Astrônomos utilizando o Telescópio Espacial James Webb (JWST) descobriram o que está sendo descrito como um verdadeiro “mistério de assassinato cósmico”: a galáxia GS-10578, apelidada de Galáxia de Pablo, foi lentamente “morta” porque seu buraco negro supermassivo central consumiu ou expulsou o gás frio necessário para o nascimento de novas estrelas, deixando o sistema sem combustível para criação estelar apenas alguns bilhões de anos após o Big Bang.
A galáxia está localizada a cerca de 11 bilhões de anos-luz da Terra, o que significa que os astrônomos a observam como ela era cerca de 3 bilhões de anos após o início do universo — ainda em sua fase juvenil, quando muitas galáxias estavam ativamente formando estrelas. Pablo’s Galaxy, apesar de ter uma massa equivalente a cerca de 200 bilhões de vezes a do Sol, mostrou uma característica intrigante: parou de gerar novas estrelas muito mais cedo do que o esperado para objetos tão grandes e jovens.
Galáxia esganada
Os pesquisadores conseguiram isso ao combinar dados do JWST com observações do radiotelescópio ALMA, no Chile. Essas observações permitiram rastrear o movimento e a composição do gás dentro e ao redor da galáxia. O que descobriram foi que o buraco negro no centro da galáxia repetidamente aquecia ou expulsava grande parte do gás frio que forma estrelas, impedindo que ele retornasse ao sistema e, assim, “estreitando” seu suprimento de combustível estelar ao longo do tempo.
Esse processo foi descrito como uma “death by a thousand cuts” — morte por mil cortes — porque não foi um evento catastrófico único, mas sim uma série contínua de perdas de gás que gradualmente deixaram a galáxia sem recursos para formação estelar.
Os cientistas acreditam que o buraco negro não só acelerou o gás quente para fora da galáxia em velocidades impressionantes, como também criou ventos cósmicos que dificultaram a reposição de novo gás frio. Na prática, isso “estrangulou” o sistema: sem esse gás frio, as estrelas deixaram de se formar, e a galáxia entrou em um estado que os astrônomos chamam de “quiescente” ou moribunda — uma galáxia grande, mas sem novo crescimento estelar.
Essa descoberta é importante porque confirma teorias de longa data sobre o papel que buracos negros supermassivos desempenham na evolução de galáxias, não apenas como objetos que atraem matéria, mas também como agentes capazes de regular ou até suprimir a formação de estrelas em seus anfitriões. Estudos prévios já haviam sugerido essa conexão, mas o poder de resolução e sensibilidade do James Webb — combinado com dados de ALMA — tornou possível observar os mecanismos desse processo em detalhes em uma galáxia tão antiga.
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.