O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (Sepna) da GNR estão a investigar o que aparenta ser um caso de envenenamento que terá resultado na morte de pelo menos 17 milhafres-reais, em Leomil, concelho de Almeida. A ave tem estatuto de protecção e está classificada no Livro Vermelho como Criticamente em Perigo (para a população residente, que cá nidifica) ou Vulnerável (para a invernante).
O caso terá chegado ao conhecimento da GNR nesta segunda-feira, dia 12, após o alerta de uma pessoa que se deparou com as primeiras aves mortas. Pedro Prata, do projecto Rewilding Portugal, diz que os milhafres-reais (Milvus milvus) mortos estavam próximos de um dormitório utilizado pelas aves e que é dos poucos que existem do lado português, já que a maior parte desses locais escolhidos pela espécie para pernoitar se encontra do lado espanhol. Por isso, sublinha, a morte de tantos animais por cá “tem consequências muito mais altas”.
Por enquanto, o ICNF não adianta qualquer causa para a morte das aves selvagens, limitando-se a indicar que foi feita “uma vistoria conjunta” do seu serviço de Vigilância e Fiscalização e da GNR no dia seguinte à denúncia para “prospecção e recolha de indícios”, estando a decorrer “os procedimentos previstos em situações” como esta. “Assim que sejam conhecidos os resultados das análises forenses às provas e indícios recolhidos no local, o ICNF tomará, no âmbito das suas competências, as providências que venham a revelar-se necessárias”, responde.
Também a GNR se recusa, por enquanto, a arriscar o que terá estado na origem da morte destes milhafres, com o responsável das relações públicas da GNR da Guarda, tenente-coronel Joni Ferreira, a afirmar apenas que, depois de contactados pelo ICNF, estiveram no local, onde “foram recolhidos os cadáveres de 17 milhafres-reais e alguns meios de prova”, que estão agora a ser analisados.
Sobre a possibilidade de se estar perante um envenenamento propositado, diz que, para já, não é possível determinar se foi isso que aconteceu. “O caso está em investigação e só com o resultado dos exames em curso, nomeadamente laboratoriais, é que será possível saber algo mais”, afirma.
Contudo, um elemento da equipa de vigilância da Rewilding Portugal esteve também no local e o que encontrou não deixa lugar a muitas dúvidas sobre o que terá acontecido. “Foi colocado um isco envenenado, uma ovelha morta com veneno, num local usado pelos milhafres para pernoitarem em colónia”, denuncia Pedro Prata, que descreve que o alerta foi dado por volta das 8h. “Os primeiros milhafres a saírem do dormitório morreram logo ali e alguém que se apercebeu deu o alerta. Estiveram presentes o ICNF e o Sepna e, no dia seguinte, uma brigada cinotécnica da GNR, para tentar investigar a origem do veneno”, relata o biólogo.
“Impunidade”
José Pereira, da Palombar, que desenvolve vários projectos de conservação de espécies ameaçadas no país, com particular incidência no interior, também diz que a informação que lhe chegou aponta para o envenenamento como causa da morte dos milhafres-reais, algo que, salienta, não é novidade. “É uma espécie à qual temos vindo a dedicar um esforço muito grande e que tem sido alvo regularmente de episódios de envenenamento ilegal em várias áreas da região do Nordeste”, diz.
Tanto José Pereira como Pedro Prata salientam a existência do que dizem ser uma sensação de “impunidade” de quem continua a agir desta forma e que, salvaguarda o responsável da Palombar, são geralmente “grupos muito pequenos de pessoas, já que estas acções não são bem vistas nas comunidades”.
Sobre a morte destes milhafres, o porta-voz da Rewilding Portugal saúda o facto de estar a haver uma investigação, mas lamenta que nem sempre seja esse o caso. “Mortes com recurso a venenos proibidos são frequentes. Este caso não é diferente de outros que têm vindo a acontecer, a única diferença é que houve alguma preocupação em fazer investigação. Ainda há cerca de dois anos houve uma data de raposas envenenadas e não foi mexida uma única palha”, diz Pedro Prata. “Este caso é um bocadinho impactante por causa do número de indivíduos afectados e pela proximidade ao dormitório, mas morrerem dez raposas é igualmente trágico para o ecossistema, ainda que a espécie não seja tão prioritária. Felizmente, desta vez, está a haver investigação e toda a cadeia de prova vai ser assegurada.”
José Pereira refere que, ao longo do tempo, o milhafre-real tem sido “muito perseguido a nível europeu e sofre muitos episódios de envenenamento”, o que é ainda mais incompreensível dado tratar-se de uma espécie essencialmente necrófaga (alimenta-se de animais mortos) e que, quando caça, procura animais muito pequenos, como ratos ou insectos. Ou seja, não só tem um papel “fundamental na manutenção do ecossistema”, incluindo no combate à propagação de doenças ou pragas, como não é uma ameaça para quem, por exemplo, se dedica à caça.
“Não consigo perceber [como esta informação não passa]”, lamenta o biólogo. “O esforço é feito, mas se calhar é preciso ser mais ambicioso e envolver mais actores, porque esse trabalho de sensibilização acaba por ficar muito concentrado nas ONGA [organizações não governamentais de ambiente] que, por vezes, têm alguma dificuldade em ser ouvidas, por existir uma polarização muito grande, como se o movimento conservacionista estivesse contra estes sectores [agrícola e cinegético], o que não é verdade”, insiste.
Projecto a arrancar
Do lado da Palombar, salienta, o esforço de conservação é para continuar. A associação não só participa num projecto europeu de conservação do milhafre-real – cujos resultados dos últimos cinco anos deverão ser revelados em breve –, como está a iniciar um novo projecto nacional, financiado pelo Norte 2030 e pelo município de Miranda do Douro, que deverá traçar um retrato mais fiel e actualizado da espécie.
“O projecto visa monitorizar a espécie, fazer um censo da população reprodutora, monitorizar os ninhos, fazer campanhas mais dirigidas ao milhafre, nas áreas onde ainda ocorrem os poucos animais que restam no país. Queremos marcar indivíduos desta espécie na área do Parque Natural do Douro Internacional, que é onde está essencialmente concentrada a população reprodutora no país”, diz.
Os dados do ICNF apontam para a existência de apenas 50 a 100 casais reprodutores de milhafres-reais no país, com a população invernante (que passa cá o Inverno, mas não se reproduz no país) a não ultrapassar os mil indivíduos.
A Palombar espera vir a ter um retrato mais fidedigno e conseguir apoio privado para poder desenvolver mais acções de conservação da espécie. “Essa será a segunda fase do projecto, na qual queremos melhorar o habitat e conseguir mobilizar proprietários que possam aderir a medidas agro-ambientais que visam as aves de rapina”, explica.
A ameaça do envenenamento também continuará no radar da Palombar, que tem, inclusivamente, em curso o projecto Sentinelas, que recorre a aves marcadas com anilhas e GPS para perceber melhor as ameaças para a biodiversidade e ecossistemas que existem nos territórios que elas percorrem, e que vão sendo detectadas à medida que por ali se deslocam.
Os milhafres-reais, a par com os grifos (Gyps fulvus), são as sentinelas recrutadas para este projecto, que já permitiu identificar suspeitas de várias ameaças, como envenenamento e abate a tiro, colisão com linhas eléctricas ou utilização ilegal de laços, algumas das quais resultaram em participações às autoridades.