À partida, Mata-te, Amor, parecia ter tudo para sair bem. Um casal de estrelas de cinema – Jennifer Lawrence e Robert Pattinson – que se revelaram e fizeram o seu nome em superproduções e franchises de grandes estúdios, mas que querem mostrar que têm vida e valor enquanto atores em filmes fora do mainstream industrial assinados por realizadores respeitados; Sissy Spacek e Nick Nolte em papéis secundários; Martin Scorsese entre os produtores; um argumento em que participaram duas dramaturgas, Alice Birch e Enda Walsh, com base num livro bem referenciado da argentina Ariana Harwicz, Mátate, Amor (2017), que o próprio Scorsese recomendou à também produtora Lawrence; e realização da britânica Lynne Ramsay (Temos que Falar Sobre Kevin, Nunca Estiveste Aqui), que também colaborou no guião.
[Veja o “trailer” de “Mata-te, Amor”:]
O resultado final: um filme catastrófico. Um jovem casal, Grace (Lawrence) e Jackson (Pattinson) muda-se para o campo, para a casa de um tio deste, que se suicidou. Grace quer escrever um romance, mas fica grávida e tem que cuidar do bebé e da casa, enquanto o marido (cujo emprego nunca fica bem claro, algo relacionado com música) fica longos períodos ausente. Um dia, Jackson oferece um cão à mulher para ela se sentir mais acompanhada, mas o presente tem o efeito oposto ao pretendido, porque o animal não pára de ladrar e de fazer disparates e porcarias em casa.
[Veja uma entrevista com a realizadora:]
A rapariga começa a dar sinais de desconcerto metal e de desequilíbrio emocional, seja por sofrer de depressão pós-parto, seja porque sente que a relação sentimental e sexualmente intensa e recompensadora que tinha com o marido se perdeu e se sente frustrada, além de desconfiar que ele a pode andar a enganar. Grace mergulha então numa espiral de agitação descontrolada e imprevisível, que deixa estupefactos quer Jackson, quer o espectador: gritaria, comportamentos histriónicos e animalescos, tentativas de automutilação, palavras e gestos violentos, alucinações, atitudes socialmente embaraçosas. Pouco ou nada falta nesta ementa de clichés do desatino físico e do colapso psicológico extremo.
[Veja Robert Pattinson e Jennifer Lawrence falarem sobre o filme:]
A forma que Lynne Ramsay escolheu para nos fazer sentir aquilo por que a personagem está a passar, foi tornar o filme tão insuportável para nós como a situação está a ser para ela. A provação de Grace passa assim também a ser a nossa, e infligida com uma insistência, uma inclemência e uma tal agressividade visual e sonora (para o que também contribui a interpretação de Jennifer Lawrence, atirada aos lobos para explodir a seu bel-prazer para a câmara, já que Pattinson praticamente desaparece de cena a certa altura), que acabam por mergulhar Grace, e a fita, primeiro no ridículo, e depois numa espécie de burlesco sádico, com um final de onirismo pirómano.
[Veja uma sequência do filme:]
Mata-te Amor autodestrói-se em simultâneo com a sua protagonista, e Ramsay deita fora não só o bebé e a água do banho, como também a bacia e a canalização. O filme, a espaços, faz-nos recordar Repulsa, de Roman Polanksi, com Catherine Deneuve, e Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes, com Gena Rowlands, também eles sobre mulheres que perdem o norte perante o espanto e a impotência daqueles que as rodeiam, o primeiro enveredando pelo terror psicológico, o segundo apostando no mais impenitente naturalismo. Mas ambos são infinitamente mais imaginativos e substanciais em termos de cinema e de drama, pelo que qualquer semelhança entre eles e esta pepineira desassossegada, cansativa e vã, é pura coincidência.