Henrique Gouveia e Melo não conseguiu disfarçar a irritação quando o assessor lhe confirmou, com um aceno de cabeça, que André Ventura tinha mesmo utilizado uma farda militar como os jornalistas tinham perguntado. A quente, foi duro, mas ainda carregaria nas críticas no comício da noite. “Hoje assisti a uma coisa que me deixou profundamente chocado, que foi ver um candidato que não foi militar, que não fez Serviço Militar Obrigatório, que não se ofereceu para as Forças Armadas a utilizar uma peça uniforme. É indigno“, disse num comício com apoiantes na Alfândega da Fé.
Gouveia e Melo fez questão de falar diretamente para André Ventura: “O senhor não merece andar fardado. Não ande fardado por favor. Não ande a fazer desse tipo de coisas.” O almirante avisou o líder do Chega que “não vale tudo” e recupera o caricato episódio nos incêndios do verão passado. “Quando o vi assim, lembrei-me de uma coisa do género, que foi a falta de respeito aos bombeiros. Quando havia incêndios há 12 dias esse candidato apareceu depois para fazer um filme com um raminho a apagar um foguinho. É indigno, senhor candidato. Os bombeiros não gostaram de ver e eu também não”.
O almirante, aí já numa referência a António José Seguro, diz que não gostou de ver um candidato a pedir para fazer filmagens numa instalação militar, quando no passado se limitou a “fazer instrução” e depois foi “para o gabinete de um ministro” cumprir o período do Serviço Militar Obrigatório. Gouveia e Melo referia-se a uma notícia do 24 Horas que deu conta que António José Seguro se teria escapado a passar mais tempo na tropa porque foi requisitado como assessor por um ministro de Cavaco Silva.
Gouveia e Melo voltou a evocar Ramalho Eanes pela terceira vez em três dias: “Quando dizem que um militar pode ser mau Presidente da República” esquecem-se que “o melhor Presidente foi precisamente um militar”, numa alusão à sondagem da Intercampus. Além disso, lembra, Eanes “ajudou à realização e à materialização da nossa democracia. Sem ele, não estávamos com a democracia que temos hoje. Ramalho Eanes é um herói nacional e um exemplo para mim.”
O almirante também alertou que uma segunda volta entre Seguro e Ventura pode levar a esquerda e a direita a acordarem com um Presidente que não querem. “A esquerda pode correr o risco de acabar com o Presidente da extrema-direita”, diz o almirante. E, sentido inverso, alerta, “a direita pode acabar por inutilidade do seu voto com um Presidente da esquerda.” No fim garante aos indecisos: “Sou equilibrado, moderado, honesto e estou aqui para vos servir até à morte, se assim for necessário”.
Rui Rio falou antes no mesmo comício para lembrar que há um “exército enorme de portugueses que ainda não sabe em quem votar” e explicou que, para eles, é preciso falar de forma “direta e concisa”. O antigo líder do PSD diz que André Ventura “não quer ganhar estas eleições” e apenas “usa as eleições como trampolim”, o que significa que “não respeita o cargo de Presidente da República”. O antigo líder do PSD diz mesmo que “o Chega acabaria no dia seguinte se André Ventura fosse eleito, porque o Chega não tem outro líder possível. Acabava. Por isso ele não quer ganhar”.
Para Rio o País precisa de um Presidente “que não faça oposição ao Governo”, já que a missão presidencial é ajudar o Governo. Mas Gouveia e Melo, ao contrário de outros, “ajudará o Governo, mas ajudará porque não tem partido. Tanto faz que seja partido A ou do partido B.”
Rui Rio visa de novo André Ventura dizendo que meteu na sua “caixa de correio” um flyer que dizia “mais salários, mais pensões, menos subsídios, menos tachos”. Ora, o Presidente não pode fazê-lo, o que significa que o líder do Chega utiliza o “descontentamento para enganar as pessoas, não para gerar uma mudança real.”
O antigo ministro socialista, Manuel Pizarro falou ainda antes do líder do PSD para dizer que o almirante uniu todas aquelas pessoas “dizendo o que pensa”. E desabafou: “Acho que nunca estive no mesmo lado de Rui Rio”.
Contrariando António José Seguro — que acusou o almirante de “não ter uma ideia” — lembra que Gouveia e Melo disse o que pensa contra o Código Laboral e sobre o SNS. E também que não precisou de “mensagens dos aléns, dos respetivos secretários-gerais” para dizer que era “inadmissível do ponto de vista do Direito Internacional” a intervenção dos EUA na Venezuela.
Manuel Pizarro diz que “nenhum partido apresentou para estas eleições um candidato que chegue sequer aos calcanhares de Henrique Gouveia e Melo.” Depois de ter citado Francisco Sá Carneiro na Póvoa de Varzim, Pizarro citou agora Mário Soares: “Sou um homem de esquerda, um socialista. E antes de ser socialista sou democrata. E, antes ainda, sou português. ” O antigo governante aproveita o embalo de Soares para dizer: “É por ser de esquerda, democrata e, acima de tudo, por ser português, que me sinto tão honrado por apoiar o almirante Gouveia e Melo.”