A proposta de voto de repúdio pela morte da cidadã norte-americana Renee Nicole Good – abatida a tiro por agentes dos serviços de imigração e alfândega dos EUA (ICE), a 7 de janeiro –, apresenta pelos vereadores do Partido Socialista, foi chumbada pela coligação que lidera a Câmara Municipal de Lisboa (CML), esta quarta-feira.

Na sua declaração de voto, o presidente Carlos Moedas, argumentou repudiar a morte de Renee Good e querer “que lhe seja feita justiça e que todos os factos sejam devidamente averiguados”, mas que “a CML não é o espaço apropriado para fazer declarações, exigências ou reivindicações sobre algo que as autoridades norte-americanas devem investigar, apenas porque nos pode beneficiar politicamente no imediato”. Com ele votaram os vereadores do PSD, CDS, IL e Chega.

O voto de repúdio apresentado pelos vereadores do PS condena a atuação das autoridades federais norte-americanas que tentaram impedir uma investigação plena e faz um alerta para a degradação do Estado de Direito nos Estados Unidos e a escalada autoritária sob a administração de Donald Trump. Lamentando a votação de Moedas, contra o voto de repúdio apresentado, a vereadora Alexandra Leitão (PS) reforçou, esta quarta-feira, que este “é um caso que representa uma atuação claramente violadora dos direitos humanos e do Estado de Direito” e que “não se compreende esta posição, sobretudo quando o argumento de que a Câmara não se deve pronunciar sobre matérias fora da sua competência e de política externa é contraditório com o facto de a maioria ter apresentado e aprovado votos sobre Corina Machado e sobre o Irão”. Acrescentou ainda que os vereadores socialistas consideram que “esta incoerência fragiliza a credibilidade institucional e o compromisso da cidade com os direitos fundamentais”.

Contudo, Moedas defendeu que “os EUA têm a robustez institucional para que o caso possa ser averiguado e clarificado” e argumentou que uma tal tomada de posição da CML poderia “colocar em causa as próprias relações diplomáticas com um aliado fundamental de Portugal”. Outro dos argumentos usados assenta na inexistência de “mobilização por parte da comunidade americana em Lisboa relativamente ao sucedido em Minneapolis”, enquanto houve protestos da comunidade iraniana em Lisboa contra o regime de Teerão.

Neste contexto, os vereadores da Coligação Por Ti, Lisboa (PPD.PSD/CDS-PP/IL) aprovaram um voto de solidariedade para com o povo iraniano, “que, fazendo ouvir a sua voz nas ruas de centenas de cidades por todo o país e arriscando por isso a sua vida, desafia corajosamente a repressão totalitária da República Islâmica do Irão”; e saudaram a comunidade iraniana de Lisboa, “que se tem mobilizado nas ruas da cidade em apoio às ações de contestação do atual regime iraniano”. O Bloco de Esquerda também apresentou um voto de solidariedade neste sentido.

A coligação que apoia Moedas apresentou e aprovou ainda um voto de saudação à venezuelana Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz em dezembro de 2025, pelo seu papel na defesa dos direitos democráticos na Venezuela e na luta por uma transição pacífica da ditadura para a democracia.

Já a proposta de voto de condenação da agressão militar dos EUA contra a República Bolivariana da Venezuela e sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, Cília Flores, apresentada pelo vereador comunista João Ferreira, também acabou chumbada.