ativado um plano de comunicação de crise em todos os comandos e que foi possível, por exemplo, fazer videochamadas com a REN – Redes Energéticas Nacionais.

“Aquilo que nós não sabíamos foi que duas horas depois do evento havia hospitais sem combustíveis para os geradores”, disse o comandante.

José Manuel Moura, presidente da ANEPC, explicou que as únicas ocorrências que aumentaram estiveram relacionadas com a abertura de portas de elevadores, contabilizando-se mais de 400 episódios de pessoas fechadas em elevadores.

Quanto às mensagens enviadas pela ANEPC, que começaram a chegar já quando a eletricidade começou a ser reposta, José Manuel Moura defendeu que a ANEPC fez tudo o que podia ter sido feito. “O que nós podíamos fazer, nessa medida, foi feito. Foram carregados para o sistema mais 11 milhões de mensagens”, referiu o presidente da ANEPC, esclarecendo que a decisão de envio tardio ficou a cargo das operadoras de telecomunicações.

Sobre o conteúdo da mensagem, José Manuel Moura questionou: “O que é que as pessoas queriam saber? Quando é que voltava e o que aconteceu. Mas eram questões para um milhão de dólares”.

SIRESP apontou o dedo aos privados

Por sua vez, o representante do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) disse que as falhas de comunicações no apagão são da responsabilidade das operadoras privadas e negou que tenham existido falhas no SIRESP, uma vez que a energia da rede que falhou foi substituída por baterias.

“Não houve uma falha de energia do nosso lado. O que falhou foi a transmissão – a conectividade entre as torres e os transmissores”, explicou Vítor Judicibus, que acrescentou que a transmissão que falhou está a cargo de operadores de telecomunicações privados.

“A transmissão é toda suportada através de redes comerciais. Nós não temos soberania sobre essas linhas de transmissão. Se tivéssemos tido transmissão, se essas conectividades não tivessem falhado, teríamos 80% de rede a funcionar”, esclareceu.

Para Vítor Judicibus, a solução para ultrapassar estes constrangimentos passa por ter a soberania sobre a componente de transmissão.

Em resposta aos deputados, o representante do SIRESP considerou ainda que “o 5G [5.ª geração de redes de telecomunicações móveis], neste momento, é um mito”. “Não há 5G para comunicações críticas. Substituir o SIRESP é algo que para nós, SIRESP, não faz sentido”, acrescentou.

Interromper interligações? “Não era assim que protegíamos os consumidores”

Ouvido também no grupo de trabalho criado na Comissão de Ambiente e Energia da Assembleia da República, o presidente da ERSE defendeu que interromper interligações com Espanha para evitar um apagão energético não iria proteger os consumidores portugueses, pois implicava ter “máquinas elétricas” em permanência para substituir essa potência.

“É evidente que evitar o apagão em Espanha, evitar que ocorresse em Portugal, não era um custo eficaz, temos que ter consciência disso”, disse Pedro Verdelho quando questionado sobre o que era possível fazer para evitar o incidente energético.

“Temos nove interligações com Espanha. A capacidade técnica dessas interligações é superior à nossa ponta de consumo”, vincou, para a seguir defender que “estar a imunizar essas interligações” implicava, em alternativa, garantir reservas para assegurar que o sistema continuava a funcionar se um dos elementos falhasse, o que traria consequências para os consumidores.

“Se assumimos que vamos interromper a interligação para imunizar este fenómeno que aconteceu em Espanha, significava ter máquinas elétricas em Portugal em permanência, em funcionamento, para substituir aquela potência de interligação, o que de forma razoável [não era] aceitável. Não era assim que protegíamos os consumidores”, advertiu.

Na audição, na qual foi questionado pelos deputados do PSD, PS, Chega, IL, Livre e PCP, o presidente da ERSE disse ainda que o regulador teve de tomar “uma série de decisões” relacionadas com o facto de, no dia do apagão, a compra de energia para esse dia e para o dia seguinte já estar fechada.

“Houve muitas outras decisões que tiveram que ser tomadas, porque quando houve o ‘blackout’ [apagão], a compra e venda de energia nos mercados organizados já estava fechada para o dia 28 e para o dia 29”, disse.

Com o apagão, cerca das 11h30, “o que aconteceu [com a energia] realmente foi algo completamente diferente” e, por isso, “houve que tomar uma série de decisões para reverter essas situações, para garantir a estabilidade do funcionamento do mercado – a estabilidade dos consumidores, a sustentabilidade do mercado em benefício dos consumidores”, sublinhou.

“Todas essas intervenções foram tomadas pela ERSE em processos de consulta pública que deram origem a uma série de decisões complexas”, frisou, referindo-se à definição dos cálculos da energia comprada pelas comercializadoras antes do apagão e que acabou por não ser consumida.

O abrandamento da instalação de energias renováveis em 2025 afastou Portugal das metas climáticas, num ano marcado pela redução da incorporação renovável e pelo aumento da produção a partir de gás natural após o apagão, segundo a APREN.

Lusa | 12:33 – 12/01/2026