Os professores Fernanda Scagliusi e Carlos Negrato explicam os estudos recentes sobre os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras

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Fotomontagem na qual se vê uma fita métrica ao lado de vários medicamentos usados para emagrecimento, alguns deles ainda em cartelas e outros espalhados pela superfícieOs efeitos a longo prazo desses medicamentos ainda são incertos – Arte sobre fotos fita-métrica e remédios/Freepik
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Estudo publicado pela revista Nature Medicine sugere que medicamentos à base de tirzepatida usados para tratamento de obesidade, conhecidos como Mounjaro e Zepbound, podem suprimir as atividades cerebrais associadas a desejos por alimentos e silenciar o food noise do nosso cérebro. Fernanda Scagliusi, professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, explica o funcionamento desses medicamentos: “Esses medicamentos mimetizam hormônios intestinais que estão envolvidos na regulação do apetite e do metabolismo, principalmente os receptores de GLP-1 e GIP. Na prática, isso significa que ele aumenta a sensação de saciedade, reduz a fome, acelera o esvaziamento de gás e melhora parâmetros metabólicos, como glicemia e sensibilidade à insulina. É importante colocar que eles não agem apenas no trato gastrointestinal, eles também agem no sistema nervoso central, modulando circuitos cerebrais relacionados ao apetite, a recompensa, o desejo por comida”.

Os possíveis efeitos colaterais
Fernanda Baeza Scagliusi – Foto: Arquivo Pessoal

Fernanda também ressalta os efeitos colaterais que esses medicamentos podem causar. “Os mais comuns são gastrointestinais, como náusea, vômito, diarreia, constipação, sensação de estufamento, especialmente no começo do tratamento, durante o ajuste de doses. Também pode ocorrer fadiga, tontura, perda excessiva de peso ou uma perda importante de massa muscular. Isso ocorre em pessoas que perdem peso muito rápido, independentemente do método, não necessariamente só com esses medicamentos. Também podem surgir problemas de vesícula e no funcionamento do pâncreas.”

A professora defende a ideia de que os efeitos colaterais vão além dos sintomas tradicionais. “Do ponto de vista sociocultural, é importante colocar que esses efeitos não são vividos pelas pessoas de forma neutra. Num contexto de muita pressão estética, de forte pressão para emagrecer, muitas pessoas tendem a normalizar ou minimizar desconfortos físicos em nome do resultado corporal.”

Efeitos a longo prazo são incertos
Carlos Antônio Negrato – Foto: Arquivo Pessoal

O endocrinologista Carlos Antônio Negrato, professor da Faculdade de Medicina de Bauru da USP, explica que os efeitos a longo prazo desses medicamentos ainda são incertos. “No estudo publicado na revista Nature Medicine foi utilizado um método bastante raro que avaliava o registro da atividade elétrica cerebral em regiões do cérebro ligadas à motivação, recompensa e desejos alimentares. Foi identificado que a tirzepatida reduz os sinais cerebrais que levam ao aumento da compulsão alimentar. Esses sinais foram menores durante o uso da tirzepatida, sugerindo que ele pode modular temporariamente a atividade destes circuitos de recompensa e premiação que o paciente tem relacionados à medicação.”

“Entretanto, é um estudo pequeno, limitado, com poucos participantes. Não foi um estudo clínico randomizado, controlado, e esse efeito foi reduzido com o tempo. Parece que ele não se sustentou durante muito tempo após a suspensão do medicamento da tirzepatida. Isso não significa, obviamente, pelo tipo de estudo, que a tirzepatida causa danos no cérebro ou diminui a atividade cerebral global. Mas pode, sim, modificar por algum tempo os padrões de atividade em circuitos específicos que lidam com a recompensa alimentar”, afirma Negrato.

O food noise na prática

Fernanda explica que o chamado food noise tem uma origem controversa. “Esse termo, food noise, surgiu nos Estados Unidos e não foi a partir da ciência ou do campo médico. As pessoas que começaram a tomar esses remédios começaram a dizer isso, principalmente nas redes sociais, que havia um “barulho” na cabeça delas, pensando em comer o tempo todo, e que, ao usar esses medicamentos, esses pensamentos intrusivos eram interrompidos. Não é uma coisa que começa no indivíduo. Ele tem a ver com a reatividade ao ambiente, e que o food noise é um produto, ao mesmo tempo, da gordofobia estrutural, da cultura da dieta e do sistema alimentar fracassado que a gente vive, além do sistema social fracassado que a gente vive.”

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo

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