Pelo menos seis procuradores federais do Minnesota demitiram-se e vários supervisores do Departamento de Justiça (DOJ, na sigla em inglês, uma estrutura equivalente ao ministério da Justiça) comunicaram as suas saídas, após a polémica sobre a investigação da morte de Renee Good, atingida a tiro por um agente do serviço de imigração (ICE), na semana passada, em Minneapolis. A informação foi adiantada pela Associated Press (AP), que citou fontes ligadas ao processo.

As demissões surgem no âmbito de um aumento das tensões devido à decisão da administração Trump de excluir o estado do Minnesota da investigação sobre o disparo que a matou. Os advogados da divisão de direitos civis do DOJ, que geralmente investiga casos de alto perfil envolvendo polícias baleados, também foram recentemente informados de que a divisão não se envolveria nesta fase da investigação. O vice-procurador geral, Todd Blanche, afirmou esta terça-feira que “não existe fundamento para uma investigação criminal sobre direitos civis”.

Além disso, segundo a NBC, os procuradores dizem ter sentido pressão da liderança do Departamento de Justiça, liderado pela procuradora-geral Pam Bondi, quer a nível estadual quer federal, para investigar se a viúva da vítima teria alguma ligação a grupos ativistas. As diligências em curso decorrem sob a responsabilidade do FBI e do próprio ICE, que está a realizar um inquérito interno liderado por figuras próximas a Donald Trump.

Entre as demissões no Minnesota está, de acordo com duas outras fontes citadas pela AP, a do primeiro assistente do procurador dos EUA, Joe Thompson, que liderava uma investigação a um alegado esquema, avaliado em 250 milhões de dólares, de um programa da época da covid que tinha como objetivo o apoio alimentar a crianças em idade escolar.

A procuradora de Minneapolis, Mary Moriarty, disse à Reuters que as demissões mostram que os procuradores de carreira “não estão a ser autorizados” pela Administração Trump a “fazer o seu trabalho”. “E isso deve-se à política, não é por causa do que aconteceu verdadeiramente aqui”, precisou.

Estas são as mais recentes de uma onda de demissões de procuradores de carreira do Departamento de Justiça que se demitiram ou foram forçados a sair devido a preocupações com pressões políticas ou prioridades da administração Trump. Centenas de procuradores foram demitidos ou abandonaram o cargo voluntariamente no último ano, noticiou a AP.

O governador democrata do Minnesota, Tim Waltz, disse à NBC que as demissões “são uma perda enorme para o nosso estado. É o mais recente sinal de que o Presidente Trump está a afastar profissionais apartidários do Departamento de Justiça”. A cidade de Minneapolis e o estado do Minnesota anunciaram na segunda-feira que avançaram com uma ação judicial contra o Governo do Presidente norte-americano, Donald Trump, devido às operações em grande escala conduzidas pela imigração federal nas últimas semanas.

Cerca de 46% dos norte-americanos apoiam extinção de ICE após morte de Renee Good

Uma sondagem do YouGov/The Economist mostra que, pela primeira vez, há mais cidadãos norte-americanos a favor da extinção do ICE (46%) do que contra (43%).

Além disso, 47% dos inquiridos consideram que o ICE está a tornar os norte-americanos “menos seguros”, em contraste com 34% que acham que a agência cria “mais segurança” no país. A sondagem foi realizada entre 9 e 12 de janeiro, após a morte, a 7 de janeiro, de Renee Good.

Metade dos norte-americanos inquiridos, considerou que o assassinato de Renee Good “não foi justificado”, ao passo que menos de um terço o considerou “justificado”, e os restantes disseram não ter a certeza, segundo a sondagem da empresa internacional de estudos de opinião YouGov e da revista norte-americana The Economist.

O inquérito mostrou também que quase três quartos da população (73%) pensa que o ICE deve usar fardas quando faz operações de detenção, e 56% afirmaram que não deveria ser permitido que usem máscaras, como denunciaram pessoas detidas pela agência.

Quase metade (49%) declararam ter “muito pouca” confiança no ICE, em comparação com 15% que expressaram “grande confiança” e 17% que manifestaram “enorme confiança”.

O incidente aumentou o escrutínio da agência por parte de democratas progressistas, tendo a congressista Alexandria Ocasio-Cortez reiterado que a sua posição continua a ser a de extinguir o ICE, responsável pela execução da política de deportações em massa do Governo Trump.

Mas o ICE anunciou na semana passada um aumento de 120% do seu contingente, após a contratação de 12 mil agentes, elevando o total para 22 mil, graças à “grande e bela lei” assinada por Trump no ano passado, que a tornará a maior agência de segurança dos Estados Unidos.

A sondagem foi realizada junto de uma amostra de 1602 cidadãos norte-americanos através de entrevistas digitais e tem uma margem de erro de 3,3%. O ICE foi criado em 2003 pelo então Presidente, George W. Bush (2001-2009), após os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001.