Vários rappers portugueses, que cresceram na Linha de Sintra, atingiram o sucesso sem a ajuda dos meios tradicionais de divulgação, como rádio e televisão, e alcançaram nas plataformas digitais discos de ouro e milhões de visualizações.
“Nós não tínhamos acesso a managers, não tínhamos acesso à distribuição” conta à Lusa o músico Prodígio, nome artístico de Osvaldo Moniz. Nesse sentido, “vendíamos os nossos trabalhos de mão em mão”, vestidos “com aquelas roupas largas”, imagem dos artistas da música urbana, que engloba estilos como o rap e o hip-hop.
O rapper Osvaldo Moniz, conhecido por Prodígio
José Sena Goulão/LUSA
O rapper, de 37 anos, nasceu em Angola, mas cedo veio viver para Queluz, na Linha de Sintra. Aí criou os seus primeiros sucessos. Muitos deles tiveram como temas “álcool, miúdas, um bocadinho de boémia”, o que terá, na sua opinião, contribuído para alguma penalização. “A gente não passava na rádio” e “não éramos bem-vindos na televisão”, descreve.
O produtor musical Daus, nome artístico de Pedro Silva, confirma. “Os rapazes que vêm do urbano estão habituados a fazer com pouco, então criaram mecanismos e foi tudo criado à volta do não ter, de não contar com esse lado”, quer da parte televisiva, quer da rádio.
O produtor de RAP, Daus
MIGUEL A. LOPES / LUSA
“Normalmente, um artista urbano começa a explodir no próprio meio dele, na zona onde mora, e depois vai se alimentando por aí, neste caso na Linha de Sintra, se for preciso”, explica Daus. Em declarações à Lusa, acrescenta que estes artistas se acostumaram “a não ter qualquer tipo de apoio” na divulgação em meios tradicionais.
No entanto, as portas estão agora semiabertas, até porque este estilo musical começou a ser visto como capitalizável, o que é facilmente perceptível pelos milhões de audições e visualizações que os rappers acumulam nas plataformas digitais.
Para isso, há meios que não podem falhar, como o Spotify, um serviço de música, podcast e vídeo digital que dá acesso a milhões de músicas e a outros conteúdos de criadores de todo o mundo. Também o YouTube, apesar de hoje ter menos relevância, ainda é um canal importante para a carreira do artista.
A rádio continua a ser um bom canal para a parte de exposição do artista, bem como os festivais, que deviam estar mais abertos a estes talentos. Talentos que enchem salas, mas ainda assim são desvalorizados em relação aos que vêm de fora, referem.
Muitos destes “soldados urbanos” já vivem totalmente da música, como Ivandro. O seu tema Lua, single lançado em 2022, permitiu ao cantor e compositor nascido em Angola e criado na Linha de Sintra alcançar um feito que coube a poucos. Atingir um Disco de Diamante, só possível após 80.000 vendas e streams.
O rapper Ivandro
ANDRÉ KOSTERS / LUSA
O seu primeiro álbum (Trovador, 2024) teve mais de 100 milhões de streams, sendo também Diamante. Os primeiros passos na música, porém, foram dados ainda na escola de Mem Martins, onde agora sempre que regressa é recebido por um batalhão de fãs. Ivandro tem uma agenda cheia de espectáculos.
Tal como T-Rex (Daniel), que cresceu em Monte Abraão e recorda os primeiros passos na música, sentado numa cadeira no seu quarto a usar um microfone comprado “no chinês”. Desde que viu a sua música transformar-se em dinheiro entendeu que alcançaria os seus objectivos financeiros. Os fãs ajudaram esse propósito e, em 2023, o seu álbum de estreia (Cor D`Água) foi o mais ouvido, tendo já recebido vários Discos de Ouro e Platina.
O rapper T-Rex
MIGUEL A. LOPES / LUSA
Aos 28 anos, conta hoje com “pessoas capacitadas” para o ajudar a ganhar a vida com a música, seja através dos streams, dos concertos ou dos direitos de autor. E com a fé, que acredita ser o motor de todos os sonhos.
O rapper Landim, 37 anos, assistiu à explosão do rap em Mem Martins e lembra-se bem dos primeiros tempos, quando os recursos eram nenhuns, mas a criatividade sobrava. À Lusa, conta que o freestyle (improviso de rimas na hora) sempre funcionou como um exercício de ajuda à criatividade.
“Hoje em dia, em poucos minutos, consegues fazer uma música com o telefone, com dois ou três gadgets consegues fazer uma música. Antigamente era um bocadinho mais difícil, mas também se calhar era aí que estava o prazer de remar contra a maré”, diz. Acrescenta que “não havia Master, Spotify, YouTube ou distribuição digital. Não havia nada disso”.
Hoje, apesar da difusão desta música através das redes sociais, dos streams nas plataformas e dos milhões de seguidores, estes artistas continuam a queixar-se de não terem igual destaque na rádio ou nos festivais. “A gente ainda olha muito para o estrangeiro e para o lado, como se a galinha do vizinho fosse melhor do que a nossa galinha”, afirma T-Rex, dizendo acreditar que a qualidade vai conseguir levar estes artistas até onde desejam.
O músico e produtor Fumaxa recorda-se bem do pouco que havia quando começou na música urbana, em comparação com as ferramentas digitais actuais e até uma inteligência artificial que, quer se queira quer não, assusta os criadores.
O produtor Fumaxa
MIGUEL A. LOPES / LUSA
“Antigamente era um bocado mais difícil, não havia muito conhecimento. Eu com 14 anos não fazia o que o meu sobrinho faz”, descreve. O artista explica que o sobrinho aprendeu a tocar piano no YouTube, nunca teve aulas para isso. Considera que esta panóplia à disposição facilita muito e abre uma janela de oportunidades a vários jovens, que podem seguir o que quiserem, seja na música, seja no vídeo, seja no que for.
E até a inteligência artificial pode dar uma ajuda, ao nível de produção e da criação. No entanto, Fumaxa destaca que “a IA ajuda, mas é o artista que mais manda”.