No final do ano, os picos epidêmicos na França se multiplicam, e um protagonista menos visível ganha terreno: o adenovírus. Mais robusto que muitas infecções sazonais, ele preocupa os médicos por sua resistência e pela facilidade de transmissão. Em várias regiões, exceto em La Réunion, os serviços de saúde observam um aumento de casos respiratórios com sintomas que lembram a gripe.
O quadro clínico inclui febre alta, tosse persistente, fadiga intensa e, em certos casos, manifestações digestivas ou oculares. Essa sobreposição de sinais confunde pacientes e atrasa o diagnóstico, favorecendo a circulação comunitária do vírus. Ao contrário da gripe, ele tolera melhor ambientes secos e produtos comuns de desinfecção.
Um adversário mais robusto do que a gripe
O adenovírus não possui envelope lipídico, o que o torna mais resistente em comparação com vírus como o influenza ou o SARS-CoV-2. Essa estrutura permite sobrevivência prolongada em superfícies secas, como maçanetas e brinquedos, e dificulta sua inativação por gel hidroalcoólico.
Segundo o Dr. Eric Sachinwalla, do Jefferson Health, “o adenovírus é muito contagioso porque é mais resistente; água e sabão, ou desinfetantes comuns, nem sempre bastam, o que lhe permite persistir por mais tempo no ambiente”. O resultado é uma cadeia de transmissão que se mantém ativa por dias ou até semanas.
Como se transmite e por que engana
A transmissão ocorre por contato direto com secreções respiratórias e, menos frequentemente, por via manuportada. Objetos compartilhados, mãos mal higienizadas e gotículas respiratórias são os principais vetores. Em alguns surtos, a via fecal-oral também tem papel, sobretudo em ambientes de crianças pequenas.
A Dra. Fabienne Kochert, presidente da AFPA, lembra que superfícies aparentemente limpas podem abrigar partículas infecciosas por longos períodos. Essa persistência explica por que cadeias escolares e famílias observam contágios em sequência, mesmo com cuidados básicos.
Sinais a vigiar e riscos para os mais frágeis
Os sintomas mais comuns são febre entre 39 e 40°C, dor de garganta, tosse e cansaço. Em crianças, a gastroenterite por adenovírus é frequente, com diarreia e vômitos. A conjuntivite e a ceratoconjuntivite podem ocorrer, causando olhos vermelhos e fotofobia dolorosa.
Na maioria dos casos, o quadro é autolimitado e melhora em uma ou duas semanas. Contudo, lactentes, idosos e imunodeprimidos correm risco maior de complicações, como bronquiolite, pneumonia e desidratação. Neles, a vigilância deve ser mais estreita e o acesso ao médico antecipado.
Prevenção eficaz no dia a dia
Como é mais tenaz que a gripe, a prevenção exige medidas rigorosas e consistentes. Priorize ações que reduzam a carga viral no ambiente e quebrem cadeias de contágio:
- Lave as mãos com água e sabão por 40–60 segundos, com fricção metódica das superfícies.
- Prefira desinfetantes à base de cloro ou peróxido, seguindo as instruções do fabricante.
- Evite compartilhar toalhas, cosméticos oculares, copos e talheres.
- Ventile ambientes por 10–15 minutos, várias vezes ao dia.
- Limpe teclados, maçanetas e celulares com produtos adequados e pano seco.
- Em caso de conjuntivite, não use lentes de contato e higienize os olhos com cuidado.
- Mantenha hidratação regular e descanso suficiente, reduzindo exposição a aglomerações.
“É a combinação de bons hábitos e de desinfecção adequada que faz a maior diferença”, reforça um consenso de especialistas em infecções respiratórias. A repetição de gestos corretos, várias vezes ao dia, é essencial para frear a transmissão.
Tratamento e quando procurar ajuda
Não há antiviral de uso rotineiro contra adenovírus, e o tratamento é de suporte. Controlar a febre com paracetamol, manter boa hidratação e repouso são as bases da recuperação. Descongestionantes e colírios lubrificantes podem aliviar sintomas, com orientação profissional.
Procure assistência se houver febre persistente por mais de 72 horas, dificuldade para respirar, dor torácica, sinais de desidratação ou piora súbita do estado geral. Em bebês pequenos e pessoas frágeis, é prudente consultar mais cedo para evitar complicações.
Um alerta oportuno para o inverno
Com múltiplos vírus em circulação, o adenovírus encontra terreno fértil para se espalhar silenciosamente. Sua resistência a desinfetantes comuns e a capacidade de causar quadros respiratórios e oculares exigem atenção e disciplina nos cuidados. A boa notícia é que, na maioria dos casos, o sistema imunológico dá conta do recado com apoio simples e medidas de prevenção consistentes.