A maioria dos europeus já não vê os EUA como um aliado fiável e apoia cada vez mais o rearmamento. Por outro lado, os cidadãos das principais médias potências esperam que a já considerável influência global da China cresça na próxima década. Isso é especialmente notório na África do Sul (83%), no Brasil (72%) e na Turquia (63%). Na União Europeia (UE), a maioria das pessoas espera que a China se torne, nos próximos dez anos, líder mundial na produção de veículos elétricos e no desenvolvimento de tecnologias de energia renovável.

Estas são as principais conclusões de um novo relatório intitulado “Como Trump está a tornar a China grande”, da autoria dos especialistas em política externa Timothy Garton Ash, Ivan Krastev e Mark Leonard, baseado numa sondagem realizada em vários países, a quarta de uma série de inquéritos globais.

Cerca de um em cada quatro inquiridos na China, Rússia, Ucrânia e nos próprios EUA, espera que a influência norte-americana diminua. Entre os cidadãos da UE, a mudança na perceção dos Estados Unidos é especialmente pronunciada: apenas 16% consideram agora os EUA um aliado, enquanto uns impressivos 20% os veem como um rival ou inimigo.

Na maioria dos países, as pessoas reduziram as expectativas em relação a Trump. No final de 2024, 84% dos indianos considerava a vitória de Donald Trump positiva para o seu país. Esse número diminuiu agora para 53%. O sentimento predominante mudou de uma ampla aceitação para uma crítica alargada.

Independentemente do que Trump possa afirmar, as políticas da Administração norte-americana em relação à Europa não representam um novo consenso interno americano. De um modo prevalecente, a opinião pública americana (40%) considera a UE um aliado, enquanto 49% concorda com a opinião de que “a segurança europeia também é segurança americana”. Apenas 29% discordam. Ao mesmo tempo, mais de metade (54%) dos norte-americanos considera a guerra da Rússia na Ucrânia uma ameaça à segurança americana.

Na Rússia, a Europa é vista como um adversário com quem estão em conflito (51% contra 42% no ano passado). Menos pessoas na Rússia consideram agora os EUA um adversário: apenas 37% contra 48% no ano passado e 64% há dois anos.

Os europeus estão entre os mais pessimistas do mundo atual. Muitos duvidam que o futuro traga algo de bom para os seus países (49%) ou para o mundo (51%). Parece haver um apoio razoável em toda a Europa ao aumento das despesas com a defesa (52%), à reintrodução do serviço militar obrigatório (45%) e até mesmo ao desenvolvimento de uma dissuasão nuclear europeia (47%).

“Esta sondagem mostra que o mundo pensa que o Ocidente morreu. Os europeus já não veem a América como um aliado. Os ucranianos procuram agora o apoio de Bruxelas em vez de Washington e os russos veem a Europa – e não a América – como o seu maior inimigo. A campanha de Trump para colocar a América em primeiro lugar tornou-a menos popular entre os aliados e ajudou a colocar a China na pole position”, afirma o cofundador e diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla inglesa), Mark Leonard.

O relatório foi publicado esta quinta-feira pelo ECFR em colaboração com o projeto “Europe in a Changing World”, da Universidade de Oxford e da Fundação Calouste Gulbenkian.

O relatório baseia-se em dados de inquéritos recolhidos em novembro de 2025 em 21 países com 25.949 inquiridos e em sondagens realizadas pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos, China, Índia, Rússia, Turquia, Brasil, África do Sul e Coreia do Sul.